Em se tratando de pessoas que pretendem seguir pela vida em íntima afinidade com uma instituição que dá à espiritualidade e a religiosidade38 a tarefa de sustentá-los e de dar sentido às suas vidas e atividades, como compreender e ajudar no amadurecimento destas pessoas sem recorrer à categorias psicanalíticas tais como mecanismos de defesa do ego ou escalas de amadurecimento espiritual?
As pessoas que acompanho aspiram ser padres não primariamente por se identificar com a instituição Igreja, tampouco porque se identificam com Jesus Cristo. Em algum momento de suas estórias e história elas foram o próprio Cristo. Encarnar Cristo e não fixar sua identidade n’Ele é sinal de saúde mental39. Ser Cristo e manter-se como pessoa é tarefa evolutiva. Na metáfora viva os personagens (o eu que vive a experiência em conexão com a imagem de Cristo) se mesclam e fazem um novo conhecimento do ser. A metáfora que quer se fixar perde a leveza, deixa de ser metáfora e se solidifica. O congelamento é a neurose.
Manter-se vivo e móvel é crucial para quem deseja amadurecer na religiosidade, na espiritualidade. É tarefa de pesquisa a delimitação destes termos (PINTO, 2011; BELZEN, 2010; PARGAMENT, 2007; VALLE, 2005) e autores como os referidos tem se ocupado da questão. Minha indagação e minha busca referem- se à espiritualidade como valor e meta de vida no contexto específico de viver como padre da Igreja Católica. Ser Cristo, representar Deus como Pai é condição e escolha que passa pela instituição Igreja com suas normas e restrições, sua condição de instituição humana (ARNS, 1981) e, igualmente com sua aura de tradição e poder.
A pesquisa deve enfocar em primeiro lugar as múltiplas nuances desta espiritualidade e escapar das armadilhas que capturam o jovem seminarista fazendo-o parecer religioso ao invés de ser religioso.
Em segundo lugar, assumir que religião é um fenômeno cultural e que a religiosidade é sua contrapartida individual, subjetiva, pessoal.
Em terceiro lugar assumir que religião é um fenômeno multidimensional constituído por sub-culturas religiosas específicas que devem ser estudadas por
38 Cf Araújo, 2006; Morano, 2006; Morano, 2007; Rubio, 2008; Hoch, 2009; Pinto, 2011
39 Cf Morano, 2005. Carlos Domingues Morano, padre jesuíta, psicanalista e professor de Psicologia da Religião da Universidade de Granada, em uma de suas visitas ao Brasil apresentou sua visão da patologia que pode estar associada à identificação com profetas, místicos e iluminados.
outras áreas da ciência e que, em sua vertente individual, envolve todas as funções psíquicas e nenhuma função em particular. (BOYER, 2001; BELZEN, 2010, p. 129).
Para resumir a postura metodológica que adoto faço uso das palavras de Paiva (2007b. p. 183):
É esse um fenômeno universal que atrai a atenção de certo número de pesquisadores, independentemente do objetivo pessoal de demonstrar a validade ou não da religião. O termo “religião” inclui, em primeiro lugar, concepções, atribuições e histórias relacionadas com Deus ou deuses; em segundo lugar, sentimentos, afetos e emoções também relacionadas com essas entidades; em terceiro lugar, ações, práticas, ritos igualmente relativos a essas concepções e emoções. Note-se que a palavra “religião” reflete o viés da ciência ocidental, que torna possível o estudo desse fenômeno mas o circunscreve dentro de sua própria perspectiva.
Fazer Paiva dialogar com Belzen nos dá oportunidade de ir adiante no que é, de fato, relevante para uma pesquisa em Psicologia da Religião que deseja incluir o fato cultural em seu conhecer, ou ainda, que postula como epistemologia das ciências humanas a inclusão da cultura em seu fazer40. Belzen ocupa-se do processo pelo qual uma pessoa se torna religiosa, permanece religiosa ou não, como as demais habilidades culturais. Mas não exclui que um pesquisador possa estudar componentes psíquicos que aparecem em amplo leque de fenômenos religiosos. O que Belzen propõe (2010, p. 135-138) é que não paremos por aí e tenhamos presente que:
O funcionamento religioso tem que ser aprendido tanto pela criança que nasceu numa família religiosamente praticante quanto por uma pessoa que se compromete com uma nova comunidade ou tradição religiosa. Como isto pode acontecer, isto é, que fatores facilitam ou impedem o processo de aculturação religiosa, a conversão ou o amadurecimento (grifo meu) são questões típicas de pesquisa....
Para esta condição é imprescindível que se inclua os métodos de pesquisa da Sociologia e Antropologia: entrevista, observação, análise biográfica. O viés da psicoterapia lança nova fonte de observação em que pesquisador e objeto estão envolvidos de tal modo que o conhecer só pode ser sustentado por uma psicologia hermenêutica (MASSIH, 1997; MASSIH, 2008; BELZEN, 2010, p.141). Este último complementa a reflexão ao realçar os limites de uma pesquisa que já se inicia a partir de dentro de uma fé religiosa. Explicita ainda que a pesquisa deve incluir
saberes vindos da História, da Teologia e da Literatura41, deve ter cuidado na verificação das hipóteses e ter conhecimento dos valores culturais dos sujeitos envolvidos.
O campo que se abre é vasto, excede a capacidade de uma psicoterapeuta ocupada em compreender nuances de almas humanas há mais de 30 anos. Estimula, no entanto, o pensar de autores como Valle (2008, p.93) que convida para novas pesquisas no campo observando que Abraham Maslow “julgava não haver fundamento objetivo no caráter supostamente value-free que lhe haviam tentado incutir em seus anos de formação como psicólogo”. Independente do grau de religiosidade (ou irreligiosidade) dos pacientes a não sensibilidade aos valores (valuelessness) corroía a psicoterapia de sua época.
2.11. Exemplo concreto de aplicação do método
Inicio este tópico lembrando a afirmação de Cassirer (2000, p.104) de que jamais compreenderemos a mitologia se não soubermos aquilo que chamamos de antropomorfismo, personificação ou animismo que foi há muitas dezenas de milênios condição absolutamente necessária para o crescimento de nossa linguagem e de nossa razão.Muitas vezes, em situações de crise retrocedemos e nos identificamos com algo que de fato é não humano e, no entanto pode carregar sentidos figurados de temas humanos significativos. Meu objeto de estudo, o seminarista católico, tem que se haver ao longo de sua formação com três questões cruciais na vida humana: sexo, poder e dinheiro. Isto por conta dos votos de castidade, pobreza e obediência42. O exemplo a seguir se deu num contexto clínico que, em si, constitui um espaço lúdico e criativo, ancorado na imaginação de ambas as partes, terapeuta e paciente.
Para Cassirer, a metáfora primeira foi uma questão de necessidade e, na maior parte dos casos foi mais transposição de uma palavra levada de um conceito a outro do que criação propriamente. No exemplo a seguir houve criatividade da parte do cliente que, desdobrando uma experiência onírica, um sonho recorrente, trouxe ampliação para seu self narrativo.
41 Cf também Paiva, 1999; Dalgalarrondo, 2008; Serbin, 2008 42 Cf Morano, 2003
O jovem em questão apresenta vários problemas de relacionamento com seu formador, pessoa muito exigente que sempre o coloca à prova e é muito rigoroso com a questão do dinheiro. Isto faz com que o jovem passe por situações vexatórias do tipo não ter dinheiro sequer para pagar um café a um colega ou pagar uma passagem extra de ônibus ou metro. De tal forma que pensava em ‘desobedecer’ (um dos votos!) E começar a dar aulas para ter seu próprio dinheiro.
Esta intenção o coloca em conflito de modo que a traz para a sessão. Relata que tem dormido mal e tido fragmentos de sonhos ligados à sua infância. “Nada
especial” Assim é que por várias sessões, ao perguntar-lhe se desejava relatar
algum sonho, dizia-me que não havia sonhado nada que merecesse o relato. Refere-se então a uma imagem onírica recorrente: galinhas e galinheiros, memórias de sua infância, já que foi criado na roça. Chegou a dar nome a uma galinha. Era seu bichinho de estimação. Disse: “alguns tem cachorro ou gato, eu tinha uma
galinha que se chamava Bela”. Mas não era com esta que eu sonhava, era com
várias galinhas. Algumas botando ovo, outras em torno dos pintinhos, sempre galinhas.
Peço associações e ele diz: “mulher fácil. Hoje em dia se fala de homem ‘galinha’, aquele que ‘fica’ com todo mundo”. Mostra aí a relação da imagem da ave com temas ligados à sexualidade, que reprime. Refere-se também à produção de ovos, alimento que utiliza nas sextas feiras, dia em que se come peixe na casa de formação, o que não o agrada. Pede então à cozinheira que faça um ovo frito, como sua mãe fazia. Diz: “Fico alimentado até o jantar sem fome alguma”.
Então volta a seu tema das últimas sessões. Sente-se mal por depender do dinheiro da congregação para seus estudos e necessidades básicas. Como se vê, não aceita a pobreza (um dos votos) com naturalidade. Parece também não viver com naturalidade a obediência. Ter que pedir dinheiro ao superior? Mostrar-se humilde, ‘pobre’?
Toda esta pressão externa e interna o faz retroceder às suas origens: tudo tão mais simples, produzir e comer, alimentar os filhos tal como seu pai fazia, mundo simples e concreto.... “que saudades disto tudo. Aqui não sou nada!”.
Eu sabia de suas funções na casa de formação: cuidava da liturgia e lidava com a cozinheira na escolha do cardápio, compras de alimentos. “Sei escolher frutas..maduras para hoje e para amanhã, e as que devem durar até a próxima feira”. Conheço também seu bom aproveitamento na faculdade, tratava-se de um
dos melhores alunos da classe. Como terapeuta ia pedindo mais e mais associações, lembranças, estórias. Lembrou-se das mulheres da Bíblia, sempre “personagens secundários”. Disse a ele: “Se não houvesse personagens secundários, como haveria narrativas? De que modo a Bíblia contaria suas estórias carregadas de sentido?”
Olhou-me com espanto e disse subitamente: “Eu sou a galinha!”. Não sabia por que se identificava com a ave, “que coisa esquisita”. Digo a ele que galinha bota ovos, portanto se paga. Será que ele não deveria perceber também que seu trabalho na casa e seu aproveitamento na faculdade não estariam pagando sua formação. E que talvez este ‘outro’ que o incomoda, o formador, poderia dialogar com outra parte dele: aquela que cuida da Liturgia, que se esmera na limpeza da Igreja e dos objetos da casa, objetos esses com os quais também mantém diálogo? Recentemente havia me contado de um sofá de couro o qual cobria com um pano para que os colegas ‘descuidados’ não sujassem.
Quanto à sensação de falta de humildade ligada a não querer pedir, será que não deveria ultrapassá-la? Não se trataria de desobediência e sim de expressar suas necessidades reais, impondo-se sem deixar de ser obediente e pobre? E a clara ligação da palavra galinha com um tipo de sexualidade vista como imprópria? (Anjos, 1991) Como articular isto tudo? Abro esta conversa iniciada com a expressão: “eu sou a galinha” e juntos percebemos que uma imagem onírica e muita imaginação vão colocando ordem no caos e minorando o sofrimento inútil. Certo que ele não é uma galinha; certo também que é uma galinha neste momento em que seus recursos racionais se esgotam. Parafraseando Cassirer (2000,p.104-105): “Há lugar agora para o movimento de representação que leva o trasladar de um para outro e a substituir conforme a expressão, um pelo outro”.
Como metáfora viva galinha e paciente são agora um conceito só. Trata-se do ‘milagre’ da metáfora, que não é mais a transposição para outra classe já existente (galinha= classe das aves) que é diferente do paciente (classe dos postulantes à vida consagrada) mas à própria criação da classe em que ocorre a passagem: um seminarista pobre e casto, por vezes dialogando com a obediência estrita postulada pelo formador. Alguém que, a despeito do preconceito comum em instituições autoritárias, é auto-sustentável sim e precisa ter consciência disto sem se tornar cínico ou arrogante. Nada melhor do que uma galinha para representá-lo: ave sem
status que se paga, é dócil e só ostenta poder quando cuida de sua prole. Coisas
que aprendeu na infância de modo vivencial e prático.
Eu mesma utilizo uma analogia: “agora você abriu os olhos!” Os olhos e todo seu corpo ou corporeidade que fala de suas origens culturais: personagem secundário, sem bens exceto os produzidos para servir a ‘outros’43. A reflexão abre ainda para o diálogo com sua sexualidade, que deve ser pesquisada. Abre para sua relação com o formador, figura de autoridade com quem estabelece um diálogo de dominação. Nova posição do eu irrompe, expressa no personagem ‘galinha’, externo e interno ao si-mesmo. É de Hermans (2001, p.252) a afirmação abaixo:
Em outras palavras, posições internas e externas recebem seu significado ao emergir das mútuas transações que se dão o tempo todo. Deveria ser notado que todas essas posições (internas e externas) são posições do eu pois são parte de um self que é intrinsecamente estendido ao meio e responde aos domínios do meio que são percebidos como ‘meus’(ex. meu amigo, meu oponente, meu lugar de nascimento).
E mais, abre para a pergunta: trata-se mesmo da pessoa real do formador ou o mesmo reporta à sua baixa auto-estima, legitimada pela imagem grandiosa que tem da Igreja?(Anjos, 2004). Vê-se apenas como instituído, não tendo acesso à posição do eu-instituinte (CASTILHO, 2004). Aqui não há antes e depois: neste momento da captação da vivência ela se presentifica como metáfora. Uma relação ideacional entre galinha e paciente se concretizou neste momento curativo, significativo, simbólico. Trata-se de conhecimento que não pode ser generalizado: seminaristas não são galinhas. A metáfora que quer se fixar deixa de ser metáfora, perde sua sensibilidade ao conhecimento do objeto.