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Domínio VI- Aspectos espirituais/Religião/Crenças pessoais

Capítulo 4: Espiritualidade e Qualidade de Vida.

A espiritualidade, apesar de estar cotidianamente presente na experiência humana, por muito tempo foi rejeitada, e historicamente ignorada por muitos psicólogos (PANZINI et al, 2008). A medicina ocidental e a psiquiatria como um todo têm tido duas posturas relacionadas ao tema, a de negligenciá-lo, por considerar que esses assuntos são irrelevantes ou fora de suas áreas de interesse, ou a oposição ao tema, caracterizando as experiências religiosas como evidências de psicopatologias diversas (FLECK e SKEVINGTON, 2007).

Atualmente, a relação entre espiritualidade e saúde vem sendo explorada por estudos desenvolvidos de forma a levantar como as experiências de caráter espiritual ajudam a melhorar a qualidade de vida das pessoas (TEIXEIRA et al, 2004). Contudo, pesquisa envolvendo áreas de difícil mensuração se torna metodologicamente problemática. As correlações entre religião, espiritualidade e as variáveis em saúde mental em geral devem, segundo Sousa et al, (2004), ser examinadas de forma conjunta e não isoladamente.

O autor aponta alguns problemas epistemológicos comuns à essa pesquisa, que pode apresentar inadequações metodológicas diante da quantidade de fatores variados e que atuam simultaneamente, sendo eles,

(a) utilização de amostras com o viés da conveniência; (b) falta de controle das variáveis demográficas comuns; (c) um viés do caráter correlacional dos procedimentos de pesquisa e, em conseqüência, um desvio com (d) super- interpretação dos resultados, como, por exemplo, o achado extemporâneo, fictício, de relações de causa e efeito (SOUSA ET AL, 2004, pg.55).

Ainda em relação aos problemas metodológicos nos estudos entre a saúde e a religiosidade, uma questão levantada é a de como “medir” religiosidade. Em geral, diferentes estudos fazem diferentes avaliações da religiosidade, geralmente avaliada em relação à afiliação (católica, budista, outras), à prática religiosa (praticante, não-praticante) ou à freqüência dos cultos (semanal, mensal, outras) (FLECK et al, 2003).

Os termos espiritualidade, religiosidade, religião, crenças pessoais por vezes são utilizados de forma indiscriminada. Rocha et al (2008), faz uma distinção entre os esses termos;

A espiritualidade levanta questões a respeito do significado da vida e da razão de viver e não se limita a alguns tipos de crenças e práticas. A religião é definida como a “crença na existência de um poder sobrenatural, criador e controlador do universo, que deu ao homem uma natureza espiritual que continua a existir depois da morte de seu corpo”. Religiosidade é a extensão na qual um indivíduo acredita, segue e

pratica uma religião. Ainda que haja uma considerável sobreposição entre a noção de espiritualidade e de religiosidade, eles diferem entre si na medida em que, na religiosidade, há uma clara sugestão de um sistema de adoração e doutrina específica que é partilhada com um grupo. Crenças pessoais podem ser quaisquer crenças ou valores que um indivíduo sustenta e que formam a base de seu estilo de vida e de seu comportamento. Apesar de haver uma sobreposição com o conceito de espiritualidade, as crenças pessoais não são, necessariamente, de natureza imaterial, como no caso do ateísmo (ROCHA, 2008, pg. 93).

A autora ao citar Ross (1995) diz que a dimensão espiritual é dependente de três componentes que são evidenciados em três necessidades, sendo elas a de encontrar significado, razão e realização na vida; de ter esperança/vontade para viver; de ter fé em si mesmo, nos outros ou em Deus.

Outra definição possível é que a espiritualidade é uma propensão humana a buscar significado para a vida por meio de conceitos que transcendem o tangível: um sentido de conexão com algo maior que si próprio, que pode ou não incluir uma participação religiosa formal (SAAD et al, 2001). Em sua diferenciação com a religiosidade, a religiosidade envolve sistematização de culto e doutrina compartilhados por um grupo. Já a espiritualidade está afeita a questões sobre o significado e o propósito da vida, com a crença em aspectos espiritualistas para justificar sua existência e significados (SAAD et al, 2001).

Ambas as definições consideram o caráter mais sistematizado da religiosidade, associando-a a filiação em algum grupo, quando a espiritualidade está envolvida com questões do humano com sua busca por significados, sejam eles numa participação religiosa ou não.

Sarriera (2004) ao analisar a relação entre saúde, bem estar espiritual e qualidade de vida aponta que Viktor Frankl, um dos discípulos de Freud e Adler, durante o desenvolvimento da Logoterapia concluiu que o ser humano pode ser saudável psicofisicamente, porém pode ser uma pessoa frustrada existencialmente, ou, por outro lado, pode ter problemas psicofísicos mas ser existencialmente saudável. Sendo assim, ter qualidade de vida seria muito mais do que estar biopsicossocialmente com bem estar (SARRIERA, 2004) .

Roberto (2004) aponta que o termo espiritualidade sempre esteve associado à religião, e que só recentemente o termo vem sendo estudado de forma isolada. O autor faz uma associação entre religiosidade e espiritualidade, dizendo que os dois termos são “estados emocionais ou condições psicológicas e consciênciais que independem da religião e da filosofia” (ROBERTO, 2004).

Panzini et al. (2008) citam que a vasta maioria das pesquisas indicam que as práticas e as crenças religiosas estão associadas a melhor saúde mental e física. Koenig et al (2001) aponta que entre 255 relatos de pesquisas que se referiam à religião e saúde física, a maioria deles encontra resultados que são positivos da religiosidade em função da relação com a dor, debilidade física, doenças do coração, pressão sanguínea, enfarto, função imune, função neuroendócrina, doenças infecciosas, câncer e mortalidade.

O autor continua apresentado que de cerca de 850 estudos examinando religiosidade e saúde mental, a maioria demonstra que a religiosidade está associada à maior satisfação de vida, bem estar, maior senso de propósito e significado de vida, maior esperança e otimismo, maior estabilidade nos casamentos, menor índice de abuso de substâncias e menor ansiedade e depressão.

Além da associação entre religiosidade e saúde, as pesquisas vêm demonstrando que a espiritualidade/religiosidade possui relação com a qualidade de vida (PANZINI et al, 2008). Para ilustrar tal afirmação, destacam-se duas pesquisas ocorridas em Porto Alegre, RS.

No Brasil em 2002, Neusa Sica da Rocha desenvolveu uma pesquisa associando estado de saúde, espiritualidade/religiosidade/crenças pessoais e qualidade de vida. A pesquisadora contou com 122 pacientes e 119 indivíduos saudáveis da comunidade no Rio Grande do Sul, totalizando uma amostra de 241 pessoas. Os participantes responderam aos instrumentos WHOQOL-100, BDI, BHS e WHOQOL SRPB (teste piloto do módulo). Dentre outros resultados, pode-se concluir que houve uma associação positiva entre os domínios da QV com outros aspectos relacionados à SRPB.

Em 2004, também no Rio Grande do Sul, Raquel Panzini desenvolveu uma pesquisa que, dentre outros objetivos, tinha o de pesquisar a esperada relação entre qualidade de vida (QV), coping religioso espiritual (CRE) e saúde. Dentre os 616 participantes de sua pesquisa que responderam a WHOQOl-BREF, a escala CRE e um questionário geral elaborado pela pesquisadora, Panzini concluiu que dentre a população brasileira o coping religioso-espiritual está positivamente relacionado à qualidade de vida (PANZINI, 2004).

Panzini et al (2007) em uma revisão de literatura apresenta que além do WHOQOL- 100 e do WHOQOL-SRPB, alguns outros instrumentos de QV também apresentam dimensões espirituais/religiosas. Um exemplo disso é o Quality of Life-Cancer Survivors (QOL-CS), que possui uma subescala de bem-estar espiritual, além das subescalas de bem- estar físico, psicológico e social que, com dois subcomponentes (medos e angústias), completam essa escala visual analógica de 41 itens.

O teste de validação e verificação das propriedades psicométricas desse instrumento foram explorados em amostra de 177 crianças sobreviventes de câncer, de 16 a 29 anos (ZEBRACK e CHESLER, 2001), demonstrando, segundo a autora, “boa consistência interna, validade concorrente e discriminante (grupos definidos por estado de saúde e nível social)” (PANZINI et al, 2007).

Panzini et al (2007) continuam, apresentando que outro instrumento que apresenta essas características é o Self-Perception and Relationships Tool (S-PRT), vindo a ser uma medida subjetiva de QVRS validada em amostra clínica (pacientes psiquiátricos, cardiológicos, nefrológicos, oncológicos, com distúrbios do sono ou dor pélvica crônica). Ele possui 36 itens dispostos em cinco fatores/domínios: Bem-estar Intrapessoal (físico, mental e emocional), Receptividade Interpessoal, Contribuição Interpessoal, Receptividade Transpessoal e Orientação Transpessoal. A autora explica que os dois últimos itens são escalas/dimensões espirituais concernentes a características ou sentimentos ante a crenças e princípios universais ou à presença divina (ATKINSON et al, 2004).