1.2. O ESTATUTO DO TRABALHO NO PENSAMENTO DE SIMONE WEIL 1. Uma nova civilização do trabalho
1.2.2. A espiritualidade no trabalho
Como já enunciamos, a chave de leitura utilizada por nossa pensadora para compreender sua proposta de espiritualidade no trabalho pressupõe a relação entre a necessidade e o bem. No texto A ciência e nós, ela explicita que o mundo no qual trabalhamos nos é indiferente, tanto aos nossos desejos e aspirações, quanto ao bem, pois, há sempre uma distância a ser percorrida para a realização de nossas ações diante da matéria que constitui o mundo e não há o bem no mundo, visto ser ele sobrenatural.
No entanto, assim como o homem transpõe essa distância entre seu desejo e a realização do mesmo pelo trabalho, ele pode, em certa medida, transpor a distância entre a necessidade e o bem através da relação de seu próprio corpo em trabalho. Isso porque o corpo está submetido a uma dupla lei: da necessidade e do mistério, dada a condição paradoxal do homem em relação ao bem. A esse respeito S. Weil enfatiza:
É verdade que a matéria que constitui o mundo é um tecido de necessidades cegas, absolutamente indiferente às aspirações do espírito, indiferentes ao bem; mas em um sentido também isso não é verdade (...) O corpo de um homem, e em particular o corpo de um santo, não é outra coisa que a matéria, e é um pedaço do mundo, desse mesmo mundo que é um tecido de necessidades mecânicas. Nós somos regidos por uma dupla lei, uma indiferença evidente e uma misteriosa cumplicidade da matéria que constitui o mundo em relação ao bem; a lembrança dessa dupla lei é o que nos toca o coração no espetáculo do belo.83
Dessa passagem podemos depreender que a espiritualidade proposta por S. Weil aplica-se a todo e qualquer homem, daí a valorização do trabalho como a condição humana por excelência e daí o corpo em trabalho, enquanto matéria sujeita à necessidade, serem os motores de sua proposta de ressignificação espiritual de nossa civilização. Não há, nesse sentido, nenhuma qualidade sobrenatural que faz de um corpo humano ser santo, ou seja, ter acesso ao bem transcendente, visto que todo corpo é matéria sujeita à necessidade.
É preciso ressaltar que esta necessidade é uma ordem de condições, construída pelo homem para excluir o acaso, sendo um limite para o homem e, concomitantemente,
83 OC IV, 1, 147-148. No original : “Il est vrai que la matière qui constitue le monde est un tissu de nécessités aveugles, absolument indifférentes à nos désirs ; il est vrai aussi en un sens qu´elles sont absolument indifférentes aux aspirations de l´esprit, indifférentes au bien ; mais en un sens aussi ce n´est pas vrai. (...) Le corps d´un homme, et par suite en particulier le corps d´un saint, n´est pas autre chose que de la matière, et c´est un morceau du monde, de ce même monde qui est un tissu de nécessités mécaniques. Nous sommes régis par une double loi, une indifférence évidente et une mystérieuse complicité de la matière qui constitue le monde à l´égard du bien ; le rappel de cette double loi est ce qui nous atteint au coeur dans le spectacle du beau. ”
a possibilidade de nele compreender o mundo enquanto a linguagem de Deus. Para S.
Weil, o Bem é sinônimo de Deus e, em sua compreensão Deus criou o mundo e dele se retirou, o que a leva a destituir qualquer possibilidade de intervenção divina no mundo, mas também a leva a compreender que se o mundo é decorrente do Bem (transcendente), o mundo é a linguagem de Deus84. Assim, o contato do homem com a necessidade adquire um caráter providencial para nossa pensadora, não porque a necessidade seja o Bem (transcendente), mas por nos instruir sobre Deus. Daí decorre a relação misteriosa presente entre a necessidade e o Bem: “a necessidade é feita de condições, então de possibilidades e, entretanto, ela é a base do real”85.
Já em seus primeiros escritos, quando ainda aluna de Alain, nossa pensadora afirma que o mundo é para nós um obstáculo, onde só o conhecemos quando nele reencontramos a necessidade, fazendo de nosso próprio corpo uma ferramenta da percepção86 e isso será reafirmado anos depois ao dizer que “o contato com a necessidade é o que substitui ao sonho a realidade”87. Se a necessidade é a marca de toda ação do homem no mundo, pois, para nossa pensadora, agir sobre uma matéria é imprimir nela movimentos determinados pelo corpo, o contato com a necessidade liberta o pensamento das seduções da imaginação, permitindo ao corpo agir na realidade, em contato com a matéria que lhe resiste.
O real, dirá Simone Weil, é o contato com a necessidade do mundo, é a força que rege toda matéria presente no mundo, sendo assim uma força cega. E esta necessidade se mostra também através das leis do trabalho, que não se aplicam a determinados modos de agir sobre a matéria, mas a toda e qualquer ação transformadora do homem no mundo.
Isso porque as leis do trabalho estão inscritas no tempo e no espaço, como explica Simone Weil, influenciada pelas categorias kantianas, no ensaio Do Tempo, escrito em 1929:
A única lei de tal mundo é a justaposição. Assim, é somente pela experiência do trabalho que me são dadas, e sempre conjuntamente, tempo e extensão, o tempo como a condição, a extensão como o objeto de minha ação; a lei do trabalho engloba, quanto à minha ação, que ela dura, quanto ao mundo, que ele se estende.88
84 Cf. C VI, 3, 179. Analisaremos no próximo capítulo que compreender o mundo como linguagem, ou como um texto, exige do homem uma aprendizagem e, para S. Weil, essa aprendizagem é corpórea.
85 Ibid., 181.
86 Cf. OC I, 375-6.
87 OC IV, 2, 146.
88 OC I, 145. No original em francês: “La seule loi d´un tel monde c´est la juxtaposition. Ainsi c´est seulement par l´épreuve du travail que me sont donnés, et toujours ensemble, temps et étendue, le temps comme la condition, l´étendue comme l´objet de mon action ; la loi du travail enferme, quant à mon action, qu´elle dure, quant au monde, qu´il s´étende.”
Na sequência dessa passagem, a filósofa afirma que o mundo é um companheiro de trabalho para o homem. Isso porque há uma distância entre o querer e o realizar que é sempre mediado pelo trabalho, “existir é agir”89 e isso sempre se dá no tempo. É o trabalho que define o tempo, não a pura imaginação que nos é imediata. Para a filósofa francesa, há uma distância entre o homem e o mundo, inerente à própria condição humana, assim, o homem não pode apreender imediatamente o mundo, nem a si mesmo, pois dirá a pensadora, o caminho entre “eu” e “eu” se dá pela mediação no trabalho90.
A noção de distância se revestirá de um caráter espiritual quando Simone Weil remete à distância entre Deus e Deus representada na figura de Cristo na cruz. Tal será também a distância entre homem e mundo, assim ela dirá em seu texto O amor a Deus e a desgraça, datado de 1942: “Este universo onde vivemos, do qual somos uma partícula, é a distância posta pelo Amor Divino, entre Deus e Deus. Somos um ponto nessa distância. O espaço, o tempo e o mecanismo que governa a matéria são essa distância”91.
O real está associado à necessidade, pois para nossa pensadora, não há uma finalidade no mundo; mesmo a marca do trabalho não reside em sua finalidade, mas na necessidade que lhe é inerente. Como observou Chenavier, no prefácio dos Escritos de Nova Iorque e Londres, o lugar conferido pela pensadora francesa ao trabalho é constitutivo de uma filosofia do real assim como de uma filosofia do conhecimento, antes de ser o centro de uma forma de espiritualidade concebida como núcleo da vida social92. Mas de que modo o nosso corpo pode perceber de maneira verdadeira a necessidade presente no mundo? De que maneira é possível que diante da diversidade das coisas do mundo e da diversidade de ações do homem sobre o mundo (o trabalho sobre a matéria inerte), o homem possa ter acesso à unidade que origina todas essas coisas?
Existem algumas percepções que parecem distanciar o homem desse contato real, como no sonho ou na imaginação; enquanto há percepções que parecem permitir esse contato verdadeiro. Contudo, no trabalho moderno esse contato com o real se perdeu, em
89 Ibid., 150.
90 Cf. OC I, 148. É preciso observar que em seus escritos iniciais, ainda não está presente a noção de decreação – negação do eu – importante para a compreensão da relação entre homem e mundo e que será objeto de discussão ao final desse capítulo.
91 OC IV, 1, 354.
92 Cf. OC V, 2, 75.
decorrência da opressão operária e da cisão entre pensamento e ação; podemos dizer que o homem não percebe mais o caráter espiritual de sua ação no mundo, talvez porque o real foi substituído pela utilidade, como vimos na análise weiliana da força. Entretanto, seria possível ao homem reaprender a percepção desse real a partir de seu corpo em trabalho? Se a condição humana sempre esteve encarnada no trabalho, agindo sobre uma matéria antagonista, quais seriam as modificações corporais a serem realizadas para efetivar a contemplação da ordem do mundo?
CAPÍTULO SEGUNDO
A IMPORTÂNCIA DO CORPO NO PENSAMENTO DE SIMONE WEIL
Como já dissemos no capítulo anterior, S. Weil é fortemente influenciada pela Antiguidade Grega e vê nela a chave de leitura para propor uma nova civilização do trabalho. Mas qual é o estatuto do corpo para a pensadora francesa? De que maneira a apropriação weiliana da tradição grega interfere em sua compreensão do corpo? Eis as questões norteadoras desse capítulo.
2.1. O ESTATUTO DO CORPO NO PENSAMENTO DE SIMONE WEIL