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3 CONTRIBUIÇÕES SÓCIO-POLÍTICA-ECONÔMICAS POR MEIO DA

3.1 ESPIRITUALIDADE E ESTILO DE VIDA

3.1.1 Espiritualidade Vivida por Jesus

Deus participa e modifica a história por meio do nascimento de Jesus (Lc 1,26-38) e possibilita novas oportunidades com a praxis transformadora de Jesus. Dessa forma, liga o passado com o presente. Reaviva a esperança na misericórdia de Deus exercida no passado e atualiza para hoje. A esperança trazida por Jesus tem, portanto, a função de libertação da tirania estabelecida de vivências socioeconômicas e políticas em opressão às pessoas menos favorecidas.

A espiritualidade traz um poder de transformação atuante no presente, pois a vivência da fé é um processo contínuo, ininterrupto na vida dos que viveram no passado, vivem hoje e aponta para o futuro da mesma forma. A origem de Jesus advém da intervenção de Deus na história, por meio de um processo hierofânico. “Em Lucas, Maria praticamente é autônoma em relação a José e é protagonista da ação hierofânica: é com ela que o anjo comunica vida e teologia” (RICHTER REIMER, 2013, p. 19). Segundo Eliade, o sagrado se manifesta por meio do

hierofânico, temos na história considerações sobre relatos de hierofanias. (ELIADE, 1995).

Respondendo à pergunta de Maria que afirmara não ter conhecido homem, o anjo disse: “Virá sobre ti o Espirito Santo, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso o que há de nascer será chamado santo, Filho de Deus” (Lc 1,35). O anuncio e nascimento de Jesus, portanto, está envolto do sobrenatural conforme o Evangelho de Lucas valoriza a mulher e seu corpo – ventre, pois é da mulher que virá o representante de Deus para a humanidade.

As imagens utilizadas evocam a concepção de uma nova criação, sem intervenção de homem: assim como o espirito de Deus soprou e pairou sobre o caos nos princípios e revelou seu poder criador (Gn 1,2), assim repousará sobre Maria; seu poder a envolverá como uma sombra/nuvem, assim como outrora cobriu a tenda de Móisés (Ex 40,34-35). Portanto a narrativa está permeada de elementos numinosos (RICHTER REIMER, 2013, p. 19).

Todos esses acontecimentos, desde o livro de Gênesis até o Evangelho de Lucas, que narra o nascimento de Jesus, são evidenciadas ações misteriosas de Deus. Isso demonstra a relevância do nascimento de Jesus e explica a espiritualidade vivida por Jesus, dessa forma, o processo do nascimento de Jesus é primordial no Evangelho de Lucas, advém da história dos desprezados pela sociedade, vem legitimar a história da salvação, o anuncio do nascimento de Jesus a Maria é a expressão do poder soberano e misericordioso de Deus que interfere na história da humanidade, para trazer transformações de situações de miséria, que estava estabelecida na época.

O motivo da escolha de Maria foi por ter sido agraciada aos olhos de Deus, assim Maria torna partícipe ativa na história da salvação e transformação na história humana. Jesus nasce sem condições financeiras por parte de seus pais, em uma região pobre e pequena da Galiléia. Assim, mostra mais uma vez a inversão de valores na sociedade da época. Onde os pobres eram considerados insignificantes e foi a partir dos pobres, que veio as boas novas.

Segundo o Evangelho de Lucas, Jesus ia crescendo em sabedoria e graça (2,40), e ao completar 12 anos quando foi com seus pais a Jerusalém “segundo o costume da festa” (2,42), após as comemorações seus pais voltaram à Galiléia, na cidade de Nazaré e Jesus ficou em Jerusalém, sem comunicar a seus pais. “E aconteceu que, passados três dias, o acharam no templo, sentado no meio dos

doutores, ouvindo-os e interrogando-os” (2,46). E todos presentes ficavam perplexos de sua sabedoria e das respostas proferidas, sobre o que lhe era indagado.

Em seu ministério Jesus utilizou em seus ensinamentos recursos provenientes das próprias relações do dia a dia e se inspirava para falar ao povo na região galilaica em que viviam, Jesus costumava ensinar por meio de parábolas, que são uma forma de contar uma história, contudo, trazer um ensinamento importante e fundamental para as pessoas praticarem no cotidiano (BRAKEMEIER, 1987). Tais ensinamentos buscavam revelar um estilo de vida esperado para as pessoas. “Existem nítidas diferenças de estilo de vida e atitudes entre os camponeses do interior galileu e os ricos donos de terra das cidades” (STAMBAUGH e BALCH, 2008, p.88). Por isso, Jesus em suas palavras abarcava questões profundas de comportamentos e valores que foram construídos pela cultura e sociedade da época. “A Galileia não estava geograficamente isolada. Rotas de comércio ligavam as cidades da Galiléia baixa às cidades gregas da planície litorânea” (STAMBAUGH e BALCH, 2008, p.83). Havia influências helenistas que precisavam ser mudadas, por não coadunar com a espiritualidade desejada do Reino de Deus, que Jesus pregava.

Certamente a Galiléia onde Jesus exerceu seu ministério também devia ter uma cultura cosmopolita. Afinal, Séforis, Tiberíades, Tariquéia e outros povoados galileus ostentavam grande parte das instituições urbanas helenístico-romanas típicas que transformavam uma cidade numa polis: tribunais, teatro, palácio, ruas ladeadas por colunas, muralhas, mercadorias, arquivos, banco, anfiteatro, aqueduto, estádio (HORSLEY, 2000, p. 47) Percebe-se que havia tensões culturais, essa cultura greco-romana, exercia impacto econômico e social na vida dos judeus que ali viviam, a própria língua grega falada era evidencia inequívoca dessa influência. No ministério de Jesus ele propunha uma transformação libertadora baseada na justiça e misericórdia de Deus para as pessoas menos favorecidas e excluídas da sociedade vigente. No movimento de Jesus, essas pessoas que eram desprezadas tinham acolhimento.

Jesus e seu grupo se propunham a vivenciar sinais de mudança na vivência de sua espiritualidade que centrava na interpretação e na vivência de tradições e escrituras do povo judeu, na sua especificidade galilaica. A Boa- Nova, ‘evangelho” do Reino de Deus, concretizava-se na vivência, no ensino, nas curas, na acolhida, na crítica e na denúncia de injustiças e violências, no questionamento da economia e do sistema de dominação, no repúdio à ganância, ao ódio e à sede de vingança (RICHTER REIMER, 2010, p. 22).

As boas novas do Evangelho abarcavam todas as pessoas, os ricos e detentores do poder também foram chamados à mudança de vida e arrependimento, tanto o povo judeu, quanto outros povos. Zaqueu é um exemplo de pessoa rica que se arrepende e promete mudança de vida. “No Evangelho de Lucas, também o rico chefe de cobradores de impostos Zaqueu (Lc 19.1ss.) talvez represente um indício para a crescente importância dos crentes em Cristo provindos do grupo dos

retainers” (STEGEMANN e STEGEMANN, 2004, p. 352).

Jesus anunciava a libertação tanto para quem servia ao sistema opressor, quanto para quem era vítima deste sistema, proclamava que deveria haver uma reconstrução, na vida dos que historicamente foram escravizados, explorados, oprimidos e marginalizados pela sociedade.

O Evangelho de Lucas faz um apelo constante ao amor. Sendo a maior prova disso, o negar a si mesmo (9,23) e o controle das vontades próprias, a fim de que, pelo amor, venha buscar o bem comum às pessoas, à sociedade e à humanidade de maneira geral. “A linguagem do amor sempre foi e será compreendida por todos, de qualquer cultura, nação, língua, idade etc. O amor nunca precisou de traduções e explicações” (FERREIRA, 2012, p.18).

Jesus pregou o amor como fundamental nas relações humanas, também não isentou, cada um, de seus deveres como bons cidadãos, da responsabilidade individual, mas enfatizou a necessidade de assumir as obrigações socioeconômicas e morais como uma condição sinequanon para ser seu discípulo: “quem não leva a sua cruz e não me segue, não pode ser meu discípulo” (Lc 14,27). Assim Jesus, evoca a responsabilidade de cada pessoa, para assumir suas obrigações sociais, ou seja, sem tolher o direito de qualquer pessoa em prol de benefício próprio. “Mas acima de tudo provocando nas pessoas um encontro amoroso e íntimo com o Abbá- Paizinho e inaugurando uma ética de amor incondicional, de perdão ilimitado e de confiança irrestrita nos desígnios do Abbá-Paizinho” (BOFF, 2001, p. 36). Esse amor que Jesus expressava, era em decorrência do elo de ligação que tinha com Deus.

A maneira que Jesus referia a Deus como Abbá, ou seja, paizinho, revela uma comunhão estreita com Deus. Ter o Deus de Israel como patrono das pessoas, representaria “soluções para os problemas sociais existentes. O reino de Deus dominaria sobre as difundidas doenças geradas pelo mau funcionamento ou não funcionamento do sistema político” (MALINA, 2004, p. 146). Isto seria o governo ideal pregado por Jesus. Neste sentido, percebe-se que a comunhão de Jesus com

o transcendente conduz a uma espiritualidade que se importa com a situação das pessoas oprimidas e sofridas, por vários motivos, seja doenças, ou questões econômicas, sociais e políticas.

Significativamente, a proclamação de Jesus a respeito do reino de Deus, uma teocracia envolvendo religião política bem como economia política, envolvia o governo de Deus. Mas na tradição de Jesus, o Deus de Israel não era um monarca, mas sim um patrono. A atitude de Jesus com respeito a Deus como pai era uma resposta/solução para que tipo de questão/problema/situação? A resposta: para uma situação que requer patronagem. Deus é e será Pai (MALINA, 2004, p. 145)

Se Deus fosse o patrono haveria justiça para as pessoas, já que as elites judaicas e os romanos exploravam e oprimiam os pobres. Deus como patrono de Israel, o seu Reino se concretizaria plenamente entre o povo e estabeleceria uma teocracia renovada. Desta forma, percebe-se que a espiritualidade vivenciada por Jesus idealizava uma ação concreta de justiça. Portanto, a espiritualidade exige ações que corroborem para promoção e instauração da justiça social.

A espiritualidade de Jesus e sua comunhão com o Pai era alimentada e fortalecida pela oração. Ele procurava compreender a vontade do Pai. Essa vida de oração revela um estilo de vida dependente e submisso aos desígnios de Deus. Uma vida com uma missão clara e única de obedecer a Deus, conforme 6,12: “Naqueles dias retirou-se para o monte a fim de orar; e passou a noite toda em oração a Deus.” Isto demonstra que Jesus buscava em Deus resposta para seu ministério, tinha por meio dos seus momentos a sós com Deus, em oração, sua espiritualidade fortalecida, costumava subir em montes para orar (9,28).

O Evangelho de Lucas contém várias outras alusões à oração, (3,21; 5,16; 11,1; 23,46). A narrativa lucana, portanto, demonstra a importância da oração para fortalecimento da espiritualidade. Desta maneira, percebe-se uma interação do ministério de Jesus com o transcendente. Jesus vivencia comunhão direta com o Pai – Deus, e, ao mesmo tempo, com as pessoas.

De acordo com o Evangelho de Lucas, Jesus estava no Monte das Oliveiras, colocou-se de joelhos e orou “Pai, se queres afasta de mim este cálice; todavia não se faça a minha vontade, mas a tua. Então apareceu um anjo do céu, que o confortava” (22,42-43). Isso evidencia conforme a narração lucana, que a vontade humana de Jesus não era ser crucificado “E, posto em agonia, orava mais

intensamente; e o seu suor tornou-se como grandes gotas de sangue, que caíam sobre o chão (22, 44). Após isso, Jesus levanta e vai ao encontro dos discípulos, com a convicção necessária de acordo com sua intimidade com Deus, que sua missão seria dolorosa, todavia não reluta contra isso, justamente por entender conforme sua espiritualidade, que tal sofrimento seria necessário para libertação e salvação das pessoas.

Percebe-se, portanto, que a vida de Jesus foi conduzida pela oração e espiritualidade, até sua crucificação. Jesus durante toda sua vida, externava aos outros, por meio de sua práxis libertadora, a fraternidade. Jesus convivia harmonicamente com as pessoas, tratando-os sem discriminação, como por exemplo, os publicanos, samaritanos, pecadores, prostitutas, leprosos e todos os demais que eram rejeitados pela sociedade da época. Assim, recepcionava as pessoas que não eram aceitas socialmente (ALLGAYER, 1994). Dessa maneira, a elite judaica e religiosos, denominavam Jesus como amigo dos pecadores e o criticavam por isso.

Jesus, portanto, vivenciava um estilo de vida contrário, ao dos religiosos da época que adotavam preceitos de pureza e impureza (TAMEZ, 2004), tinham essas regras como prioridade para determinar sua espiritualidade e estilo de vida sectário e preconceituoso. Todavia Jesus ignora as críticas e as regras e leva adiante sua mensagem libertadora, para quem necessitava (Lc 5,27). Assim, Jesus libertava as pessoas de tais regras religiosas de pureza e agia com misericórdia ao invés de discriminação.

A missão de Jesus, no Evangelho de Lucas, era no sentido de encontrar pessoas perdidas. “Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido.” (19,10). Nesse sentido de busca, Jesus encontrou no caminho para Jerusalém Zaqueu, onde ocorreu o diálogo entre Jesus e Zaqueu na cidade de Jericó, dessa conversa que havia demonstração de laços fraternos e acolhedor de Jesus, sem pré-julgamento do estilo de vida que Zaqueu levava, Jesus enxergava perspectivas de mudança e transformação de vidas e não em acusar e destruir pessoas, por suas falhas e erros, Jesus preocupava não o que a pessoas eram e tinham feito, mas o que poderia vir a fazer a partir do arrependimento.

Dessa forma Jesus valorizava as pessoas no seu potencial de transformação e não na condição que se encontravam. Jesus estava à procura de resgatar vidas e não as condenar. Jesus buscava caminhos de vida e não de morte,

por isso acolhia todo tipo de pessoas que aos olhos da sociedade eram desprezíveis. Jesus transmitia seu poder dinâmico às pessoas que recepcionavam sua mensagem de transformação. O mistério consistia em ter fé nas palavras de Jesus que suscitava poder transcendente e atingia as pessoas modificando seu estilo de vida. Este poder que provocou arrependimento e desejo de mudança na vida de Zaqueu. Hoje também da mesma forma, provoca mudança na vida das pessoas que pela fé internaliza a mensagem de Jesus em seu imaginário. “Em relações de reciprocidade e mutualidade, o poder pode se libertar da tirania e da dominação, e capacitar para vivências amorosas de justiça.”(RICHTER REIMER, 2013, p. 9).

Jesus recebia o poder (dynamis) de Deus. Lucas utilizou a palavra dynamis em At 1,8, pelo fato de que a mesma possui um significado importante, ou seja, o poder advindo do Espírito Santo (Lc 24,19; 4,14). Deste modo, percebe-se que Jesus desenvolvia seu ministério na condução do Espírito Santo e de Deus.

As ações de Jesus eram com base no amor, graça e misericórdia de Deus, representado por Jesus como seu agente. O poder de Jesus advindo de Deus possibilitou a ressurreição de mortos, como no caso do filho da viúva de Naim. Por isso, a práxis libertadora de Jesus teve e tem enorme abrangência na superação do mal e suas consequências na vida das pessoas. Jesus utilizava o poder recebido de Deus, movido de grande compaixão que o impulsionava a exercer o poder, em prol do outro que sofre.

A compaixão não é um sentimento menor de “piedade” para com quem sofre. Não é passiva mas altamente ativa. Com-paixão, como a filologia latina da palavra o sugere, é a capacidade de compartilhar a paixão do outro e com o outro. Trata-se de sair de seu próprio círculo e entrar na galáxia do outro enquanto outro para sofrer com ele, alegrar-se com ele, caminhar junto com ele e construir a vida em sinergia com ele (BOFF, 1999, p. 126).

Jesus operou ativamente seu poder em favor daquela viúva, restabeleceu a possibilidade de dignidade e segurança, para enfrentar a estrutura patriarcal vigente na época. Jesus pode contribuir para construção de uma nova identidade para aquela mulher viúva. No Primeiro Testamento, o mandamento a respeito das questões sociais era no sentido de socorrer as injustiças para com as pessoas empobrecidas pela ganância e opressão (Dt 24, 19-21; Lv 19, 9,10). Por estes textos

é possível perceber que desde o Primeiro Testamento já existiam Leis de defesa aos direitos das viúvas.

Nas páginas da Bíblia encontramos os direitos dos pobres garantidos pelo próprio Deus. É um Deus que quer que o homem viva e quando este direito a viver se vê ameaçado e sem defesa, como sucede nos casos do pobre, da viúva, dos órfãos, dos forasteiros, entra Ele, o próprio Deus, em cena para garantir seu exercício. Ele escutará sempre o clamor do pobre. O direito do pobre se traduz, portanto, num dever da parte de todo filho de Deus, que sente como Deus e respeita a sua lei (BOFF e UNDURRAGA et al, 1991, p.168).

Jesus também demonstrou cuidado e foi um marco para as mulheres e “restabeleceu sua dignidade perdida devido aos costumes da cultura patriarcal” (TAMEZ, 2004, p. 11). Jesus, de acordo com o Evangelho de Lucas, demonstrava grande afeição, amor e respeito para com as mulheres. As mulheres pertenciam ao movimento de Jesus e acompanharam-no desde a Galiléia (8,1-3). As mulheres estavam seguindo Jesus no momento de sua crucificação e foram as primeiras a verem Jesus após a ressurreição (24,1-11). “Enfim, mulheres fazem parte do ministério de Jesus desde o início, tanto como sujeito no discipulado (Lc 8,1-3, entre outros) quanto como endereçadas à prática do seu amor e salvação” (RICHTER REIMER, 2005, p. 68).

Portanto, Jesus valorizava as mulheres e oportunizava situações favoráveis à visualização destas na sociedade, propondo, assim, mudanças nas estruturas sociais construídas em desfavor das mulheres e contestava o sistema patriarcal e androcêntrico vigente na época. Dessa forma invertia os valores patriarcais, por reconhecer o valor social e importância das mulheres (SCHÜSSLER FIORENZA, 1992). Jesus também realizou em prol dos necessitados curas, milagres, exorcismos. “O poder do Senhor estava com ele para curar.” (Lc 5,17). Isto foi realizado por meio da manifestação de Deus em Jesus.

Assim, a historicidade das curas e dos exorcismos realizados por Jesus não é negada, visto que também eram praticados em outras expressões religiosas. A questão é interpretativa, através do significado que se atribui a estas ações. Concebendo-as como milagres, elas são remetidas à esfera do fenômeno religioso, no qual Deus, através de seu(s) agente(s), interfere e intervém nas ‘leis físicas e naturais’: o transcendente irrompe no mundo natural, demonstrando seu poder absoluto (RICHTER REIMER, 2008, p. 64).

Esse poder concedido a Jesus atuava no sentido de libertar as pessoas que estavam presas e dominadas no sistema instalado na sociedade da época, que oprimia não só os corpos físicos doentes, machucados, excluídos da sociedade, mas também questões socioeconômicas e políticas (Lc 6,19). Jesus realizava milagres, mas havia também, taumaturgos da época que realizavam obras sobrenaturais (RICHTER REIMER, 2008), mas a diferença consiste em que os taumaturgos da época, não estavam preocupados, em propor libertação do sistema vigente opressor, com a realização dos milagres. Pelo contrário, buscavam espaço de poder e dominação, estavam em busca de conseguirem benefícios, advindo da realização dos milagres, ou seja, realizavam milagres como meio de obterem vantagem dos que sofriam.

Isso na verdade, reforçava o sistema vigente que explorava os menos favorecidos. “De uma maneira geral pode-se dizer: depravação política, falta de prestigio social e pobreza econômica caracterizavam os estratos inferiores” (STEGEMANN, 2012, p. 321). Essas pessoas, consideradas pobres já sofriam e eram exploradas de várias formas. “Os Evangelhos revelam um povo sobrecarregado de dívidas e fome, atormentado pela paralisia física e social e em geral desesperado com as circunstancias vividas” (HORSLEY, 2004, p. 112). Os milagres realizados por Jesus propunham princípios de libertação, relacional com Deus e estendido às pessoas. “Narrativas de curas e exorcismos têm, pois, uma função legitimadora e motivadora em situações de conflitos socioculturais. Elas servem para construir e legitimar uma nova forma de vida” (RICHTER REIMER, 2008, p. 65).

Jesus, por meio de sua práxis libertadora, na realização de curas e milagres, propunha um novo estilo de vida para as pessoas, em contrário ao sistema opressor vigente, imposto pelo império romano que propunha a ordem e a paz que só existia para a elite do império. “O lado negro (sic) da Pax Romana, porém, significou desordem e devastação para os povos conquistados. Em parte porque resistiram à nova ordem imperial, galileus e judeus sofreram massacres, escravidão e destruição de suas casas e aldeias” (HORSLEY, 2004, p. 111-112). Jesus procurava fortalecer a fé, por meio de um poder misericordioso de Deus, para com os que sofriam. “Jesus atuava no sentido de sanar os efeitos do império e de conclamar o povo à reconstrução da sua vida comunitária. [...] Ele propôs insistentemente um programa de revolução social para restabelecer relações

econômico-sociais igualitárias” (HORSLEY, 2004, p. 111). Assim, traria justiça para as comunidades camponesas, que representavam a maioria da população.

Desse modo, Jesus também propagava as boas novas e estabelecia uma nova comunidade, com uma mentalidade religiosa diferente da época e não a permanência da vida sociocultural existente. Assim, Jesus, modifica a situação