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O ESPORTE COMO DIREITO DE TODOS E SUA DIMENSÃO EDUCACIONAL

GESTORES SÍTIOS ANÁLISES

3 DO SPORT AOS ESPORTES: HISTÓRIA E FUNDAMENTOS DE NOSSA PESQUISA

3.3 O ESPORTE COMO DIREITO DE TODOS E SUA DIMENSÃO EDUCACIONAL

As práticas esportivas no sistema educacional nascem do período do assim chamado esporte moderno. Apesar da massificação, a única dimensão conhecida até então era a do esporte de rendimento.

Sobre isso, Tubino (2006) escreve que “[...] o Esporte de Desempenho era, na verdade, o esporte que existia no mundo. Existia apenas a Recreação fora disso. Todas as práticas esportivas, inclusive na escola, eram reproduções simples do Esporte de Desempenho ou de rendimento” (TUBINO, 2006, p.5).

Tal concepção participa dos primeiros passos de atividades esportivas vinculadas a educação e ao sistema educacional, a busca de uma rede esportiva, apoiada inicialmente muito em competições e jogos no âmbito estudantil.

Esse contexto influenciou decisivamente a implantação, em nosso país, das atividades esportivas ligadas ao sistema educacional – incluindo jogos e competições estudantis. Isso aconteceu durante os anos de chumbo do regime militar, quando o esporte passa a ganhar ênfase no meio educacional (BORGES; BUONICORE, 2007, p.20).

Ainda segundo Tubino (2006), seguindo o debate sobre as práticas esportivas segue o diálogo do debate acerca do tema:

A educação voltada ao tecnicismo também se referenciava no esporte de alto nível. Evidente que já existiam competições escolares, mas foi a partir da década de 1960 que o Estado passou a priorizar a formação e os resultados esportivos de alto rendimento, considerando a escola o lócus desse processo. Também não há dúvida de que esse “despertar” para o esporte de rendimento no país está relacionado ao contexto internacional do esporte, que já era “palco” da Guerra Fria entre capitalismo e socialismo, e que os governos do ocidente e do leste europeu buscavam talentos e resultados esportivos para evidenciar supremacias ideológicas. Os governos dos países que não eram líderes no capitalismo e socialismo, por influência, passaram a buscar no esporte oportunidades de propaganda e publicidade de suas gestões. (TUBINO, 2006, p.7).

Esse debate mostra o primeiro momento no Brasil com a vitória na Copa, já citada por nós, e pelo investimento no resultado nos jogos de tipo internacional. A virada desse tipo de política se dá com a edificação de programas para além da busca do resultado de alto rendimento.

Há uma importante mudança de paradigma, na saída da busca do resultado da equipe ou do individuo rumo a edificação de um esporte como direito amplo de todos, um esporte pensado e constituído internacionalmente em outra perspectiva.

As relações do Esporte com a Educação até 1985 foram muito tímidas, pois as competições esportivas escolares neste período limitaram-se a reproduzir o esporte de rendimento. A causa principal desta linha adotada no Esporte Escolar deve-se em muito ao apelo sistemático por medalhas e campeões (talentos) e à atuação equivocada dos órgãos públicos do Esporte (inclusive o MEC), que não relacionavam o esporte à educação, e sim a resultados (...). Apenas os discursos enalteciam os valores educativos do Esporte. (TUBINO, 2010, p.138).

Tubino (2010) nos mostra aqui o resultado desvinculado do processo educativo, a competição na busca do estabelecimento de recordes e da revelação de potenciais jovens com potenciais de disputa internacional, não há de maneira sistemática o debate da inclusão aqui até o momento.

Em fins da década de 1970 começa a ganhar lugar uma reação crescente a esse modelo de prática esportiva. Essa reação teria seu ápice na célebre Carta Internacional de Educação Física e Esporte, lançada pela UNESCO em 1978. Após a publicação desse importante referencial, o esporte abandona o objetivo do rendimento como perspectiva única e passa ao paradigma do esporte como direito de todos. Com isso o esporte começava a ser compreendido no quadro dos direitos universais da pessoa humana, independente de estado físico, talento, sexo, faixa etária etc. Essa concepção avançada revolucionaria a prática esportiva e marcaria o surgimento do assim chamado Esporte Contemporâneo, que busca as formas pelas quais o direito ao esporte pode ser garantido para a população em geral. (BORGEs, BUONICORE, 2007, p.21).

A partir da Carta da UNESCO de 1978, o conceito de Esporte ganhou uma nova abrangência social, e o direito às práticas esportivas passou a ser exercido sob as formas de Esporte-Educação, Esporte-Lazer e Esporte de

Desempenho. (TUBINO, 2010, p.36). Detalhando os aspectos do esporte- educação, o autor prossegue:

Considerando definitivamente o Direito ao Esporte para Todos, a manifestação Esporte-Educação deve ser dividida em Esporte Educacional e Esporte Escolar. O Esporte Educacional, para todos, e independente de vocação, no sentido de favorecer as ações educativas que as práticas esportivas oferecem (respeitar as regras, aprender a ganhar e perder, recuperar-se após as derrotas, perceber o sentido de equipe etc.), apoiado pelos princípios socioeducativos (inclusão, participação, cooperação, corresponsabilidade, coeducação e outros). O Esporte Escolar aceita as vocações esportivas (possíveis talentos) e é destinado à utilização nas competições externas intercolegiais, nas quais os princípios soberanos são o Princípio do Desenvolvimento Esportivo e o Princípio do Desenvolvimento do Espírito Esportivo. No Esporte-Educação (Esporte Educacional e Esporte Escolar), o sentido será sempre o da formação, e a cidadania estará efetivamente na referência principal. (TUBINO, 2010, p.69).

A partir desses conceitos passamos a aprofundar o debate do esporte considerando as peculiaridades brasileiras, inclusive das leis do país e das características singulares de seu povo.

No Brasil, a Constituição Federal de 1988 foi o marco para a afirmação do esporte como direito social. A Carta Magna brasileira menciona a existência de atividades esportivas formais e não-formais e de caráter amador e profissional. O grande avanço na chamada constituição cidadã é considerar a prática esportiva como direito de todos e fator de promoção do bem-estar social.

Aproximadamente dez anos depois do lançamento da Carta do Esporte e da Educação Física da UNESCO, chegaram ao país os fundamentos que passaram a nortear o esporte mundial.

Esses fundamentos influenciaram não só a constituição brasileira, mas outras leis. O artigo 217 da constituição prevê “[...] a destinação de recursos públicos para a promoção prioritária do desporto educacional e, em casos específicos, para a do desporto de alto rendimento”. Porém, o artigo não trata dos conceitos de esporte educacional e a Lei 9615/98, chamada Lei Pelé, acaba regulamentando o artigo 217 e tratando das definições.

Atualmente o conceito de esporte educacional constante na Lei Pelé é definido por aquele que é

[...] praticado nos sistemas de ensino e em formas assistemáticas de educação, evitando-se a seletividade, a hipercompetitividade de seus praticantes, com a finalidade de alcançar o desenvolvimento integral do indivíduo e a sua formação para o exercício da cidadania e a prática do lazer. (BRASIL, 1998).

Essa definição representa um importante avanço, porém já não é consenso na comunidade esportiva brasileira. Assim, a política setorial do esporte educacional defende que é preciso ampliar esse conceito que, “[...] por refletir determinações históricas, oculta o caráter de manifestação cultural do esporte e impede a distinção de prioridades” - Política Setorial do Esporte Educacional (BRASIL, 2005, p.6).

A Política Nacional do Esporte (PNE) propõe mudanças na legislação vigente. Essa opinião é ressaltada nas resoluções da II Conferência Nacional do Esporte que colocam a necessidade de:

[...] definir os diferentes conceitos das manifestações do Esporte que compõem o Sistema Nacional de Esporte e Lazer, coerentes com as orientações da Política Nacional do Esporte, que indica os limites dos conceitos em uso, e com a concepção do sistema que pretende construir – em encontro nacional próprio para essa finalidade (...), garantindo a representação e a participação popular e a representatividade de todos os estados da federação. Essa definição deve considerar o aparato legal existente, a Política Nacional do Esporte, o Relatório do I Fórum sobre o Sistema Nacional de Esporte e Lazer [...]. (BRASIL, 2005, p.12).

A III Conferência Nacional do Esporte, em seus documentos finais aponta não só para a necessidade do desenvolvimento do Esporte Educacional, mas também para a aprovação de Lei de reformulação do Sistema Nacional do Esporte, apontando para a necessidade de adequar o aparato normativo à realidade atual.

Sendo assim, concordamos com a afirmação de Oliveira e Perim (2009) que segue e mostra a relevância da legislação. Deve ser entendida como mais do que meramente o texto burocrático, principalmente como um processo de

reconhecimento de direitos sociais e de legitimação da prática esportiva pela nação.

Considerar o lazer e o esporte como direito social não é apenas uma questão legislativa, uma vez que implica demandas para sua legitimação não somente para o Estado, mas também para os sujeitos. Cabe ao Estado gerir políticas públicas contemplando ações ativas e efetivas de modo a garanti-las a sujeitos, que, por sua vez, precisam compreender o significado delas. Tornar-se um sujeito de direito é ter consciência da importância desses fenômenos na vida de cada um e também da coletividade, de modo a reivindica-los como se faz em relação à educação, saúde, moradia, segurança, dentre outros. Se o lazer e o esporte são direitos sociais, devemos lutar para que eles existam, de fato, na vida de todos, caso contrário, continuarão sendo um privilégio dos poucos que possuem os bens econômicos, culturais e educacionais para acessá-los. (SOUZA et al, 2010, p. 28).

A partir das informações e da história que o esporte perseguiu até aqui passamos agora à nossa fundamentação teórica para enfrentar o problema de pesquisa por nós proposto em nossa dissertação.