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2. REVISÃO TEÓRICA

2.5 Esporte

2.5.3 Esporte e as Políticas Públicas

Para compreender como o esporte está sendo gerido no Brasil é necessário que se recorra à legislação, bem como aos projetos governamentais que indicam as perspectivas de sua prática. Diante disso, perpassa-se pela CF, LDBEM, Política Nacional do Esporte e ainda, o Programa Segundo Tempo.

Segundo o artigo 217 da CF de 1988, é obrigação do Estado proporcionar práticas esportivas “formais e não formais”, sendo direito de todos, usufruir dessas

práticas. Cabe ao Estado ainda, a destinação de verbas, com prioridade ao esporte educacional. Essas proposições indicam para a elaboração de projetos e programas para o desenvolvimento do esporte educacional e também para o esporte profissional.

Também a LDBEN/96 traz em seu art. 27 a preocupação com esporte educacional, segundo ela “Os conteúdos curriculares da educação básica observarão, ainda, as seguintes diretrizes: IV- promoção do desporto educacional e apoio às práticas desportivas não-formais” (BRASIL, 1996).

Subentende-se, assim, que o esporte deve ser tratado na perspectiva de esporte educacional e escolar, de acordo com o que está prescrito na Política Nacional de Esporte. Ao mesmo tempo em que promove a inclusão e democratização da prática esportiva na escola, também indica a prática de um esporte representativo da escola, para a participação nos jogos escolares.

De acordo com a Política Nacional do Esporte, outras leis surgiram para direcionar o esporte no Brasil. A década de 90 é considerada o marco da democracia para o esporte brasileiro, que inicia com um novo ordenamento apresentado pela Lei n° 8.672/93 (conhecida como a Lei Zico),

[...] que propõe princípios e diretrizes para a organização e funcionamento das entidades esportivas, permeados pela aparente contradição entre interesses liberais e conservadores em um momento de ascensão explicita das políticas socais rumo a modernização conservadora (BRASIL, 2005, p.13).

Já em 98, nova lei é elaborada. Essa lei foi conhecida como Lei Pelé (n° 9.615/98) e apresentou:

[...] como idéia central a eliminação do passe de atletas do futebol, mais expressiva e representativa modalidade do País, criando de fato as condições de livre arbítrio para estabelecer relações trabalhistas, não obstante sujeitas ao jugo de empresários, seus novos patrões (Ibid., p. 13).

Mesmo que se tenha a preocupação de ordenar leis para o esporte, a maior preocupação de ambas as leis promulgadas na década de 90 era sobre o esporte de rendimento, ficando o esporte educacional à deriva.

Outras leis surgiram com o intuito de melhorar o desenvolvimento do esporte no país, tais como: Lei n° 10.671/03 que cria o estatuto do torcedor; Lei n° 10.672/03

que moraliza o futebol, fixando regras de transparência para os clubes e dirigentes; Lei n° 10.264/01 (Agnelo Piva) que destina 2% da verba dos concursos de prognósticos (loterias) para o Comitê Olímpico e Paraolímpico; Lei n° 10.891/04 que cria a Bolsa Atleta para que os atletas tenham melhores condições materiais para realizar seus trabalhos (BRASIL, 2005).

Diante do exposto acima é visível a preocupação com o desenvolvimento do futebol no Brasil e com a descoberta de talentos, ficando o esporte educacional vinculado somente a projetos e programas assistenciais por parte do Ministério do Esporte.

É bem verdade que o futebol seja a “paixão nacional”, mas para se fazer cumprir o estabelecido pela CF e pela Lei Pelé (no que se refere aos tipos de manifestações), se fazem necessárias políticas públicas que realmente efetivem a participação de todas as camadas sociais do país nas práticas esportivas.

Segundo a Lei Pelé, o Sistema Nacional de Desporto compreende o Ministério do Esporte; o Conselho Nacional do Esporte (CNE); o sistema nacional do desporto e os sistemas de desporto dos estados, do Distrito Federal e dos municípios.

De acordo com essa legislação o esporte se apresenta em três tipos de manifestações: o esporte de rendimento, o esporte de lazer ou participação e o esporte educacional.

O esporte de rendimento é caracterizado pelo esporte “profissional”, em que os atletas são empregados de uma determinada empresa ou clube, dedicando seu tempo a treinamentos físicos, técnicos e táticos sob o comando de equipes especializadas formadas por técnicos, assistentes técnicos, médico, psicólogo, fisioterapeuta, preparadores físicos, dentre outros. O trabalho realizado com esses atletas está sob a ótica do treinamento científico e tecnológico e ainda de acordo com os calendários das respectivas Federações e Confederações.

O esporte de lazer ou de participação é caracterizado pela participação espontânea do indivíduo, podendo o mesmo ser dirigido por clubes, entidades de classes e praças esportivas ou ainda, podendo ser praticado sem direção, quando o

intuito somente é de reunir os amigos e jogar uma “partida” sem interferência de um profissional ou árbitro.

O esporte educacional é destinado a programas realizados no interior das escolas, objetivando o acesso de crianças e adolescentes a uma prática esportiva. Pode ser traduzido de duas formas: o esporte enquanto conteúdo das aulas de Educação Física e o esporte enquanto participação em equipes representativas das unidades escolares.

Os recursos do Ministério do Esporte serão destinados: ao desporto educacional; desporto de rendimento; desporto de criação nacional; capacitação de recursos humanos (cientistas desportivos; professores de educação física e técnicos de desporto); apoio a projetos de pesquisa, documentação e informação; construção, ampliação e recuperação de instalações esportivas e apoio ao desporto para pessoas portadoras de deficiência.

O Conselho Nacional de Esporte tem função de organizar, gerir e administrar o esporte nacional. Assim, fica a critério do mesmo implantar políticas nacionais para o desenvolvimento do esporte, como é o caso da Política Nacional do Esporte (PNE) que foi criada pela resolução de n° 6 do Conselho Nacional do Esporte, em 14 de junho de 2005. Ela foi elaborada a partir de Conferências realizadas nos municípios e capitais brasileiras, que tinham o objetivo de indicar diretrizes para a organização do esporte no Brasil, respeitando a diversidade cultural e social. Entende-se que a PNE ainda está em avaliação, uma vez que, novamente em 2006, foram realizadas as Conferências para discutir o que estava em vigor e o que poderia ser melhorado.

Diferente da Lei Pelé, a PNE indica além do esporte de participação, rendimento e educacional, também o esporte escolar:

O Esporte Educacional, pela Lei n° 9815 de 24/03/1998, no seu art. 3°, Inciso I, está conceituado como aquela manifestação esportiva praticada nos sistemas de ensino e em formas assistemáticas de Educação, evitando-se a seletividade, a hipercompetitividade de seus praticantes, com a finalidade de alcançar o desenvolvimento integral do indivíduo e a sua formação para o exercício da cidadania e a prática do lazer. O Esporte Educacional no conceito acima, é referenciado em princípios sócio-educativos, como os princípios da inclusão, da participação, da cooperação da co-educação, da co-responsabilidade, e outros, e está consolidado como prioridade de recursos públicos no art. 217 da Constituição Federal de 1988. Há uma aceitação internacional que é o Esporte

Escolar, diferentemente do Esporte Educacional, embora tenham pontos comuns ao incorporar objetivos educativos, é aquele disputado nos ambientes escolares, com os mesmos códigos e regras do esporte de competição de adultos, privilegiando os jovens de mais habilidade esportiva, inclusive, oferecendo condições para que desenvolvam suas potencialidades, sem descuidar da formação para a cidadania (BRASIL, 2005, p. 26).

Essa diferenciação é um tanto quanto parecida com o termo esporte da e na escola (COLETIVO DE AUTORES, 1992; CAPARROZ, 1997; OLIVEIRA, 2001). Para o Coletivo de Autores (1992) “a influência do esporte no sistema escolar é de tal magnitude que temos, então, não o Esporte da escola, mas sim o Esporte na escola” (p. 54).

A PNE tem por objetivos:

Democratizar e universalizar o acesso ao esporte e ao lazer, na perspectiva da melhoria da qualidade de vida da população brasileira.

Promover a construção e o fortalecimento da cidadania, assegurando o acesso às práticas esportivas e ao conhecimento científico-tecnológico a elas inerentes. Descentralizar a gestão das políticas públicas do esporte e de lazer.

Fomentar a prática do esporte de caráter educativo e participativo, para toda a população, além de fortalecer a identidade cultural esportiva a partir de políticas e ações integradas com outros segmentos.

Incentivar o desenvolvimento de talentos esportivos em potencial e aprimorar o desempenho de atletas e paraatletas de rendimento, promovendo a democratização dessa manifestação esportiva (BRASIL, 2005, p. 32).

Até o momento, ainda não é perceptível a aplicação dessa Política de forma efetiva. Isso pode ser comprovado principalmente em Goiás, na cidade de Goiânia, onde há mais de cinco anos está em construção o Centro de Excelência. Da mesma forma acontece com a implementação do Programa Segundo Tempo, que tem o objetivo de promover o esporte educacional.

O Programa Segundo Tempo, além de buscar o aumento do número de alunos envolvidos na participação esportiva no cotidiano da escola, visa ainda contribuir para a diminuição da evasão escolar. Este deve ser um processo de continuidade da educação escolar, levar o aluno à “autonomia e ao conhecimento crítico da cultura esportiva nas dimensões educacionais, lazer e rendimento” (BRASIL, 2007a, p. 7). Por isso, tem por objetivos:

Fazer cumprir o artigo 217 da Constituição Federal; Democratizar o acesso à prática esportiva;

Colaborar para a permanência da criança e do adolescente na escola; Possibilitar o desenvolvimento integral da criança e do adolescente;

Melhorar a estrutura física esportiva da escola pública no país a fim de garantir um atendimento de qualidade;

Ampliar o acesso à prática das mais variadas formas de manifestações culturais e de lazer;

Promover o conhecimento sobre o esporte nas suas mais diversas formas de expressão (BRASIL, 2007a, p. 8).

O programa tem ainda como ações a serem desenvolvidas com o intuito de alcançar os objetivos propostos, as seguintes:

Capacitação de professores e estagiários de educação física; Distribuição de material esportivo às escolas;

Implantação de Núcleos de Esporte nas Escolas selecionadas; Garantia de merenda escolar no contra-turno;

Contratação de Estagiários através de Bolsa-Estágio; Promoção de Jogos Escolares Nacionais e Regionais;

Implantação de infra-estrutura esportiva nas escolas públicas; Elaboração e distribuição de material técnico e didático; Acompanhamento e Avaliação do Projeto (Ibid., p. 10).

Desde a implantação do Programa Segundo Tempo, em 2003, até o ano de 2006, o Ministério do Esporte possuía 498 convênios em todo o território nacional. Desses convênios, somente estão ativos 172. Um exemplo é Goiás, que tinha o total de 17 convênios e hoje conta com apenas nove ativos. Através da avaliação feita pela Agência de Esporte e Lazer, a inatividade dos projetos decorre de problemas gerados pela parceria via Ministério do Esporte, tais como: inadimplência quanto ao pagamento dos bolsistas, o não envio de material didático, falta de continuidade nos programas de formação, dentre outros.

Em 2004, ao ministrar a disciplina estágio supervisionado junto a uma escola estadual em Goiânia que tinha o Programa Segundo Tempo, foi possível perceber que o mesmo, mais que avanços para o esporte educacional, trouxe problemas estruturais e pedagógicos para a Educação Física Escolar. Isso porque o projeto, para atender ao convênio, ocupou o espaço físico destinado à disciplina Educação Física, provocou a redução do número de aulas de três para duas, e o pior: uma das aulas impreterivelmente deveria ser teórica, para dar espaço à realização do projeto.

Assim, em nada o projeto é democrático ou promove a inclusão democrática de crianças e jovens no esporte educacional. Afinal, impõe uma prática que retira de

cena um componente curricular que tem como objetivo primordial a formação humana e que tem como um dos conteúdos também o esporte.

Além disso, o Programa antes de ser implantado deveria ter uma fase de melhoria dos espaços físicos das escolas brasileiras que, segundo a introdução do próprio projeto, “o censo MEC/INEP – 2002 apresenta um quadro extremamente grave. Existe apenas uma quadra esportiva para cada 5,24 escolas do Ensino Fundamental em nosso Pais” (BRASIL, 2007a, p. 4). Ora, como se pode tentar implementar um projeto para o país se o mesmo não tem condições físicas para a sua execução? Além do que, infelizmente, a escola ainda não vê o material utilizado nas aulas de Educação Física como material didático e que deve entrar no bojo da distribuição de verbas para a compra. As escolas esperam que secretarias de educação e secretarias de esporte enviem esse material. Isso provoca a escassez do mesmo, além do sucateamento pelo seu uso freqüente. Esse é o retrato das escolas públicas brasileiras.