2 A TRAMA DA MEMÓRIA, REMEMORAÇÃO E
2.4 ESQUECER PARA LEMBRAR OU ESQUECER DE LEMBRAR?
Wander Melo Miranda utiliza duas referências para descrever o processo de resgate do fato passado. Resolvi aqui usar as citações que Miranda utiliza em seu livro por considerá-las excepcionais para o que pretendo trabalhar sobre a dialética do “esquecer para lembrar” na obra de Oz. Como justificativa, ressalto que foi apenas quando o autor parou de sentir raiva pelos pais (ou deslocou esse sentimento para alguma outra coisa) por causa do suicídio da mãe, é que lhe foi possível “lembrar do que se passou”.
178
BRANDÃO. Antiga Musa. 2005. p. 87.
179 BRANDÃO. Antiga musa. 2005. p. 88. 180 BRANDÃO. Antiga musa. 2005. p. 88. 181
BRANDÃO. Antiga musa. 2005. p. 88.
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Miranda, em sua primeira citação, lembra Beckett, que, num estudo sobre Proust183, afirma:
Proust tinha má memória [...] O homem de boa memória nunca se lembra de nada, porque nunca se esquece de nada. Sua memória é uniforme, uma criatura de rotina, simultaneamente condição e função de seu hábito impecável, um instrumento de referência e não um instrumento de descoberta. A apologia de sua memória — “Lembro-me como se fora ontem...” - é também seu epitáfio e indica a expressão exata de seu valor184.
Na segunda referência, cita Deleuze e Guattari, quando discutem os “blocos de infância” de Kafka185:
A memória de Kafka nunca foi boa; tanto melhor, pois a lembrança de infância é incuravelmente edipiana, impele e bloqueia o desejo em uma foto, rebate a cabeça de desejo e o corta de todas as suas conexões [...] A lembrança opera uma reterritorialização da infância186.
Há uma diferença fundamental entre as duas tendências: uma propõe que é necessário esquecer para lembrar, e a outra, que é necessário esquecer de lembrar. No entanto, nas duas “é colocado em questão o papel desempenhado pela memória do Mesmo, pela lembrança que conduz quem lembra à edificação de um monumento de si [...]”187. A memória, nesse caso, atuaria como duplo do eu e imporia ao sujeito que lembra a falsa consciência da sua plenitude e autonomia, “condenando-o a refazer o tecido de sua história sempre com os mesmos fios de um único e imutável trançado o qual, por não conter os fios que o Outro tece, é irremediavelmente alienante”188. Por outro lado, no caso da memória operadora da diferença, o processo é de descobrimento, desconstrução, desterritorialização, processo produtivo que “tece com as idéias e imagens do presente a experiência do passado”189.
Considero importante sublinhar, nesse ponto, que a memória de Oz em De amor e trevas também é, parafraseando Deleuze e Guattari, incuravelmente edipiana, e essa mãe- musa inspiradora aparece no texto disfarçada com diversas roupagens: mãe, Morá-Zelda, Nili. Em algumas passagens, o narrador, ao escrever sobre elas, usa uma linguagem, pode-se dizer,
183 MIRANDA. Corpos escritos. 1992. p. 119. 184 BECKET. Proust. 1986. p. 23.
185
DELEUZE; GUATTARI. Kafka. 1977. p. 114.
186 MIRANDA. Corpos escritos. 1992. p. 120. 187 MIRANDA. Corpos escritos. 1992. p. 120. 188
MIRANDA. Corpos escritos. 1992. p. 120.
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gozosa. Sobre a mãe: “[...] e aqui sua voz ganhava uma entonação de vinho tinto”190; sobre a professora, Morá-Zelda: “E que doçura estranha, hipnótica, havia em suas histórias sobre milagres e revelações! Como se as letras houvessem sido impregnadas de vinho. As palavras deliravam vertiginosas na boca”191, e sobre Nili, sua mulher: “E entre todos, a cereja do bolo, Nili”192.
Vale a pena mencionar aqui Paul Ricoeur que, em A memória, a história, o esquecimento, afirma que a ambição vinculada à memória é de ser fiel ao passado. No entanto, é necessário salientar que, junto dela, como uma sombra, está o esquecimento, seu avesso.
as deficiências procedentes do esquecimento [...] não devem ser tratadas de imediato como formas patológicas [...] mas como o avesso de sombra da região iluminada da memória, que nos liga ao que se passou antes que o transformássemos em memória193.
Com frequência, o esquecimento é sentido como dano à confiabilidade da memória. A própria memória, pode-se dizer, a princípio, se definiria como uma luta contra o olvido. Essa visão considera o esquecimento como “a inquietante ameaça que se delineia no plano de fundo da fenomenologia da memória e da epistemologia da história”194. É possível pensar que, nesse sentido, a memória seria, pelo menos numa primeira instância, uma luta contra o esquecimento:
a confiabilidade da lembrança procede do enigma constitutivo de toda problemática da memória, a saber, a dialética de presença e de ausência no âmago da representação do passado, ao que se acrescenta o sentimento de distância próprio à lembrança, diferentemente da ausência simples da imagem, quer esta sirva para descrever ou simular195.
Curiosamente, apesar de Ricouer sublinhar o caráter de dano que o esquecimento teria sobre a memória, pode-se perceber nessa citação que memória e esquecimento caminham juntos, sendo interdependentes: um dá ao outro seu meio termo, na medida em que o sentimento de distância próprio à lembrança é necessário. A memória não existe sem seu contraponto, pois sem ele seria necessário imaginar uma memória que de nada esqueceria,
190 OZ. De amor e trevas. 2005. p. 471. 191
OZ. De amor e trevas. 2005. p. 340.
192 OZ. De amor e trevas. 2005. p. 581.
193 RICOEUR. A memória, a história, o esquecimento. 2007. p. 40. 194
RICOEUR. A memória, a história, o esquecimento. 2007. p. 423.
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ideia essa estranha ou até mesmo monstruosa. Neste sentido, vale lembrar o conto de Jorge Luis Borges, “Funes, o memorioso”196. Nessa fábula, Irineu Funes — segundo o narrador, a única pessoa na terra com direito de pronunciar o verbo recordar — é o filho de uma lavadeira e de pai incerto, que, após ter sofrido uma queda de um cavalo que o deixou imobilizado em um catre, desenvolve a prodigiosa habilidade de se lembrar de tudo, de todos os fatos da vida e das pessoas, com riqueza de detalhes:
Sabia as formas das nuvens austrais do amanhecer do trinta de abril de mil oitocentos e oitenta e dois e podia compará-las na lembrança aos veios de um livro encadernado em couro que vira somente uma vez e às linhas da espuma que um remo levantou no rio Negro na véspera da batalha do Quebracho197.
A descrição acima dá uma ideia do incômodo e angústia provocados por essa estranha habilidade. Incômodo sentido tanto pelo narrador, que ao final do conto se entorpece e fica imobilizado diante da ideia de se movimentar na frente do protagonista, com “o temor de multiplicar gestos inúteis”198, pois sabe que cada um deles, cada uma de suas palavras ficará para sempre impressa na lembrança do pobre Funes, assim como pelo leitor ao tentar imaginar tal desespero.
E se Oz se lembrasse de tudo? Por diversas vezes, o escritor aponta saber que a memória é faltosa e que a ficção é vital para a reconstrução dos fatos.
E o que é autobiográfico nas minhas histórias, e o que é imaginado?
Tudo é autobiográfico: se um dia eu escrever uma história sobre o caso de amor entre madre Teresa e Abba Eban, com certeza vai ser uma história autobiográfica, não há história que não seja confessional199.
De certa forma, nessa passagem, Oz vai contra a distinção entre autobiografia e memória proposta por Lejeune. O escritor propõe aqui que a ficção sofra influência direta do autobiográfico e, de algum modo, desconsidera o dado factual da autobiografia.