Introdução Geral
3. Psicoterapia e encontro
3.1 Esquecimento do ser e privações existenciais
Tal leitura do aí-ser nos permite no início de nossa caminhada uma reflexão a respeito dos modos historicamente sedimentados de se pensar o adoecimento mental e sua íntima relação com o esquecimento da pergunta pelo ser. O homem, ao se esquecer da busca da verdade do ser como Alethéia, esquece-se de si mesmo e de indagações inevitáveis sobre suas origens (arché) e finalidades (télos). Formata a questão existencial,
20 Como tentaremos demonstrar no Capítulo 1 (pp. 61-80), a essência original da psicoterapia é o próprio
filosofar socrático e as encenações das tragédias gregas, que por meio do encontro na polis, em diálogo, buscam uma reflexão filosófica acerca de si mesmo e do mundo. O encontro proporcionado por Sócrates, ou mesmo pela encenação das tragédias na Grécia Antiga, é de uma qualidade tal que tem o potencial terapêutico de despertar no outro o desejo de conhecer melhor a si mesmo. Tal é a essência originária do encontro psicoterapêutico. A escola de filosofia helenística dos estóicos é outra que guarda em sua essência caracteristícas semelhantes com o que viria a se tornar, quase vinte séculos depois, a psicoterapia.
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ou seja, a questão de sua abertura para o mundo, em teorias abstratas distantes da cotidianidade, elaborando conceitos e teorias de conhecimento que lhe proporcionam alento diante dos mistérios da existência. Tais formatações, necessárias e decisivas para as ciências, o progresso e as descobertas tecnológicas, silenciam os questionamentos radicais da existência, mas não são capazes de calá-los, pelo fato de que o aí-ser é a própria pergunta pelo ser, é aquele que, ao questionar o ser, questiona a si mesmo. Por ser abertura, o aí-ser está fadado a ser sempre questionador de si, mesmo que cale temporariamente em si tal fardo. Sua condição de ser-para-a-morte lhe indica uma finitude de sua condição conhecida e um não saber intrínseco que, apesar das tentativas religiosas, científicas ou filosóficas de resposta, não podem ser objetivamente conhecidas a não ser pela própria experiência existencial e fenomenológica de cada aí-ser e, mais decisivamente, do acontecimento da morte.
A morte, deste modo, representa em si a própria abertura para algo ainda não conhecido, que ganha representações religiosas, simbólicas, poéticas e imaginativas que sempre dizem algo a respeito do aí-ser. Este algo, que traz em si uma verdade ainda não totalmente desvelada, é terapêutica para a possibilidade cotidiana da decadência no mundo, para o ser-com sustentado pelo falatório do a-gente. Ao mesmo tempo, paradoxalmente, deixa velada a verdadeira essência do aí-ser: sua abertura. Mas, tudo que é velado está sempre presente e sujeito a ser desvelado, o que se concretiza no que Heidegger chama em sua obra de tonalidade afetiva fundamental da angústia. É no pressentir da angústia que o aí-ser é confrontado com sua abertura, ou seja, com sua indeterminação ontológica, o não saber representado pelo antes do nascer, o sentido da existência e o depois do morrer. Por mais que teorias científicas, fé religiosa e imaginações poéticas se deem, o aí-ser não sabe ainda com total clareza o que o originou, os motivos de estar no mundo e o que o espera após o acontecimento da morte. A assunção sincera e humilde deste não saber, essência e condição para o desvelamento do ser, é, portanto, o caminho para a pergunta e a verdade do ser. Quando esquecido o não saber, o aí-ser cria respostas e teorias fechadas e decai no esquecimento do ser, mergulhando em uma mera curiosidade dos entes, adoecendo de sentidos e significados irremovíveis que turvam sua visão de si mesmo e o impedem de enxergar a possibilidade e o mistério que ele mesmo é.
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Ao encher o mundo de significados e sentidos sedimentados, o aí-ser se depara com a revelação do ser por meio da atividade dos afetos, dos sentimentos que lhe transpassam e o deixam sem chão. Em tempos de excesso de informações e de uma
Gestell em que o tempo tem serventia utilitária, é apenas na revelação descontrolada da
afetividade, nomeada por ansiedade, depressão ou outros rótulos psiquiátricos que as abarquem, que o aí-ser em geral volta-se a si mesmo. É ao perder o controlo de suas próprias emoções que se faz possível regressar a uma reflexão profunda sobre si mesmo, procurando, para tal, uma psicoterapia. Tal busca, no entanto, ainda está carregada de um caráter funcional, utilitário e mecanicista: procura-se, muitas vezes, o conserto de algo que não funciona, equiparando-se a mente humana ao motor de um carro ou ao processador de um computador.
Tal pensamento mágico, uma espécie de ilusão metafísica da Era da Técnica, é parte de um modo historicamente sedimentado de interpretar as privações existenciais esquecido, no entanto, da pergunta pelo sentido do ser. Tal esquecimento, quando aproximado de uma história sistemática dos modos de compreensão do adoecimento mental ao longo dos tempos, clareia a psicoterapia como teoria do conhecimento e sua natural tendência, como já citado, para estar entre as ciências humanas e as ciências naturais21. Neste entre, a psicoterapia nasce e se desenvolve como um saber desabrigado, adequando-se tanto a uma atividade médica, como é o caso da psiquiatria, quanto a teorias sem provas científicas, como as chamadas terapias alternativas. Sua origem prática, a psicanálise freudiana, é a prova inconteste de tal dubiedade: uma teoria que se esforça pelo enquadre científico, mas que se apresenta em sua prática clínica afinada com questões históricas, antropológicas, sociológicas, literárias e filosóficas. A psicoterapia, aquilo que nasce da psicanálise, é, portanto, filha de dois pais: da busca da objetividade científica da psiquiatria e da neurofisiologia e da aventura criativa de pensar o homem para além da racionalidade positivista. O aparelho psíquico, um dos legados da psicanálise freudiana, é exatamente o reflexo deste não-lugar: um conceito teórico
21 Procuraremos refletir a respeito desta questão aproximando o tema do esquecimento da pergunta pelo
ser, central na obra de Martin Heidegger, com as contribuições do livro “História da Loucura”, de Michel Foucault.
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impossível de ser cientificamente comprovado, mas que na experiência cotidiana do homem parece inegável e, por isso mesmo, fora tão bem aceito e absorvido pela cultura22.