• Nenhum resultado encontrado

O esquema de capacidades do Projeto de Nabuco de Araujo

TÍTULO I – PROJETOS DE CÓDIGO CIVIL NO IMPÉRIO

Capítulo 1 Projeto de Nabuco de Araujo

1.1 O esquema de capacidades do Projeto de Nabuco de Araujo

O esquema de capacidades de Nabuco de Araujo considerado nesta pesquisa é o que se encontra no Projeto publicado pela Câmara dos Deputados em 1882.

PARTE GERAL LIVRO I

Dos elementos dos direitos TÍTULO I

DAS PESSOAS SEÇÃO I

DAS PESSOAS EM GERAL Art. 1º As pessoas são naturais ou jurídicas.

Art. 2º Pessoas naturais são todos os entes humanos sem distinção de qualidades ou de quaisquer acidentes físicos ou intelectuais.

Art. 3º Pessoas jurídicas são entes de razão suscetíveis de direitos relativos aos bens.

Art. 4º As pessoas naturais ou jurídicas são nacionais ou estrangeiras.

SEÇÃO II

DAS PESSOAS NATURAIS CAPÍTULO I

Disposições preliminares

Art. 5º Não há diferença entre nacionais e estrangeiros para a aquisição e exercício dos direitos civis.

176

Art. 6º Não tem outrossim influência alguma quanto à perda, privação ou suspensão dos direitos civis o art. 7º da Constituição só relativo aos direitos políticos e à plenitude dos direitos individuais.

(Arts. 16 e 26 – Tít. único – Disp. gerais.) CAPÍTULO II

Do estado e capacidade das pessoas

Art. 7º O estado e capacidade civil das pessoas são regulados pelas Leis da nação à qual elas pertencem.

(Art. 35 – Tít. único – Disp. gerais.)

Art. 8º Todavia o estado e capacidade civil das pessoas serão regulados subsidiariamente pelo domicílio ou residência: § 1º Quando a pessoa não tiver pátria por havê-la perdido em um país e não havê-la adquirido em outro;

§ 2º Quando a pessoa tiver duas pátrias em razão do conflito, não resolvido, das Leis do nascimento e origem.

(Art. 36 – Tít. único – Disp. gerais.) (...)

Art. 11. A capacidade geral para adquirir e exercer direitos que este código compreende, é inerente a todas as pessoas naturais. Art. 12. Esta capacidade só é limitada:

§ 1º Quanto à aquisição de direitos, pela expressa proibição legal de adquirir certos e determinados direitos;

§ 2º Quanto ao exercício de direitos pelas incapacidades declaradas nos arts. 15 e 16, ou por leis especiais.

Art. 13. Completando a pessoa a idade de vinte e um anos fica habilitada para o exercício de todos os atos da vida civil, sem dependência de qualquer formalidade ou autorização.

Art. 14. Considera-se capacidade especial aquela que este Código outorga antes da idade determinada para o exercício dos direitos.

CAPÍTULO III

Dos incapazes

Art. 15. São absolutamente incapazes: § 1º As pessoas por nascer;

§ 2º Os menores impúberes; § 3º Os alienados;

§ 4º Os surdos-mudos; § 5º Os ausentes.

Art. 16. São relativamente incapazes: § 1º Os menores púberes;

§ 2º As mulheres casadas;

§ 3º Os falidos, declarados por tais em juízo; § 4º Os religiosos professos;

177

§ 5º Os pródigos; § 6º Os cegos.

Art. 17. Este código protege os incapazes, suprindo pela representação a sua incapacidade, mas não lhes concede o benefício de restituição, que fica abolido.

Art. 18. Na parte especial deste código se determinará a competência, o exercício, e forma da representação dos incapazes.566

Mais adiante há outro artigo relevante:

SEÇÃO III

DAS PESSOAS JURÍDICAS (...)

Art. 157. As pessoas jurídicas têm a mesma capacidade que este Código confere às pessoas naturais, salvo a restrição legal ou convencional, ou a incompatibilidade que provém da natureza delas.567

É preciso lembrar que, apesar de Freitas e Nabuco terem sido contemporâneos, a análise comparativa dos projetos de um e outro será feita por viés diacrônico, a fim de questionar como foi o percurso dos conceitos fixados por Freitas nos projetos subsequentes de Código Civil.

De imediato se percebe que, do Esboço para o Projeto, desapareceram os

conceitos – salvo noções de pessoas naturais e pessoas jurídicas nos arts. 2º e 3º –, como era de se esperar do trabalho de Nabuco. Vale lembrar que ele próprio prometera que seu Projeto não exorbitaria do objeto do Código, e que não confundiria a legislação com a doutrina.568 Imprescindível também lembrar o

que Nabuco, em seu parecer de 1º de julho de 1868, acerca da proposta dos Códigos Geral e Civil, havia pontuado:

566 CÂMARA DOS DEPUTADOS. Projeto do Código Civil Brasileiro do Dr. Joaquim Felício dos Santos. Cit. P. 15-20.

567 ARAUJO. In: CÂMARA DOS DEPUTADOS. Projeto do Código Civil Brasileiro do Dr. Joaquim Felício dos Santos. Cit. P. 25.

178

A lei não deve definir, porque supõe a existência da doutrina preestabelecida; mas, com razão, pergunta o autor [Freitas]: – onde está a doutrina?

Certo, quando, em vez da doutrina, só há dúvida, a falta das definições legais arrisca as leis a controvérsia e a contradições na execução.569

Foi neste parecer que Nabuco, Torres Homem e Montezuma se posicionaram favoráveis à elaboração dos dois Códigos por Freitas.

Tratando-se de seu próprio projeto, após a massa enorme do Esboço, cabe indagar se não consideraria Nabuco que, naquele momento, já havia doutrina – a de Freitas. Ao redigir os arts. 11 e 12, teria Nabuco em mente os conceitos de Freitas? Considerando-se a proximidade entre Freitas e Nabuco, a natureza dos trabalhos deste último segundo o relato de seu filho Joaquim, e, por fim – e, sobretudo – a análise comparativa dos dois esquemas levando em conta a disputa pela fixação dos conceitos de capacidades que enfrentara Freitas, é seguro afirmar que o art. 11 do Projeto de Nabuco se refere ao que Freitas conceituara como capacidade civil, que o § 1º do art. 12 refere-se à capacidade de direito de Freitas, e que o § 2º refere-se à capacidade de fato. Os arts. 15, 16 e 17, quase idênticos aos arts. 41, 42 e 43 do Esboço, não deixam dúvida quanto à sua inspiração. Outro dado que revela a utilização dos conceitos de Freitas por Nabuco é o recurso a ideia de representação para tratar da incapacidade de fato.

Em linhas gerais, do Esboço de Freitas para o Projeto de Nabuco, o que se percebe é que a teoria das capacidades perdeu sua profundidade científica para se limitar à objetividade normativa. É, de fato, o que se devia esperar. A doutrina já estava elaborada; os conceitos já estavam fixados. Cabia à lei, então, traçar os preceitos respectivos – foi o que fez Nabuco.

O que merece nota especial, por seu significado histórico, é o fato de o art. 16 ter se referido a relativamente incapazes sem especificar “ mas só aos atos

179 que forem declarados, ou ao modo de os exercer” , como fazia o Esboço, o que abre as portas para uma nova hermenêutica da incapacidade de fato relativa.

Documentos relacionados