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Esquema da aplicação da lei causal ao material sensível

Capítulo II: O conhecimento submetido ao princípio de razão suficiente sob

1. A manifestação do conteúdo essencial da experiência no mundo inorgânico

29.1. Esquema da aplicação da lei causal ao material sensível

elemento a posteriori como aquilo sobre o que a causalidade se aplica primordialmente para formar a intuição empírica regida por leis naturais condiciona um esquema complexo de sua execução efetiva, o qual pretendemos expor em seguida, para então analisar seus elementos.

Primeiramente, como precondição da aplicação do nexo causal, o entendimento deve (1) ter acesso àquele fluxo da sensação dado no mero tempo e ser capaz de distinguir

a posteriori as diferenças qualitativas que ocorrem no mesmo ao longo de seu decurso. Em

segundo lugar, o entendimento deve (2) pressupor, como exigência a priori, que cada um desses estados de seu “objeto imediato” (i.e. cada sensação) seja efeito necessário de uma mudança objetiva, isto é, igualmente necessária, que haverá de ser apreendida como sua

causa, graças à qual essa sensação particular ocorre necessariamente neste momento do

tempo (pois é exatamente essa necessidade da sequência das sensações que o entendimento deve determinar para conferir-lhe objetividade – cf. o nosso § 25). A submissão do conteúdo imediato da consciência a essa condição transforma-o de mera sensação em uma

percepção [Wahrnehmung] propriamente dita, a qual, consequentemente, não se distingue

daquela a não ser pelo fato de estar submetida a essa exigência.

83 Cf. G, § 20, p. 61: “A norma que uma força da natureza [a qual, como veremos no § 30, é, em última

instância, a representação objetiva (como uma forma de eficácia) do conteúdo a posteriori da experiência] persegue com vistas à sua aparição na cadeia de causas e efeitos, ou seja, o laço que a ata a esta, é a lei natural”. Cf. também a passagem de W I, § 26, p. 181 que discutiremos em seguida.

Essa condição, por sua vez, tem ela mesma dois pressupostos: de um lado, (2a) que para o entendimento o próprio objeto imediato possua uma constituição que lhe seja dada a

priori (isto é, anteriormente à constituição da experiência objetiva) 84 e que lhe confira uma espécie igualmente particular de receptividade à influência causal, sem a qual esta não poderia ocorrer; de outro lado, (2b) a objetividade da causa da sensação exige que o entendimento assuma que também essa mudança possua uma eficácia determinada, cuja ação sobre a receptividade particular do objeto imediato deverá ser tomada como causa do câmbio apreendido na percepção como seu efeito. Esta última suposição, a nível universal, por ser condição de aplicação da lei causal, é feita a priori (cf. o nosso § 27), embora a determinação da eficácia particular em cada caso deva ser realizada a posteriori, com base no material sensível apreendido empiricamente (1) e na receptividade específica do objeto imediato prevista em (2a).

Para que aquela mudança que o entendimento agora identifica como causa do câmbio na sensação seja representada como objetiva nas formas de nossa intuição, será preciso ainda: (3) representá-la sob a forma de uma mudança de estado da matéria – uma

vez que isto é condição (a priori) para que apreendamos os estados sucessivos de nosso objeto imediato como conectados entre si (cf. os nossos §§ 25 e 26.1); (3a) submeter também essa própria mudança à mesma exigência (igualmente a priori) de (2), isto é, supor que também ela deverá ser efeito necessário de outra mudança de estado material que a antecedeu no tempo, graças à qual ela ocorreu apenas agora – pois também sua objetividade depende dessa conexão necessária. Consequentemente, também esta última mudança, da qual a mudança que é causa da sensação é efeito, deverá, por sua vez, ser submetida à mesma exigência, e assim ad infinitum, pois

84 É provavelmente nesse sentido que deve ser interpretada a afirmação um tanto enigmática de

Schopenhauer na obra magna, segundo a qual “a vontade é o conhecimento a priori do corpo, e o corpo o conhecimento a posteriori da vontade” (W I, § 18, p. 143). Para outros exemplos desse uso menos ortodoxo do termo “a priori” cf. W II, cap. 19, p. 237, onde o filósofo afirma que sabemos “em certa medida a priori (…) que o animal quer” e idem, p. 238.

todo efeito, quando ocorre, é uma mudança e, justamente porque ainda não ocorreu antes, fornece uma indicação inequívoca a uma outra

mudança, a ela anterior, a qual em relação a ela se chama causa, mas que

em relação a uma terceira mudança, outra vez necessariamente anterior a ela, se chama efeito. É esta a cadeia da causalidade: ela é necessariamente desprovida de início [anfangslos].

(G, § 20, p. 49; cf. o nosso § 25.3)

A exigência de (3a) é, pois, uma consequência necessária da exigência puramente a

priori feita em (3), segundo a qual a causa objetiva da mudança subjetiva da sensação deve

ser representada também como uma mudança, donde segue que também essa mudança estará submetida à lei causal, tendo que ser apreendida como efeito de mais outra mudança e assim por diante ad infinitum. Isso implica, porém, que também as exigências de (2a) e (2b) devem ser aplicadas não apenas ao objeto imediato e à sua causa imediata, mas a todas as mudanças que compõem a cadeia causal. Ou seja, (4) todo efeito pressupõe tanto uma

receptividade particular à influência causal de parte do estado material que sofre o mesmo,

como também uma eficácia particular de parte da causa que o gera: pois caso uma ou outra fosse diferente, a mudança tampouco teria sido a mesma.85 Embora, porém, como dito, essa

suposição seja simples consequência da exigência a priori de (3a), a determinação, em cada caso particular, dessa receptividade e da eficácia por ela desencadeada, é completamente

empírica, isto é, tem de ocorrer de maneira totalmente a posteriori – pois trata-se aqui dos pressupostos da própria causalidade, os quais, justamente por isso, não estão submetidos à

sua regulamentação, que se estende unicamente à determinação espaço-temporal das mudanças uma vez que as forças e as qualidades estiverem dadas.

§ 30. O conteúdo da representação sob uma perspectiva empírica: qualidade e

85 O mesmo calor endurece a argila e amolece a cera; inversamente, o calor evapora a água e o frio a faz

força. Vimos no § 23 e repetimos diversas vezes desde então que de uma perspectiva

meramente transcendental o conteúdo a posteriori da aparição, “aquilo na aparição que não é condicionado por tempo, espaço e causalidade, nem passível de ser a eles reconduzido, nem de ser explicado segundo eles” (W I, § 24, p. 166), aparece como uma sensação dos sentidos, como uma mudança interna simplesmente dada, absolutamente subjetiva porque anterior à aplicação das formas da cognição, as quais, como também já repetimos exaustivamente, são a condição da objetividade das representações e, logo, de sua cognoscibilidade. – Agora, porém, tratamos da perspectiva empírica sobre nossa experiência. Deste ponto de vista, isto é, na empiria propriamente dita, o conteúdo da cognição não aparece mais, como na análise transcendental, segregado das formas a priori que são a ele aplicadas, mas unido a elas para formar a matéria empírica, os objetos materiais propriamente ditos que compõem o todo organizado em tempo e espaço da intuição empírica. Ora, vimos no § 26 que a “matéria pura” aparece apenas como um elemento (formal) dessa matéria empírica, o qual se deixa expressar objetivamente (quer dizer, no interior de um quadro de referências espaço-temporais) como a substância idêntica e permanente em todas as coisas; agora, porém, vemos como também aquele outro elemento, isto é, o mesmo que surgira na consideração transcendental como mera sensação subjetiva, aparecerá agora como um conjunto de acidentes que modificam essa substância, ou de formas (em sentido amplo) ou qualidades que a determinam, ou ainda de estados particulares da matéria – em suma, como aquilo que confere àquele objeto sua característica particular, que o distingue dos demais.