2 SISTEMAS DE INOVAÇÃO
2.3.8 Esquema de análise da funcionalidade do sistema
Com o objetivo de analisar o SI e ajudar decisores políticos na seleção e priorização de políticas públicas, algo pouco abordado na literatura (EDQUIST, 2004), Bergek et al. (2008) proporam um esquema de análise que permite acessar o desempenho do sistema e identificar os fatores que influenciam esse desempenho. Assim, este esquema pode ser usado por pesquisadores e legisladores para analisar sistemas de inovações específicos a fim de identificar questões políticas chaves para melhorar o desempenho do sistema, de acordo com os objetivos deste. O esquema é composto por seis etapas (Figura 1).
Figura 1 - Esquema de análise.
Passo 1 – O ponto inicial para a análise: definir o foco do sistema de inovaçãoA definição do foco do sistema de inovação depende do objetivo do estudo e dos interesses dos stakeholders. Os autores destacam três aspectos que os analistas devem considerar para a análise:
i. A escolha do foco da pesquisa, que pode ser uma área do conhecimento ou produto/artefato;
ii. A escolha da amplitude e profundidade do estudo. A amplitude do estudo compreende o nível de agregação do estudo, ou seja, decidir entre incluir muito, alcançando uma visão mais ampla, ou ser mais específico, e o alcance das aplicações da tecnologia em questão. Dependendo das escolhas feitas nesta etapa de análise, diferentes tipos de atores, redes e instituições terão de ser incorporadas;
iii. A escolha do domínio espacial, ou seja, limitar espacialmente o sistema em análise.
Passo 2 – Identificar os componentes estruturais do sistema Após a definição do foco do sistema, deve-se identificar e analisar os componentes estruturais do sistema, ou seja, atores, redes e instituições. Para a identificação dos atores, Bergek et al. (2008) recomendam a utilização de alguns métodos, que podem ou não ser combinados:o Pesquisar em associações de indústrias;
o Realizar uma análise de patentes para identificar o volume e a direção das atividades tecnológicas de organizações e indivíduos;
o Realizar uma análise bibliométrica a fim de analisar o volume de publicações e citações;
o Entrevistas e discussões com especialistas, organizações, pesquisadores e financiadores.
A identificação das redes formais e informais do sistema, bem como parcerias público-privadas, relação dentro da cadeia de suprimentos, relações entre indústria, governo e universidades, etc. A identificação das instituições, bem como fatores culturais, normas, leis, regulações, deve considerar que estas podem vir de formas diferentes e afetar o sistema de maneiras distintas. Além disso, o analista pode deparar, algumas vezes, com a falta de instituições de interesse.
Passo 3 – Mapear o padrão funcional do sistema
O primeiro passo para a análise do sistema de inovação em termos funcionais é descrever o padrão funcional deste sistema, com o objetivo
de analisar como o sistema está se comportando em relação aos seus processos chave. Este padrão funcional difere entre sistemas distintos e podem mudar ao longo do tempo. Bergek et al. (2008) sugere sete funções, sintetizadas a partir de outras abordagens funcionais, como apresentado no Quadro 1 e Quadro 2.
Passo 4 – Acessar a funcionalidade do sistema e definir os objetivos do processo
Na etapa anterior, mapearam-se as funções do sistema, a fim de identificar como o sistema funciona. Na etapa 4, o propósito é analisar quão bem o sistema está funcionando. Para isto, os autores identificaram duas bases de acesso da funcionalidade, associados a diferentes tipos de problemas:
o Fase de desenvolvimento: corresponde a distinção entre a fase de formação do sistema. Na fase de formação, os componentes do sistema começam a se relacionar e, com a entrada de organizações e outras empresas, tem-se o início do alinhamento institucional e da formação de redes. A fase de formação se caracteriza por ter surgido há menos de uma década; por lidar com altas incertezas tecnológicas e de mercado; pelo desempenho dos produtos ser pouco desenvolvido; pelo baixo volume de difusão e atividades econômicas; pela demanda desarticulada; e pela ausência de retroalimentação positiva. Por outro lado, uma fase de crescimento é caracterizada pela expansão do sistema e a difusão em larga escala da tecnologia;
o Comparação entre sistemas: para melhorar a compreensão dos tomadores de decisões, os autores sugerem acessar outros sistemas similares de outras localidades.
Com base na fase de desenvolvimento e/ou com a comparação entre sistemas, pode-se identificar o que é esperado do sistema e especificar objetivos políticos a fim de indicar como o sistema poderá atingir um padrão funcional mais alto. Estes objetivos devem ser definidos conforme os sete processos/funções do sistema, considerando o objetivo geral do sistema.
Passo 5 – Identificar os mecanismos de bloqueio e indução Sistemas em fase de formação, em geral, apresentam uma dinâmica funcional fraca e, por isso, é importante compreender os mecanismos de bloqueio que moldam a natureza dinâmica do sistema. Também é interessante entender os mecanismos que induzem o sistema.
Em uma perspectiva política, os fatores de bloqueio podem ser dos seguintes tipos:
o Os proponentes de uma nova tecnologias podem ser fracos para contribuir para a legitimação do processo e instituições desalinhadas podem gerar uma formação de mercado deficiente;
o Capacidades pouco desenvolvidas entre potenciais consumidores pode levar a ausência de demanda e ao fraco desenvolvimento da formação de mercado;
o Redes podem fracassar em ajudar novas tecnologias pela falta de conexão entre os atores.
Os autores consideram que é empiricamente possível mapear as relações entre os mecanismos de bloqueio e indução do sistema. Uma vez que as funções não são independentes, mas influenciam umas às outras, os mecanismos de bloqueio e indução são ampliados por essa interdependência. Por este motivo, as políticas devem estar focadas em reduzir as forças dos mecanismos e bloqueio e fortalecer os mecanismos de indução.
Passo 6 – Especificar aspectos políticos chave
Depois de explicitar os objetivos do processo, o analista pode começar a especificar os aspectos políticos chave que levarão o sistema ao padrão funcional desejado.
CONSIDERAÇÕES FINAIS DO CAPÍTULO
Neste capítulo foram apresentados os principais conceitos de sistemas de inovação, com foco especial em sistemas setoriais de inovação. Um SI é composto por elementos que interagem entre si, dentro de um contexto, que pode ser nacional, regional, setorial ou tecnológico, e que buscam o desenvolvimento e a difusão da inovação.
O SSI, por sua vez, corresponde a dimensão setorial ou industrial de um sistema de inovação. Este é composto por atores, redes e instituições. Atores podem ser organizações e indivíduos; redes são as relações entre os atores do sistema; e as instituições correspondem à leis e regulações que regem esse sistema.
Alguns autores sugerem que o SI pode ser analisado a partir da dinâmica de seu funcionamento e propõem, assim, o conceito de “funções do sistema de inovação”. Essas funções analisam o processo de mudança tecnológica e geração de inovações no SI. Na literatura, há diferentes tentativas de definição e classificação das funções. Uma delas propõe sete funções essenciais: atividades empreendedoras, desenvolvimento de
conhecimento, difusão do conhecimento na rede, orientação à pesquisa, formação de mercado, mobilização de recursos e criação de legitimidade. Considera-se portanto, que a abordagem funcionalista dos sistemas de inovação pode ajudar a entender as atividades e os padrões relacionados a mudança tecnológica que ocorrem no SI, lançando luz às iniciativas políticas que podem melhorar a dinâmica do sistema e gerar novas inovações.
A fim de acessar o desempenho do SI e auxiliar tomadores de decisões a formular políticas públicas, uma corrente de autores propôs um esquema composto por seis etapas. Estas etapas envolvem a definição do SI que deve ser acessado, a identificação de seus componentes estruturais, o mapeamento da sua funcionalidade, a identificação do nível de desenvolvimento do mesmo, a relação dos de mecanismos que o bloqueiam e induzem e, finalmente, a proposta de políticas chaves que poderão levar o sistema a um novo grau de funcionalidade.
Nesta dissertação, estas seis etapas serão integradas com a metodologia de foresight, por meio de um technology roadmapping, a fim de analisar a funcionalidade dos sistemas setoriais emergentes em Santa Catarina. Assim, o conceito de Sistemas de Inovação traz uma visão mais dinâmica do sistema, por meio do entendimento das atividades de inovação nessas indústrias, a fim de melhor embasar as estratégias de longo prazo do foresight.
3 TECHNOLOGY FORESIGHT – PROSPECÇÃO