Nas etapas seguintes, procuramos demonstrar como pode- mos observar essa possibilidade3:
Escritura Matricial Digital Legível (EMDL)
Essa forma de escritura traz consigo toda a cultura de regis- tro memorial humano através de seus signos convencionais cifra- dos: verbal/fixo ou móvel, imagético/2D ou 3D e sonoro/musical. Esses códigos, separados por convenção de suas próprias histórias, visibilidade e compreensão, tiveram cada um deles a tecnologia empregada para sua disseminação.
Os meios de informação, como jornais virtuais, trabalham com esse conceito acima, pela própria tradição do meio impresso,
3 Extraído de: AZEVEDO, Wilton. Interpoesia: O início da Escritura Expandida.
Pós-doutorado. Tutoria Prof. Dr. Phillipe Bootz. Université Paris 8, Laboratoire de Paragraphe, Sorbonne, 2009. p. 112–114.
que conquistou sua credibilidade: som, imagem e texto estão dis- postos de maneira bem clara e sua matriz é operada de forma in- dicial, ou seja, de se parecer com o jornal impresso. No caso do ro- mance digital Volta ao Fim, ele é dividido em capítulos enumerados sequencialmente.
Imagem 1: Abertura de capítulo do romance digital Volta ao Fim, de Alckmar
Santos e Wilton Azevedo, 2011.Disponível em: <http://www.youtube.com/ watch?v=gUHLuxDukqA>. Acesso em: 5 jan. 2013.
Imagem 2: Nome do capítulo do romance digital Volta ao Fim, de Alckmar
Santos e Wilton Azevedo, 2011. Disponível em: <http://www.youtube.com/ watch?v=gUHLuxDukqA>. Acesso em: 5 jan. 2013.
Imagem 3: Abertura de capítulo do romance digital Volta ao Fim, de Alckmar
Santos e Wilton Azevedo, 2011. Disponível em: <http://www.youtube.com/ watch?v=gUHLuxDukqA>. Acesso em: 5 jan. 2013.
Imagem 4: Nome do capítulo do romance digital Volta ao Fim, de Alckmar
Santos e Wilton Azevedo, 2011. Disponível em: <http://www.youtube.com/ watch?v=gUHLuxDukqA>. Acesso em: 5 jan. 2013.
Escritura Matricial Digital Intermediária (EMDI)
Na EMDI, notamos já uma operação intersemiótica de có- digo que se adentra a outro código de maneira intersectiva, em que um leva do outro a características sígnicas que não são ne- cessariamente parte de sua matriz. A intermediaridade a qual nos referimo não é algo que desconfigura, deforma a percepção dos três códigos em questão, que ainda podem ser detectados dentro de suas características. Apenas de a interseção entre eles criar uma espécie de polissemantismo bem mais complexo, porque essa in- termediaridade acontece na ambiência numérica de um programa.
Imagem 5: Atame: Angústia do Precário, de Wilton Azevedo, 2005. Disponível
Imagem 6: Atame: Angústia do Precário, de Wilton Azevedo, 2005. Disponível
em: <http://www.youtube.com/watch?v=jJIDn0nv3Ag>. Acesso em: 5 jan. 2013.
Imagem 7: Eletroacáustica, de Wilton Azevedo, 2011.Disponível em: <http://
www.youtube.com/watch?v=3DTnIjqSris>. Acesso em: 5 jan. 2013.
Imagem 8: Eletroacáustica, de Wilton Azevedo, 2011. Disponível em: <http://
Escritura Digital Expandida (EDE)
Essa escritura caracteriza uma possível neopoética que implica a poesia ao digital. Não há mais código predominan- te, a ambiência é som-texto-imagem ou, como chamou Décio Pignatari, uma poesia “verbivocovisual”. Pignatari se referia a uma parte da poesia concreta que sempre ocorreu no espaço bi- dimensional, mas que cabe aqui, porque suas matrizes cifradas desaparecem, sobrevivem em forma de programação que admi- te o processo como uma escritura digital que se expande pela própria maneira como o programa opera, sem distinção entre som, imagem e texto.
Imagem 9: Atame: Angústia do Precário (versão interativa), de Wilton
Azevedo, 2008. Disponível em: <http://elmcip.net/creative-work/atame- angustia-do-precario>. Acesso em: 7 fev. 2013.
Imagem 10: Atame: Angústia do Precário (versão interativa), de Wilton
Azevedo, 2008. Disponível em: <http://elmcip.net/creative-work/atame- angustia-do-precario>. Acesso em: 7 fev. 2013.
Imagem 11: Atame: Angústia do Precário (versão interativa), de Wilton
Azevedo, 2008. Disponível em: <http://elmcip.net/creative-work/atame- angustia-do-precario>. Acesso em: 7 fev. 2013.
Imagem 12: Esquema gráfico para uma escritura digital expandida.
Signo em expansão
Notamos nessa tríade que não há signos prontos e defini- dos pelo simbólico que ele repercute ou instaura. Os signos são
overlappings que se refazem em redundantes processos de semiose
ou se originam como fenômenos – fenomenologia peirciana – e colocam a todo o momento uma situação nova e inesperada. As manifestações de linguagens e suas produções poéticas no proces- so de expansão no ambiente, não mais bidimensional, nos colo- cam diante de um signo nunca pronto, de um interpretante final que restaura sua qualidade sígnica – icônica – de um signo que se expande em direção ao não fechado, quebrando, desse modo, a cadeia da alteridade.
Na ambiência digital, podemos notar que o significado das palavras não cabe mais nelas mesmas, assim como matematica- mente há um lado escuro do cubo em sua existência, apenas não
conseguimos vê-la. A palavra nessa ambiência digital parece sofrer do mesmo problema: há um significado que não mais está ligado a um signo usual ou poético, e sim a um signo que se mostra em expansão, dilatando-se; ele está lá, mas só é detectado pelos seus componentes binários.
Sem dúvida alguma o “fazer” sempre, em nossa cultura cognitiva sintagmática, pressupôs um sujeito; mas que sujeito se- ria esse quando estamos falando de programação? É um sujeito que representa o interior do próprio sistema da máquina, ou seja, operações de modelos matemáticos binários que poderíamos ver como um endossistema de produção de signos e, por consequên- cia, sua linguagem “dispensa qualquer elemento de subjetividade” (RÖSSLER4 apud GIANETTI, 2006, p.179).
A escritura digital expandida opera como uma espécie en- dossistêmica, ou seja, os três códigos matriciais e sua linguagem de existência passam a atuar no sistema interno da linguagem ma- temática que o dispositivo e seus softwares específicos permitem que as máquinas digitais se auto-organizem e, por que não dizer, que se reformulem em sua emissão numérica.
Nesse sentido, observar a escritura digital apenas do pon- to de vista exossistemático, ou seja, por sua ação exterior, seria uma medida equivocada, porque estaríamos ocorrendo no erro de confundirmos o que o programa simula com o que o programa sis- tematiza e são duas ações totalmente distintas. As três categorias de escrituras digitais, desenvolvidas e apontadas aqui, constituem de maneira transitiva a mostrar como um programa (escritura) ca- minha da sua forma matricial até conjugar-se em um sistema de matricial matemático (0, 1), por assim dizer, que operacionaliza
4 RÖSSER, Otto E.; WEIBEL, Peter. Unsere Regenbogenwelt. In: KARL/WEIBEL,
em seu endossistema binário apenas um código que se dilata por natureza desse dispositivo.
Quando analisamos do ponto de vista endossistêmico, ve- rificamos que o conceito de uma ambiência dita “híbrida” repe- tidamente não se sustenta. O fato de haver uma confluência de dois ou três dos códigos elencados pode caracterizar um hibridis- mo, mas isso determina apenas o produto final, visto aqui como linguagem exossistemática. Sabemos que todas as pesquisas bio- lógicas não conseguem tornar produtos híbridos em reproduto- res, pois os primeiros são estéreis.
Híbrido - Em seu sentido mais amplo, descreve descenden- tes resultantes do cruzamento entre dois indivíduos geneti- camente não idênticos. [...] A esterilidade dos híbridos é um fator de manutenção das fronteiras da espécie, e a corrida contra o gênero híbrido é o fator de maior importância nas teorias dos espécimes. (THAIM & HICKMAN, 2004, p. 357)
Mais uma vez nos deparamos com a ideia de que a produção como “reprodutibilidade” na ambiência digital só acontece porque seu produto é potencial em sua mutabilidade, atualização e modificação, o que seria impossível se o produto final, como linguagem, fosse estéril. Reformulando a maneira de vermos o memorial humano e seu relato:
Todos os atos da percepção encontram-se profundamen- te na pré-história da experiência individual ou coletiva, isto é, na memória (do observador, da sociedade) e são sempre valorados emocionalmente pelo sujeito. Cada ato de percepção é, além disso, um ato de ação virtual. Esse argumento vai contra os fundamentos tanto da estética racionalista como da metafísica, segundo os quais é im- possível encontrar, fora do sujeito e da obra (no mundo
natural ou real) um critério objetivo de valor estético. (GIANETTI, 2006, p.177)