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4 ESQUEMATIZAÇÕES E PROJEÇÕES METAFÓRICAS

4.2 Esquemas Descritivos e Esquemas Discursivos

A formatação das diversas narrativas está associada aos esquemas-I e aos esquemas- X. A combinação desses esquemas em uma narrativa é que estamos chamando de Esquemas Descritivos de natureza corporificada (EDt). Os esquemas OCM, PARTE/TODO, LIGAÇÃO, CONTÊINER são responsáveis por descrever as partes componentes da narrativa e as ligações entre as ações e os eventos no espaço narrativo. Portanto, descrevem quais esquemas emergem, ou se combinam para forma uma “representação mental” das situações descritas.

A emergência dos EDt em narrativas permite criarmos, enquanto leitores, “movimentos descritivos”. Esses movimentos sugerem que um conjunto de EDt estrutura e guia os eventos que emergem ao logo da leitura do texto. Como os EDt emergem da natureza sensório-perceptual de nossos corpos em ação no mundo, esses esquemas permitem descrevermos quais os movimentos mais salientes envolvidos no processo de construção de sentido.

“Os movimentos descritivos” consistem, portanto, na atividade mental que mobilizam os EDt dentro do espaço da narrativa e os EDt, por sua vez, são aqui definidos como a relação entre os esquemas-I e esquemas-X. Aventamos que são os movimentos descritivos que parecem manter a “coerência” interna entre os trajetores e as ações desenvolvidas na narrativa. Na figura (3) apresentamos uma ilustração de como os esquemas descritivos participam, de certo modo, do desenvolvimento de uma narrativa:

Figura 4: ilustração dos Movimentos Descritivos

Fonte: elaborada pelo autor.

A figura 4 ilustra, de maneira didática, que para cada movimento descritivo há um conjunto de EDt que guia os diferentes momentos de uma narrativa. Nas fábulas, por exemplo, verificamos que esses movimentos descritivos envolvem trajetores que se movimentam em um cenário, deslocando-se para um determinado espaço a partir de outro espaço (CONTÊINER). Os Esquemas Descritivos, portanto, participam do processo de construção do sentido e nos apontam quais informações guiam determinados tipos de situação ou ação que ocorre dentro do espaço da narrativa. A figura 5 demonstra uma análise simplificada de como os Esquemas Descritivos participam do processo de emergência do

significado em uma fábula:

Figura 5: esquema simplificado dos movimentos descritivos em uma fábula.

Fonte: elaborado pelo autor.

Os EDt participam do processo de construção do sentido e nos guiam, enquanto leitores, a fazer projeções esquemáticas a partir da relação espaço/movimento instanciada pelas pistas linguísticas que sugerem a atuação de agentes em um dado espaço narrativo. Esse espaço sugere cenários e roteiros que parecem emergir de esquemas como LIGAÇÃO, CONTÊINER, PARTE/TODO, CENTRO/PERIFERIA e O/C/M.

Podemos verificar, na figura (5), a partir do título, os seguintes movimentos descritivos:

1. LIGAÇÃO – Os agentes se ligam para formar o tema da narrativa;

2. CONTÊINER – Os agentes se inserem em uma narrativa e a narrativa está inserida em um modelo de texto, a fábula;

3. PARTE/TODO – O cordeiro é tomado como a representação de todos os cordeiros;

4. CENTRO/PERIFERIA – A força é tomada como central na relação de poder, enquanto os argumentos são periféricos. Eles existem, mas não tem efeito, segundo a moral da história.

Até aqui vimos que os EDt são formados pela relação entre os esquemas-I e os esquemas-X em um dado espaço narrativo. O discurso que emerge, por sua vez, também pode ativar esquemas mentais que possibilitam o acionamento e delimitação dos espaços discursivos onde ocorrem. Esses espaços são definidos, portanto, como modelos mentais que criamos a partir do conjunto de informações sociais, culturais e políticas que, por sua vez, emergem de determinadas situações comunicativas (VAN DIJK, 2006a, 2006b).

É nesse sentido que adotaremos, nesta tese, para fins didáticos, os termos CONTÊINER Discursivo (CntD), LIGAÇÃO Discursiva (LgD), PARTE/TODO Discursivo (P/T D) e ORIGEM/CAMINHO/META Discursivo (O/C/M D). Esses esquemas participam da estruturação dos Frames Discursivos que trataremos mais adiante.

O esquema CntD aponta para a noção de que um discurso está inserido em um ou mais discursos. Dentro do discurso sobre “segurança”, por exemplo, podemos relacionar outros discursos como o papel da polícia, dos políticos, da escola, da família, etc.

O esquema LgD parte da noção de que um discurso pode estar ligado a outro em um continuum categorial. Um discurso sobre EDUCAÇÃO pode se ligar a discursos sobre desenvolvimento tecnológico, desenvolvimento humano; disciplina, etc.

O esquema P/T D sugere que determinado discurso pode completar, ou fazer parte de um discurso maior. Discursos sobre preservação das florestas, preservação dos rios e consumo de alimentos orgânicos, por exemplo, podem ser parte de um discurso maior sobre CONSCIÊNCIA AMBIENTAL.

O esquema O/C/M D revela uma motivação, um meio e uma finalidade discursiva. As fábulas, por exemplo, são os exemplos mais prototípicos de como essa noção de “esquema discursivo” é construída. As fábulas costumam apresentar uma “motivação discursiva”, um “desenvolvimento narrativo” e um discurso que emerge em forma de frame discursivo de natureza “moral” e que pode ou não ser questionado.

A ativação dos Esquemas Discursivos (EDc), formado pela combinação imagética de esquemas-I (O/C/M, PARTE/TODO e LIGAÇÃO) em um espaço discursivo, chamaremos de “movimentos discursivos”. Esses movimentos consistem de atividades mentais que

mobilizam (EDc) e serão retomados no capítulo 5, quando discutiremos sobre o papel dos frames no processo de construção dos discursos.

Como podemos verificar, até aqui, os esquemas descritivos e discursivos são esquemas mentais que recrutamos no contexto das narrativas e dos discursos. Esquemas descritivos e discursivos são estruturados pelos papéis dos esquemas-I e esquemas-X durante o processo de construção de sentido. Esses esquemas imagéticos não são exclusividades de um tipo particular de narrativa, como as fábulas. Vejamos, como contraponto, a ativação dos EDt e EDc a partir da manchete jornalística em (37):

(37) “Escola do rio em que ocorreu o massacre ficará fechada pelo menos uma semana”19

O enunciado em (37) parece sugerir um discurso sobre VIOLÊNCIA, mas também sugere discursos como a FALTA DE SEGURANÇA, CRIMINALIDADE, etc. Os esquemas descritivos mais preponderantes parecem estar relacionados aos esquemas-I: LIGAÇÃO, CONTÊINER, ESCALA e O/C/M. Em (38), podemos ver de maneira resumida como esses esquemas contribuem para a emergência dos discursos:

(38) Esquemas descritivos/discursivos da manchete jornalística em 37:

a. LIGAÇÃO – (i) a “escola” está ligada à “educação” que está ligada a um nível de “ensino” (fundamental); (ii) “massacre” está ligado a “crime” que está ligado a um “criminoso” e está ligado, ainda, a penalidades reguladas pela justiça;

b. ESCALA – massacre: considerado um nível alto de ofensa a vidas humanas; c. ORIGEM/CAMINHO/META: relacionado à ação de alguém, que cometeu um crime, que resultou em morte e fechamento de uma escola;

d. CONTÊINER – (i) O ensino se dá dentro da escola e a escola está inserida na educação; (ii) um massacre está inserido na categoria assassinato, que se insere na categoria crime. (iii) uma semana está inserido em um mês que está inserido em um ano.

Verificamos em (37) e (38) que os esquemas Descritivos participam efetivamente da elaboração da narrativa e, consequentemente, da emergência discursiva, uma vez que reúne

elementos linguísticos que ligam os agentes aos eventos e as ações, além de refinar os discursos por meio da aferição de aspectos, dimensões e organização de conteúdo e informações socioculturais.

Os Esquemas Descritivos ajudam a perceber as ligações entre os eventos, as partes componentes do texto e as sequências narrativas e discursivas. A seguir, veremos que esses esquemas, além de permitirem construir categorias discursivas, promovem, ainda a ativação e o acionamento de projeções metafóricas, recursos estes que têm papel relevantes no processo de construção de sentido em narrativas.