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2.1 GRAFO DO DESEJO – APRESENTAÇÃO E

2.1.4 Estádio do espelho

O estádio do espelho, composto pela metáfora de um campo onde há jogos em experiência – segundo Lacan (1949/1998), um campo fortificado –, apresenta o

6Adaptado de LACAN, Jacques. (1960). “Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano”. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p. 831.

44 momento de constituição do eu e de tudo que com ele se relaciona, assim como o ponto em que se estabelece a identidade, a relação e distinção entre o eu e o Outro.

Correlativamente, a formação do [eu] simboliza-se oniricamente por um campo fortificado, ou mesmo um estádio, que distribui da arena interna até sua muralha, até seu cinturão de escombros e pântanos, dois campos de luta opostos em que o sujeito se enrosca na busca do altivo e longínquo castelo interior, cuja forma (às vezes justaposta no mesmo cenário) simboliza o isso de maneira surpreendente. E, do mesmo modo, desta vez no plano mental, vemos realizadas essas estruturas de obra fortificada cuja metáfora surge espontaneamente, como que saída dos próprios sintomas do sujeito, para designar os mecanismos de inversão, isolamento, reduplicação, anulação e deslocamento de neurose obsessiva. (LACAN, 1949/1998, p. 97)

O estádio do espelho é, também, considerado um mapa cartográfico das relações entre o eu e o Outro, das relações do sujeito com ele mesmo e com grupos sociais. Além disso, apresenta o momento do estabelecimento das bordas do corpo e a demarcação dos seus limites em relação ao seu corpo, ao corpo dos outros e ao corpo dos objetos.

Basta compreender o estádio do espelho como uma identificação, no sentido pleno que a análise atribui a esse termo, ou seja, a transformação produzida no sujeito quando ele assume uma imagem – cuja predestinação para esse efeito de fase é suficientemente indicada pelo uso, na teoria, do antigo termo imago. (LACAN, 1949/1998, p. 97)

Freud (1923/2006) nos ensina que o eu não é o início do campo psíquico, devendo o mesmo ser constituído pelas experiência e relações com o Outro e com os outros. E Lacan (1949/1998) acrescenta que o eu não se constitui pelo amadurecimento biológico, mas se estabelece e se apresenta por meio de uma relação. Portanto, o estádio do espelho é o campo em que essas experiências, essas relações, produzem o eu.

Faz frente por meio de que? Por meio de algo emprestado do jogo de dominação que a criança numa idade eletiva, aprendeu a manejar numa certa referência a seu semelhante como tal. Trata-se da experiência do semelhante no sentido de que ele é olhar, de que ele é o outro que te olha, de que põe em jogo certa quantidade de relações imaginárias, entre as quais, em primeiro plano, as relações de preeminência, e também de submissão e derrota. Por meio disso é o que o sujeito procede. (LACAN, 1958-1959/2016, p. 28)

45 O estádio do espelho não se reduz a uma mera experiência, mas ao desenvolvimento do eu, visualizado mediante observações corporais face a imagem especular, entre as relações do sujeito consigo próprio, com suas relações sociais e com sua relação com o Outro.

Basta compreender o estádio do espelho como uma identificação, no sentido pleno que a análise atribui a esse termo, ou seja, a transformação produzida no sujeito quando ele assume uma imagem – cuja predestinação para esse efeito de fase é suficientemente indicada pelo uso, na teoria, do antigo termo imago. A assunção jubilatória de sua imagem especular por esse ser ainda mergulhado na impotência motora e na dependência da amamentação que é o filhote do homem nesse estágio de infans parecer-nos-á pois manifestar, numa situação exemplar, a matriz simbólica em que o [eu]

se precipita numa forma primordial, antes de se objetivar na dialética da identificação com o outro e antes que a linguagem lhe restitua, no universal, sua função de sujeito. (LACAN, 1949/1998, p. 97)

Lacan, primeiramente, elaborou o texto “O estádio do espelho como formador da função do eu”, enfatizando a alienação do infans na imagem do semelhante, a qual precipita uma gestalt antecipatória do corpo próprio do sujeito. Lacan não deixa de enfatizar como a criança, deslumbrada com sua própria imagem, vira seu rosto em direção ao olhar adulto, buscando uma confirmação, uma aprovação, de concordância ou de testemunho, uma palavra afirmativa do adulto, que lhe é simultaneamente outro e Outro – pequeno outro, em sua imagem de corpo; grande Outro, em seu lugar de fala (POLLO, 2012, p. 148).

A Figura 8 apresenta o momento em que o sujeito, na sua representação pela imagem, se reconhece como um eu. Em um primeiro momento, o infans não se identifica com a imagem, porém, posteriormente, passa a ser representado por essa imagem, que situa seu lugar em relação ao Outro, passando a assumir a posição de sujeito.

46 Figura 8 – Identificação do sujeito no estádio do espelho

Fonte: Arquivo próprio7.

Neste ponto, o Outro passa a ser visto como o portador da linguagem, o que completa o primeiro patamar do grafo que, por sua vez, acompanha a estrutura da fala, conhecida como linha diacrônica, antecipando a conclusão da significação pelo efeito de retroação tomada pelo Outro no ponto de estofo. Pode-se, então, dizer que isso se dá na medida em que, de formas conexas, outros processos ocorrem, entre eles o estádio do espelho, que agrega, na estrutura simbólica, três tempos distintos e de grande importância para a constituição do eu.

No primeiro tempo, pelo olhar da criança, o espelho é meramente um objeto, diferentemente do que ocorre com o adulto, que, ao se ver no espelho, vê o desenvolvimento e as perspectivas pela ótica do ser, do sujeito.

Mas essa relação com a natureza é alterada, no homem, por uma certa deiscência do organismo em seu seio, por uma Discórdia primordial que é traída pelos sinais de mal-estar e falta de coordenação motora dos meses neonatais. A noção objetiva do inacabamento anatômico do sistema piramidal, bem como de certos resíduos humorais do organismo materno, confirma a visão que formulamos como o dado de uma verdadeira prematuração específica do nascimento no homem.

(LACAN, 1949/1998, p. 100)

7Adaptado de LACAN, Jacques. (1960). “Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano”. In: Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998, p. 831.

47 No segundo tempo, a criança, ao se ver no espelho, acredita que aquele corpo não lhe pertence, que é um outro, por ainda não ter demarcado seu corpo. Portanto, a criança interage com a imagem que surge, sem entender que é o seu próprio corpo.

Esse acontecimento pode produzir-se, como sabemos, desde Baldwin, a partir da idade de seis meses, e sua repetição muitas vezes deteve nossa meditação ante o espetáculo cativante de um bebê que, diante do espelho, ainda sem ter o controle da marcha ou sequer da postura ereta, mas totalmente estreitado por algum suporte humano ou artificial (o que chamamos, na França, um trotte-bébé [um andador]), supera, numa azáfama jubilatória, os entraves desse apoio, para sustentar sua postura numa posição mais ou menos inclinada e resgatar, para fixá-lo, um aspecto instantâneo da imagem. (LACAN, 1949/1998, p. 97)

O terceiro tempo representa o momento do reconhecimento da própria imagem pela criança, pois, onde antes existia um outro, agora ela passa a se reconhecer como sujeito, então o eu surge. Porém, o processo de constituição do eu necessita de uma confirmação simbólica, do reconhecimento pelo Outro.

Na simples imagenzinha exemplar da qual partiu a demonstração do estádio do espelho – o chamado momento jubilatório em que a criança, vindo captar-se na experiência inaugural do reconhecimento no espelho, assume-se como totalidade que funciona como tal em sua imagem especular – porventura já não relembrei desde sempre o movimento feito pela criancinha? Esse movimento é tão frequente, tão constante, eu diria, que qualquer um pode lembrar-se dele. Ou seja, a criança se volta, como observei, para aquele que a segura e que está atrás dela. Se nos esforçarmos por assumir o conteúdo da experiência da criança e por reconstituir o sentido desse momento, diremos que através desse movimento de virada da cabeça, que se volta para o adulto, como que para invocar seu assentimento, e depois retorna à imagem, ela parece pedir a quem a carrega, e que representa aqui o grande Outro, que ratifique o valor dessa imagem. (LACAN, 1962-1963/2005, p. 41)

Portanto, o ponto fundamental está fora do campo de experiência. A experiência não é somente o objeto chamado espelho, mas tudo que devolve ao sujeito a sua imagem. O espelho é a superfície que permite o reconhecimento da imagem onde há a distinção da imagem do outro.

Com efeito, para as imagos – cujos rostos velados é nosso privilégio ver perfilarem-se em nossa experiência cotidiana e na penumbra da eficácia simbólica, a imagem especular parece ser o limiar do mundo visível, a nos fiarmos na disposição especular apresentada na alucinação e no sonho pela imago do corpo próprio, quer se trate de seus traços individuais, quer de suas faltas de firmeza ou suas projeções objetais, ou ao observarmos o papel do aparelho especular

48 nas aparições do duplo em que se manifestam realidades psíquicas de outro modo heterogêneas. (LACAN, 1949/1998, p. 98)

É importante destacar a relação do estádio do espelho com o atendimento das demandas da fantasia e com a satisfação do desejo, pois o sujeito, ao ver sua imagem refletida no espelho, visualiza, também, seus desenvolvimentos e suas conquistas pessoais. Por outro lado, o sujeito, ao se ver no espelho, pode, também, constatar suas perdas e insatisfações com referência ao não atendimento das demandas de suas fantasias e satisfação de seus desejos, o que pode se tornar angústia, e que, em função da imagem especular vinculada, direcionaria o sintoma ao corpo.

Ele instaura nas defesas do eu uma ordem genética que corresponde ao anseio formulado pela Srta. Anna Freud na primeira parte de sua grande obra, e situa (contrariando um preconceito frequentemente expresso) o recalque histérico e seus retornos num estádio mais arcaico do que a inversão obsessiva e seus processos isoladores, e estes, por sua vez, como precedentes a alienação paranoica, que data da passagem do [eu] especular para o [eu] social. Esse momento em que se conclui o estádio do espelho inaugura, pela identificação com a imago do semelhante e pelo drama do ciúme primordial (tão bem ressaltado pela escola de Charlotte Bühler nos fenômenos de transitivismo infantil), a dialética que desde então liga o [eu] a situações socialmente elaboradas. (LACAN, 19491998, p. 101)

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