2. O CAMPO DE PESQUISA ACADÊMICA
2.2 Campo de Pesquisa Acadêmica em
2.2.1 Métodos e metodologia de projeto
2.2.1.2 Estágio descritivo de pesquisa em projeto
O estágio descritivo investigou a natureza intrínseca dos problemas de projeto. Os problemas de projeto já eram descritos como mal definidos, mal estruturados, indomesticáveis (wicked problems) em contrapartida aos problemas domesticáveis da ciência (tamed problems) (RITTEL, WEBBER, 1973). Segundo Cross (1982), os problemas de projeto não são quebra-cabeças, como os problemas que cientistas e matemáticos resolvem. Eles não estão estruturados com todas as informações para que se possa resolvê-los, isto porque tais informações não estão disponíveis e nem acessíveis.
Rittel (1972) e Rittel, Webber (1973) apontaram as incongruências e ausências de investigação da primeira geração de métodos de projeto e procurou na sua atividade teórica estruturar uma nova forma de abordar problemas de projeto.
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Em entrevista para o Journal DMG, do grupo de investigadores ‘The Design Methods Group’daUniversity of California, de Berkely, em 1972, Rittel (in CROSS, 1984, p. 320) propôs que a segunda geração de métodos fosse diferente da primeira geração de métodos, por adotar e aprofundar o “desenvolvimento e refinamento do modelo argumentativo do processo de projeto” e o “estudo da lógica do raciocínio do projeto”.
Neste modelo argumentativo de processo de projeto apresentado por Rittel (in CROSS, 1984, p. 321-2), “há regras para a estruturação de argumentos que são novas e não foram desenvolvidas pela primeira geração” e “os clientes são cúmplices durante a geração de soluções”.
Segundo Rittel os métodos da segunda geração são caracterizados da seguinte maneira:
[...] o processo de projeto não é considerado como uma sequência de atividades que são muito bem definidas e que são realizadas por uma ação seguida da outra, como ‘compreender o problema, coletar informações, analisar informações, sintetizar, decidir’, e assim por diante; e outro sendo a percepção de que você não consegue entender o problema sem ter um conceito de solução em mente; e que você não consegue selecionar informação significativa a menos que você tenha entendido o problema, mas que você não consegue entender o problema sem informações sobre ele [...] (RITTEL, 1971, in CROSS, 1984, p. 321, tradução da autora15).
Os autores relacionados por Cross (1984) para apresentar o estágio descritivo são Peter H. Levin, Christopher Alexander e Barry Poyner, Horst W. J. Rittel e Melvin M. Webber, e Herbert Simon. A regra em comum entre todos os autores, explícitas em seus textos, é a
15[…] the design process is not considered to be a sequence of activities that are pretty well defined and that are carried through one after the other, like ‘understand the problem, collect information, analyses information, synthesize, decide’, and so on; and another being the insight that you cannot understand the problem without having a concept of the solution in mind; and that you cannot gather information meaningfully unless you have understood the problem but that you cannot understand the problem without information about it […] (RITTEL, 1971, in CROSS, 1984, p. 321).
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concordância que problemas de projeto são por natureza ‘mal definidos’
(CROSS, 1984, p. 105).
O primeiro conjunto de textos desta etapa representa o estudo de projeto arquitetônico urbano, o texto ‘Decision-making in Urban Design’, de Peter H. Levin, e ‘The Atoms of Environmental Structure’,dos autores Christopher Alexander e Barry Poyner, tratam da problemática ‘tomada de decisão’ em projeto e das relações de parâmetros e variáveis da estruturação de problemas.
O texto ‘Planning Problems are Wicked Problems’, de Horst W. L. Rittel e Melvin M. Webber, é uma contribuição fundamental ao campo de pesquisa de projeto sobre a natureza dos problemas ‘indomesticáveis’
(wicked problems), que são característicos de sistemas sociais abertos.
Para Rittel e Webber (1973), problemas de projeto não são enquadráveis em regras matemáticas, não são verdadeiros nem falsos, mas sim bons ou maus; não são passíveis de apreender por tentativa e erro, pois são soluções únicas, e são consequenciais (uma consequência imediata da implantação da solução); tais problemas não são enumeráveis ou passíveis de serem descritos exaustivamente, nem formam um conjunto bem descrito de problemas que podem ser respondidos imediatamente pelo projeto; às vezes, os problemas indomesticáveis podem ser sintomas de outro problema ainda não relacionado para o desenvolvimento do projeto.
Herbert Simon é o elemento do grupo de agentes que contribuiu para o
‘campo de pesquisa de projeto auxiliador por computadores’. Ele representa aCarnegie Mellon University, de Pittsburgh, Estados Unidos, e seu campo de estudo é a inteligência artificial e um dos objetos de estudo de sua pesquisa são os processos de modelagem de tomadas de decisão para resolução de problemas.
Simon estruturou o pensamento de ‘projeto como resolução racional de problemas’, definindo a ‘lógica do projeto’. No texto relacionado por Cross para esta coletânea, ‘The Structure of Ill-structured Problems’, Simon (1973) trata da estrutura dos problemas mal estruturados dentro do paradigma de racionalidade técnica.
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O conteúdo de cada um dos artigos aglomerados neste grupo apresenta diferentes pontos de vistas sobre como lidar com tais problemas e eles apresentam as duas linhas de força que cercam o campo da pesquisa em projeto: estamos entre os agentes que querem desenvolver uma ‘ciência de projeto’ objetiva e àqueles cujos reconhecimentos da natureza ‘mal definida’ e ‘mal estruturada’ dos problemas de projeto impedem etiquetar o projeto com precisão objetiva, com as técnicas da ciência e da engenharia.
No entanto, os textos do estágio descritivo não apresentam a reação contra a metodologia de projeto e a rejeição a seus valores subjacentes que Cross (1984, p. 306) apontou como a ‘crise de confiança’ que se abateu sobre o campo de pesquisa em projeto no início da década de 1970 (1984, p. 306). São os textos que constituem a quinta parte do livro
‘Developments of Design Methodology’ (1984) que vocalizam o descontentamento com a prática dos métodos de projetos pelos próprios líderes da primeira geração do campo.
Os textos escolhidos por Cross que demonstram a ‘crise de confiança’
são: ‘The State of the Art in Design Methods’ (1971), de Christopher Alexander; ‘Second-generation Design Methods’ (1972), de Horst W. J.
Rittel, ‘How My Thoughts about Design Methods have changed during the Years’ (1977), de John Christopher Jones, ‘Whatever Became of Design Methodology’ (1979), de L. Bruce Archer e ‘The Development of Design Methods’ (1979), de Geoffrey Broadbent.
Alexander, Rittel, Jones e Archer apresentaram visões pessimistas e reformistas dos métodos de projeto da primeira geração. Já Broadbent comparou sucesso e fracasso. Assim, em seu texto ‘The Development of Design Methods’, listou a Disney World, na Flórida, como um case de sucesso de aplicação dos métodos de projeto da primeira geração, em contrapartida, apresentou aUniversity of Louvain, na Bélgica, como um caso de resultado insatisfatório produzido por métodos participativos de projeto da segunda geração do projeto.
A década de 1970, como apresentada por Cross, mostrou o início dos questionamentos do pensamento de ‘projeto como um processo racional
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de resolução de problema’. O período caracterizou-se pela afirmação de que o estudo da atividade projetual pode ser científico, é a ciência do projeto, porém a ação projetual, o projeto, não é ciência.