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3.4 Modos de ser adm

3.4.3 Estágio supervisionado

Durante o processo de formação, existem algumas possibilidades de os alunos vivenciarem o cotidiano organizacional. Duas delas seriam o estágio obrigatório, conhecido como estágio supervisionado, e o estágio não obrigatório, sendo que este último não soma créditos para o aluno, nem tem um acompanhamento mais efetivo por parte do curso e da universidade.

De acordo com o PPC (2010, p.34), “o estágio supervisionado deve ser um mecanismo que possibilite a oportunidade de vivenciar aspectos práticos relevantes à formação profissional, além da contribuição obtida em sala de aula”.

Tenho o ponto de vista do aluno em si. Um aluno que vem do interior, que vive numa república dividindo um apartamento [...],encontra nisso uma perspectiva até de sobrevivência. Então, essa é uma análise de uma possibilidade que se abre para o aluno... O estágio remunerado é o que garante a subsistência dele. Agora do ponto de vista do curso em si, acho que não tem muito a contribuir. Se ele não tiver uma supervisão efetiva, se ele não tiver uma orientação, um acompanhamento a partir das pessoas que estão supervisionando... Sem supervisão sempre vai ter uma perspectiva de (não sei se é chavão dizer) mão de obra barata (ADMINISTRADOR B).

Estágio também é uma grande dificuldade de você trabalhar, porque eles querem entrar numa organização, trabalhar, às vezes, ser mão de obra barata, mas o importante é entrar numa organização. Eu acho que num primeiro momento, isso não tem problema porque vivenciar o ambiente organizacional é importante, mas o estágio todo é um grande problema (PROFESSOR A).

O Projeto Pedagógico do curso de administração da UFES traz a ideia de vivenciar aspectos práticos relevantes à formação profissional. Contudo, não há um acompanhamento sistemático por boa parte dos professores, e sim a mera solicitação de um relatório.

Com isso, lembramos de uma experiência em relação à orientação de estágio supervisionado, ao solicitar explicações detalhadas no relatório e ao perguntar sobre o cotidiano do estágio para entender as atividades realizadas e pensarmos juntos

sobre o que poderia ser analisado, um aluno diz o seguinte: “professora, alguns alunos que já fizeram me disseram que é algo bem mais simples”.

Aparentemente, há um entendimento que está sendo produzido ao longo dos anos em relação ao estágio supervisionado de que ele serviria somente para cumprir créditos.

A última etapa da linha de produção de administradores segundo Nicolini (2003), seria o estágio supervisionado. Daí a comparação que o autor faz entre das escolas de administração com as fábricas. Ele percebe que o estágio supervisionado não atende a critérios mínimos de supervisão e uma possibilidade dos alunos vivenciarem situações acaba tendendo a uma simples geração de relatórios.

Nos contatos com os alunos durante as aulas, percebemos que eles conhecem ou ao menos têm uma boa noção das disciplinas que compõem o curso. No entanto, eles não têm ideia do que o curso espera deles como profissionais. No Projeto Pedagógico do curso (PPC, 2010, p.7), está estabelecido o que é esperado do aluno egresso:

O Curso de Administração da Universidade Federal do Espírito Santo pretende formar profissionais com conhecimentos conceituais e técnicos necessários ao seu desempenho, capazes de exercer seu papel com consciência crítica em relação aos contextos organizacionais e sociais onde estiver inserido. Como profissionais com responsabilidades sociais e competência técnica, pretende-se que os egressos do Curso possuam conhecimentos que os habilitem ao exercício de suas atividades com consciência de sua atuação política como mediadores dos conflitos sociais contemporâneos.

Pela descrição de como deveria ser o egresso, vemos que o curso busca uma formação que habilite os alunos a exercerem não apenas sua atividade, mas também um repensar sistemático acerca da atuação profissional, juntamente com os efeitos que produz.

Observamos na matriz curricular, que tal formação está voltada para uma mescla de diferentes aspectos. Apesar disso, há um descontentamento em relação a uma falta de prática. A matriz curricular é composta por conteúdos de formação básica, conteúdos de formação profissional e por conteúdos de formação teórico- prática, que seriam as atividades complementares, o estágio supervisionado e o trabalho de conclusão de curso (PPC, 2010).

Eles sentem que precisam aprender o que as organizações exigem, pois há uma disputa por vagas. Por isso, ansiosos, precisam ficar atentos a todas as

novidades, uma atenção desfocada, porque é preciso captar o máximo possível, retendo apenas o que lhes dizem que é útil.

O estágio supervisionado seria uma importante vivência, mas que, em sua maioria, não é aproveitada. Seja pela pré-concepção de que o estágio somente serve para somar créditos, seja porque não há uma efetiva supervisão por parte dos professores em uma clara insuficiência de carga horária para tal atividade25, seja porque as organizações contratam alunos de administração para realizarem aquilo que estagiários de ensino médio poderiam realizar, como serviços de office-boy, organização e arquivamentos de documentos, recepção de clientes, operar máquinas copiadoras.

Esse tipo de estágio, que não proporciona uma oportunidade de experimentar os saberes adm, que não remunera adequadamente, contribui, de fato, para o processo formativo desses alunos? Contribui, em parte, pois os alunos já começam a vivenciar o ambiente organizacional e a estabelecer relações com pessoas, trabalho, regras, situações. Mas, em relação à utilização dos saberes em situações concretas no ambiente organizacional, não podemos afirmar que contribuam.

Ao falarmos do estágio supervisionado, estamos nos referindo a uma prática que faz parte do processo formativo dos alunos de administração, não o fizemos em detrimento do estágio não obrigatório, visto que ambos se sobrepõem em muitos casos, e, na maioria das vezes, o estágio supervisionado é realizado em organizações que remuneram os alunos com uma bolsa-auxílio.

No final da década de 1960, as universidades, o governo e o empresariado, considerando que “o estudante que não trabalha não tem tempo para se engajar em movimentos subversivos” Cunha (2007b, p.62), procuraram manter certa ordem social por meio da fundação do Centro Integrado Empresa-Escola de São Paulo, que inspirou a criação de tantos outros pelo país. Uma tentativa que pretendia levar às empresas a contribuição teórica dos estudantes e levar às escolas “o espírito prático das empresas, assim como as mudanças que a produção estaria imprimindo no perfil desejado para os formandos” (CUNHA, 2007b, p.65).

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Como professora, na primeira vez em que tive alunos de estágio supervisionado, houve certa dificuldade porque os alunos pareciam esperar que somente um relatório lhes fosse cobrado. Muitas foram as tentativas para saber o que acontecia nas atividades de estágio, nas organizações, o que parecia surpreender alguns alunos e a decepcionar outros.

Entretanto, o que observamos nas supervisões de estágio, na maioria dos casos, é um mero interesse por parte de organizações em mão de obra universitária e barata e não uma postura receptiva em relação à contribuição dos alunos para o cotidiano organizacional.