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O último estatuto da ABFRI foi elaborado em março de 1932. Neste período, a Associação tinha sua sede social à praça da República

ns 54, onde também se localizava a sinagoga, que ali se estabeleceu nos anos 20. Zelda, Celina e Etel casam-se lá entre 1929 e 1930. O costume da época era que as moças dessem aos maridos um dote ao casar, e elas, muito pobres, lembram que foram os membros da Sociedade quem lhes presentearam com dinheiro, permitindo que pudessem começar suas vidas. O rápido casamento das três moças, que acontece no máximo um ano depois da chegada ao país, realiza-se com filhos de pessoas ligadas a ABFRI. Etel, por exemplo, casa-se com um rapaz, cuja mãe era sócia da ABFRI. Zelda e Celina também são apresentadas a rapazes desse grupo. Isto é compreensível, já que o restante da comunidade judaica carioca procurava estabelecer frontei­ ras de separação entre os grupos.

Celina destaca o censo de caridade que regia a ABFRI —segundo ela, pelo fato de sua mãe trabalhar para a Associação, esta retribuía com afeto e auxílio. São as lembranças de Zelda e Celina que nos permitem conhecer o espaço da sinagoga. “Era um sobrado e tinha dois salões. Tinha Torá, tinha tudo. Estava lindo”28, conta Zelda, enquanto Celina lembra que

“Tinha rabino, tinhâ música, tinha tudo. É uma pena que naquele tempo a gente não tivesse filmes e coisas para tirar [retrato]. Era tão bonito aqueles tapetes vermelhos com aquelas rosas enfeitadas em volta”29. (Entrevista concedida à autora em 21/9/1993)

Suas lembranças também testemunham as inúmeras festas reali­ zadas naquele local: noivados, casamentos e, principalmente, as datas

28 Entrevista concedida à autora em 22/9/93.

29 Perguntadas sobre seus contratos de casamento — o registro assinado pelo rabino que realizou a cerimônia —, Zelda e Celina disseram não possuir. Assim, fica explícito que não havia rabino e sim um mestre de cerimônia que a conduzia. As leis religiosas judaicas permitem tafp ráü cae qualquer judeu pode-oficializar tais atos quando não há um rabino disponível.

religiosas. Ao que parece, nenhum acontecimento deixava de ser comemorado pela comunidade que freqüentava aquela sinagoga. Em 1961, registra-se a existência de um cartão-convite, o último impresso, segundo o Sr. O. Por seu intermédio, a diretoria convida seus associa­ dos e familiares para as cerimônias de Chevuoth30 e Maskir Nechwnes31, que se realizariam nos dias 21 e 22 de maio daquele ano.

Mas o mais importante é que a partir da última reformulação dos estatutos, a composição da Associação de 1932 marca, pela própria autodenominação, a

“Ia Diretoria de Associados do Sexo Feminino Eleita e

Impossada (sic) em 22 de Março de 1932, fundada em 10 de

Outubro de 1906, é constituída por ilimitado número de associados de ambos os sexos, que professarem o aedo israelita.”32

Esta alteração, em plena década de 30, pode corresponder a duas hipóteses. Por um lado, reflexos da campanha anticaftismo ocorrida na Argentina e implementada pelo chefe de polícia, Julio Alsogaray (1933) a partir das supostas denúncias de uma polaca, Raquel Liber- man. Desmontada a rede naquele país, muitas prostitutas e seus maridos e/ou cáftens se transferem para o Brasil. A partir da chegada desses ao país, o delegado Frota Aguiar elabora uma listagem daqueles pertencentes à Sociedade argentina e procura prendê-los aqui.

Por outro,' tais mudanças nos estatutos da ABFR1, em 1932, podem refletir problemas constatados na administração anterior. Do quadro que compõe a gestão de 1925, muitas baixas ocorrem. O presidente Abisch Kinger falece em 1929, e o mesmo ocorre com o l 2 secretáriojonas Izkovitz, aos 46 anos, em 1927; o que poderia apontar

30 Festa da Colheita realizada seis semanas após o Pessach —marco da saída dos judeus do Egito.

31 Reza pelos mortos.

32 Estatuto da ABFRI de 1932. 3® Oficio de Registro de Documentos, Sociedade ■ Civil número 166, registrada em 5/5/1932.

para um contingente masculino que desaparece, o que dificultaria a formação de novas chapas de diretoria. Ou mesmo, as alterações podem vincular-se a questões financeiras da administração anterior. Nos estatutos de 1925, os mandatos deveriam ser de quatro anos. Houve, portanto, duas gestões —uma de 1925-29 e outra de 1929-33, que não foi concluída. O novo estatuto de março de 1932, contudo, preocupa-se em conter um capítulo referente às penalidades por desvio de verbas, o que talvez revele o que ocorreu. Assim,

“Art. 26 — Aos membros da diretoria são também aplicáveis as diposições dos Artigos precedentes, incorrendo, além disso, na pena de destituição dos referidos cargos.

Art. 27 —Perdem a qualidade e os direitos de associados, sendo eliminados, sem que lhes seja lícito reclamar (sejam quais forem as suas graduações ou títulos), os que no desempenho do cargo de Tesoureiro, produzam desvio de dinheiro ou valores, muito embora indenizem à Associação nos prejuízos verificados.

Parágrafo único — O associado que incorrer nas disposições do Art. 27 ficará sujeito a responder judicialmente perante a autoridade constituída ou Tribunais de Justiça pela ação de seu delito, que será imediatamente proposta por quem de direito.”

Estas penas talvez digam respeito a algum desvio ocorrido na administração anterior. Isto porque também se estabelece, a partir de 1932: a) o limite de crédito com total autonomia do tesoureiro à um milhão de réis e a impossibilidade de os sócios excluídos de reclama­ rem quaisquer c[uantias ou objetos comprados ou doados à Associa­ ção; e b) a impossibilidade de se quitar dívidas, de qualquer natureza, assumidas pela entidade mediante a venda de seu patrimônio. Ou talvez só exprimam o pequeno contingente masculino de associados, incapaz de refazer os quadros administrativos.

A nova gestão da Associação em 1932 estava assim composta:

Vicc-prcsiclemc Presidcme

Necheme Godezky Henrique Nunes Udes Rochman

Esther Grosman/Sarah Rachel Pick Blima Carszas Feige Galperin Paulina Lima Cirel Leizerovitch Frieda Posmanter I a secretária 2a secretária I a tesoureira 2a tesoureira Ia procuradora 2a procuradora

Conselho Fiscal: Neche Kascke Debora Horovitz Maria Rubinstein

Provavelmente, o número de associados nessa época devia girar em torno de noventa a cem. Na verdade, as assembléias necessitavam de um terço dos sócios presente, e este número foi demarcado na casa dos trinta sócios quites. As alterações mais significativas incluídas nesse estatuto diziam respeito ao tempo de mandato, que retomava a um ano, e à unificação da entidade. Se, desde 1914, havia uma ala masculina que compunha a Diretoria Administrativa e uma ala feminina que cuidava das atividades de caridade, isto muda a partir de 1932. Permanece, contudo, a noção de continuidade em relação às etapas anteriores. As sócias recupe­ ram o direito de serem votadas e os nomes dè Fanny Zusman e Amália Schkolnik são reafirmados com os títulos de Sócias Funda­

doras. Mantêm-se também os modelos de bandeira e os distintivos

da Associação apresentados no estatuto de 1925.

Desse modo, não se pode ter uma perspectiva de ruptura nessa

alteração dos estatutos, mas sim uma noção de retomada e conti- 33

33 No Estatuto de 1932 consta o nome de Sarah Rachel Pick como I a Secretária, já na placa de composição desta diretoria, afixada no Cemitério de Inhaúma, o riome da I a secretária é de Esther Grosman.

nuidade em relação a 1906. Caso o ambiente fosse permeado por disputas internas tão violentas que as alas feminina e masculina fossem antagônicas, dificilmente os representantes masculinos se­ riam enterrados em Inhaúma após 1932. Contudo, reafirmando a idéia de “família” que permeia a Associação, o próprio 1Q secretário da gestão de 1925, Jonas Izkovitz está enterrado nq Cemitério Israelita de Inhaúma, assim como o membro do Conselho Fiscal, Moysés Mendelevicz, que apresenta a matrícula n9 14 e aparece na listagem dos sócios até os anos 50.

O ano de 1932 foi bastante movimentado para a ABFRI, pois, além das alterações nos estatutos, morre Amália Schkolnik. Em 10 de outubro de 1941, data em que a Associação completava 35 anos, morre Fanny Zusman. Fanny e Amália são as únicas a receber o título, de “Irmã Superiora”. Uma foto, com a faixa e o título está na lápide de Amália, em Inhaúma. Uma outra foto, de Fanny, com uma faixa que diz “Benemérita Fundadora Presidente Madame Fanny Susman” (sic), enfeitou srsede social da Associação34.

34 Na lápide de Fanny Zusman no Cemitério de Inhaúma encontra-se a seguinte inscrição:

“A Irmã Superiora Fany Zusman Homenagem De Suas Irmãs E A Gratidão Da Diretoria. Presidente Angelita Chaffran”

Atrás da mesma lápide, encontra-se outro texto que diz “Em Homenagem

A Feige Zusman Das Cheses Selemes Tzivie Mendelevitz Chaie Baile Mahz Chaic Ruhul Rosenbaum

Tanto Zelda como Celina lembram da Sra. Zusman. Zelda comenta que “(..) ela estava cheia de sabedoria, sabia tudo. O pai dela era rabino”35. Já Celina conta que ela era a mulher “que dava o banho [nas noivas] um dia antes do casamento”.36

Ao homenageá-la, suas amigas usam o termo “Heiset Chell

Emes" oü “Cheses Selemes". Esta expressão foi utilizada também

para outras sócias, que formam uma irmandade, uma herança talvez dos tempos em que o papel feminino na Associação era apenas o de beneficência. A tradução dessa expressão define, certamente, o porquê de uma entidade como a ABFRÍ: “Caridade de Verdade”, aquela que não pensa no retorno de seus atos. E as “irm ãs do Heiset Chell Emes” encontradas são: Rosa ou Ruchel Bunik, Rivi ou Rebecca Freedman, Divoire ou Débora Golden- berg, Chaie Baile Maltz, Chine Markman, Civie ou Tzivie Men- delevitz, Frieda Posm anter, Chaie Reichman, Chaie Ruhul Rosenbaum, Chase Ity Sucher e Mindel Veinstein.

É im portante ressaltar que, quando homenageadas e partici­ pantes do circulo da Associação, as mulheres usam seus nomes em hebraico, isto é, aqueles que receberam quando nasceram e

Mindel Veinstein Dvoira Goldenberg Chase Ity/Sucher Diretoria Angclita Chaffran Sarah Datman Frieda Posmanter Tzivie Husit Mindel Zitenfeld Dvoira Horvitz Rivi Fridman Divoire Goldenberg Ester Civie Liebman Sarah Milehman”

35 Entrevista concedida á autora em 22/9/1993. 36 Entrevista concedida â autora em 21/9/1993.

que são aportuguesados ao imigrarem, reafirmando, mais uma vez, a ligação, manutenção e necessidade de vivência de uma identidade cultural religiosa.

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