• Nenhum resultado encontrado

3 Estudos preliminares

3.3. Estudo Preliminar 3: Estudo para determinar neutralidade prosódica da

3.3.2. Etapa 2: Validação da prosódia

4.1.2.2. Estímulos visuais: componente referencial

O paradigma do mundo visual se caracteriza por utilizarmos uma plataforma como a que se vê na figura (6), onde objetos são dispostos em quatro quadrantes. No centro, um orifício permite a colocação de uma câmera que registra a face e os olhares dos participantes. A câmera é usada para rastrear o olhar do participante. Esta técnica, apelidada de “poor man’s eyetracker” (cf. revisão em Trueswell, 2008), apresenta a mesma eficiência do tradicional equipamento de eyetracker, rastreador ocular, em que o sujeito usa um capacete que posiciona uma minicâmera em frente a um dos olhos do participante e registra movimentos da córnea. Após ser calibrado, tal equipamento capta movimentos muito finos das fixações de olhar. No caso do poor man’s eyetracker, objetos dispostos em quatro diferentes quadrantes ao redor da câmera permitem que o olhar do participante seja rastreado. A direção do olhar em direção a cada quadrante pode ser codificada a partir da gravação do rosto do sujeito. A partir de um software de edição de vídeo, o pesquisador pode medir o tempo das fixações, bem como identificar as mudanças de direção de olhares. Este trabalho manual, apesar de consumir tempo, não requer calibração e tolera consideráveis movimentos de cabeça que, com o equipamento original, pode prejudicar a codificação. Além da câmera escondida, uma segunda câmera esteve posicionada atrás dos participantes para registrar as ações que executaram sobre a plataforma.

69

Figura 6: Plataforma configurada para o teste-controle “bata na onça com o martelo”.

Ao mesmo tempo em que os participantes ouviam as sentenças-estímulo, eles eram apresentados a arranjos específicos da plataforma que configuravam 3 possíveis contextos referenciais, tal como apresenta o quadro (3). Os três contextos se diferenciam minimamente alterando apenas o quadrante que contém o Personagem-distrator, responsável por manipular a referencialidade do discurso.

Posição Contextos referenciais 1 referente (1R) 2 referentes (2R)

2 referentes com bloqueio de inferência pragmática

(2RB)

Personagem-alvo Personagem referido segurando um mini- instrumento Personagem referido segurando um mini- instrumento Personagem referido segurando um mini- instrumento Personagem- distrator

Outro personagem Personagem referido sem qualquer adereço

Personagem referido segurando um mini- instrumento distrator Instrumento-alvo Instrumento em potencial Instrumento em potencial Instrumento em potencial Instrumento- distrator

Outro instrumento Outro instrumento Outro instrumento

70

Em um turno como “grite para a girafa com o funil”, a presença de um jogador de futebol na posição de Personagem-distrator reduz a possibilidade de referentes em potencial para apenas um, enquanto que a presença de duas girafas já é condição suficiente para a atuação do Princípio do Suporte Referencial. A terceira possibilidade de arranjo, o de 2 referentes com bloqueio de inferência pragmática, foi inspirado em Meroni & Crain (2003), resenhado anteriormente. Os autores apresentaram um convincente argumento contra os resultados de Trueswell e colaboradores ao afirmar que os sujeitos podem utilizar uma estratégia de inferência pragmática durante o processamento. Podem interpretar o SP como modificador do personagem e diretamente desqualificá-lo para a execução da ação antes mesmo de ouvir o final da sentença. Em nosso caso, quando os sujeitos ouvissem a palavra

com poderiam prever que ela estaria, na verdade, modificando um sujeito e assumiriam que

a sentença, na verdade, diz respeito ao outro personagem (no que diz respeito aos contextos de dois referentes). Sendo assim, o terceiro possível contexto é aquele em que o Personagem- distrator, além de ser idêntico ou parecido com o personagem-alvo, também segura um mini- instrumento, ou seja, também pode ser restringido por um sintagma preposicionado.

Observe no quadro (4) abaixo as configurações de plataforma para o teste experimental “Cutuque a criança com a bandeira”.

Contexto 1R Contexto 2R Contexto 2RB

1 P. Distrator: tartaruga

2 P. Alvo: criança com a bandeira 3 I. Alvo: bandeira

4 I. Distrator: martelo

1 P. Distrator: criança

2 P. Alvo: criança com a bandeira 3 I. Alvo: bandeira

4 I. Distrator: martelo

1 P. Distrator: criança com a bola 2 P. Alvo: criança com a bandeira 3 I. Alvo: bandeira

4 I. Distrator: martelo

Quadro 4: Exemplo de configurações de contextos referenciais para o turno experimental "cutuque a criança com a bandeira"

71

Os testes-controle foram elaborados para ser, assim como os experimentais, estruturalmente ambíguos, mas a configuração de plataforma com a qual eram apresentados fornecia apenas uma única possibilidade de execução das tarefas25. As configurações da plataforma foram organizadas de forma a fornecer contextos de interpretação de Instrumento para metade dos testes-controle e contextos de interpretação Modificador para outra metade, procurando, assim evitar a acomodação do participante a uma estratégia de execução. Dessa forma, o contexto visual para o teste-controle do tipo Instrumento Esconda o policial com o

lenço, consistia de apenas um boneco policial, que não segurava lenço ou adereço algum, um

lenço e outros dois objetos-distratores, configuração esta que permite apenas a ação que faz uso do lenço como Instrumento de esconder o policial. Já para o teste-controle do tipo Modificador Faça carinho no Batman com o garfo, havia um boneco Batman com um garfo encaixado em uma das mãos e outros 3 objetos-distratores, permitindo apenas a interpretação de garfo como modificador de Batman.

Este experimento apresenta, portanto, nove condições em que as variáveis independentes são a categoria do verbo (Inst, Mod e Neut) e o tipo de contexto visual (1R, 2R e 2RB). As variáveis dependentes são as ações dos participantes em resposta às instruções verbais – que indicam a resolução final de ambiguidades e fornecem as medidas off-line– e o curso temporal do processamento a ser acessado via movimentação do olhar dos participantes – medida on-line.

Todos os sujeitos foram apresentados aos mesmos 15 estímulos auditivos, dos quais 2 eram sentenças habituadoras, 4 controles e 9 sentenças experimentais. Os contextos visuais foram apresentados alternadamente, tal qual um quadrado latino, de forma que cada participante esteve exposto uma única vez a cada um dos três contextos visuais para cada tipo de verbo. Formaram-se 3 listas de apresentação (A, B e C) para que, em A, o teste experimental 1, por exemplo, fosse apresentado no contexto 1R, em B, apresentado no contexto 2R e, finalmente, em C, no contexto 2RB. Metade aleatória dos participantes foi apresentada à ordem direta e outra à ordem inversa de apresentação dessas listas. Isso foi feito para neutralizar efeitos de acomodação ou cansaço nos resultados finais.

25 Ao menos, era o que se esperava. A sessão de resultados apresentará alguns dados inesperados para os testes

72