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Estabelecendo a “ponte” entre Balint e Klein

No documento Grupo Balint: o recomeço para os líderes (páginas 86-90)

3 O INSIGHT PSICOLÓGICO E A REEDUCAÇÃO DOS LÍDERES

4.4 Estabelecendo a “ponte” entre Balint e Klein

Damergian se refere à influência que têm as relações primárias para as relações da vida adulta, a partir do pensamento de Klein; propõe um caminho de transformação social a partir de um crescimento ético, afetivo, moral e espiritual. Em seguida a autora se refere aos fundamentos dessa transformação, constituídos pela “construção da subjetividade, os modelos saudáveis de identificação, o interjogo psíquico-social, a ênfase no autoconhecimento e o amor tecendo os fios que sustentam os vínculos que estabelecemos com os outros, com a vida” (Damergian, 2009, p. 118).

Tomando como fundamento a relação bebê-mãe a partir do pensamento de Melanie Klein, Damergian (2007, pp. 118-122) coloca a relevância de pensarmos o sujeito social como construção que está sustentada numa intersubjetividade primária que estabelece a

subjetividade. Projeções e introjeções levam à troca entre bebê e ambiente. Constitui-se um interjogo entre um psiquismo interno inicialmente incipiente e os objetos que passam a interagir com esse sujeito, envolvendo necessidades e desejo e levando à formação de um aparelho psíquico complexo. A partir dessa consideração, a autora sustenta que a mãe ocupa o lugar de primeiro modelo de identificação para o bebê, bem como que esse modelo

fundamenta no adulto o atendimento de necessidades e a busca pela satisfação de desejos. Quando são discutidos os textos de M. Balint sobre amor primário, falta básica, ocnofilia e filobatia, é levada em conta a importância da relação mãe-bebê. O amor primário aborda justamente a relação mãe-bebê e, a partir desse conceito, torna-se possível pensar em formas de lidar com o objeto, inclusive com o objeto substituto. Balint fala em skills

desenvolvidos a partir da relação inicial do bebê com a mãe e considera a possibilidade de duas posições extremas, a ocnofílica, de “agarramento ao objeto” e a filobatia, de

“distanciamento em relação ao objeto”, facilitado pelo investimento em objetos ocnofílicos – utensílios usados ou portados – , que permitem fazer o elo com o objeto primário distante quando se está nos “espaços vazios” que nos separam dos objetos primários.

A partir de uma nova leitura do pensamento kleiniano, Damergian propõe o conceito de ponto fixo, correspondente ao objeto bom, “a mãe amorosa, que deve se constituir em núcleo do ego, estimulando a pulsão de vida, impulsionando o crescimento do amor na personalidade do bebê”.

O pesquisador é provocado à reflexão pelos autores que discutem sobre modelos de identificação, na medida em que a mãe em nossa sociedade está impregnada dessa cultura moderna materialista, podendo não estar disponível para cumprir a função de mãe

gratificadora e demandante de gratificação, em sua completude. As posições de aproximação e distanciamento são influenciadas por essa mãe, esse ponto fixo proposto por Damergian.

Balint considera fundamental na relação mãe-bebê a condição de disponibilidade total da mãe, enfatizando que para o bebê ela deve estar garantida tal como um objeto-coisa que pode ser usado ao bel-prazer por ele. O conceito de amor primário inclui a disponibilidade total da mãe e leva em conta o pensamento de Alice Balint, para quem o bebê pertence à mãe. Dessa forma, o amor primário está referido a uma relação em que cada um dos dois, bebê e mãe, pode vivenciar gratificações mútuas com total disponibilidade, em que ambos convivem com a expectativa do outro que espera gratificações e a expectativa de ser gratificado pelo outro. As dificuldades que perturbam essa relação contribuem para formas de lidar com o objeto, em que as posições de ocnofilia e filobatia têm muito a dizer.

Em decorrência, surge a questão do “manejo” adequado entre gratificação e frustração na relação mãe-bebê. Alice Balint (1994) discute esse aspecto, a que Klein e Winnicott também dão especial atenção. O conceito de mãe suficientemente boa não pode ser

desenvolvido sem levar em consideração a idéia de frustração do bebê e, se a mãe é proposta como tendo também desejos de gratificação, pode ser encontrada uma das bases da frustração requerida para o bebê. O pensamento de Alice Balint demonstra ser compatível com a

proposta de Klein, quando esta última afirma que a) o bebê pode desenvolver a capacidade de amar a mãe e dedicar-se a ela e b) o bebê pode desenvolver o movimento de reparação em relação a ela.

A partir dessa linha de pensamento, torna-se relevante que o bebê ao qual não é oferecida a oportunidade de gratificar a mãe, terá reduzidas as possibilidades de desenvolver suficientemente a capacidade de dedicar-se ao outro. Numa sociedade que exacerba o narcisismo, as oportunidades de disponibilizar uma mãe que esteja suficientemente acessível para ser gratificada, torna-se um desafio. Pode haver o bebê que precisa ser gratificado e também gratificar e ao mesmo tempo, uma mãe que não consegue gratificar nem ser

gratificada adequadamente. Deve ser ressaltado também, que há bebês que requerem muita gratificação, para além da disponibilidade da mãe.

Realmente, “Na relação mãe-bebê temos.., o princípio de todas as trocas, de todos os vínculos, e a inserção do social e suas contradições na estruturação da subjetividade”

(Damergian, 2009, p.124).

Decorre então o debate a respeito das projeções hostis nas relações, bem como sobre a possibilidade do movimento de reparação. Esses termos de Melanie Klein abordam questões da persecutoriedade, por um lado, da empatia por outro. O rancor projetado desperta o sentimento de hostilidade perturbando o convívio social, enquanto o amor projetado desperta um sentimento em outro sentido, fundamental para o surgimento da empatia, segundo

Damergian, que ainda afirma (2009, p. 129):

Klein explica a importância da capacidade de amor e dedicação da criança para com a mãe, primeiramente, pois ela se transforma em dedicação a várias causas boas e valiosas. O prazer experimentado pelo bebê em se sentir amado e amando a mãe, é transferido, na vida adulta, não só para outras pessoas como também para o trabalho, visto como digno de valor, enriquecendo a personalidade.

Já o desejo primitivo de reparar, diz Klein, é acrescentado à capacidade de amar. Assim, nunca esgotamos plenamente o desejo de reparar e criar tudo o que pudermos pois, segundo Klein, nenhum de nós jamais está completamente isento de culpa.

Essa necessidade de reparar e de criar produz um enriquecimento a todas as formas de benefício social, assim como a capacidade de amar, a generosidade, leva algumas pessoas a arriscarem suas vidas para salvarem outras.

Porém, torna-se necessário superar a inveja e a voracidade, que constituem tendências poderosas na criança que não obteve sucesso na elaboração da fase esquizo-paranóide. Efetivamente, há predomínio do poder da voracidade no mundo moderno materialista consumista, submetido à ideologia do sucesso e da realização substitutiva de desejos a qualquer custo.

A relação objetal fundamenta as relações sociais na vida adulta e a partir desse posicionamento, podem ser encontrados argumentos para pensar as dificuldades nas relações sociais, na medida em que o adulto não teve oportunidade de aprender a gratificar sendo gratificado, não sabendo como realizar trocas afetivas e tornando-se um sujeito voltado de modo exacerbado para a própria gratificação.

Ao levar-se essa conclusão para a pesquisa sobre as relações no mundo do trabalho organizado e deparar-se com a competitividade que domina esse lugar, definindo-o como sendo o espaço por excelência da impossibilidade de trocas afetivas, pode ser compreendido o quanto o próprio modelo da competitividade está a contribuir para exacerbar a deficiência primária previamente existente no sujeito, quanto à capacidade de gratificar e ser gratificado.

Em um contexto que apresenta tal estatuto, permanece a priorização da evitação das trocas, seja porque estas perturbam a competitividade, seja porque a menção a essa possibilidade se torna impraticável por ser insustentável. O sujeito no trabalho vivencia a dificuldade em gratificar e ser gratificado de acordo com o que seria uma relação de harmonia. O adulto pode ter vivenciado certa falta no processo de ser gratificado-gratificar e em decorrência, pode ter desenvolvido formas de lidar com essa falta que não seriam adequadas ao convívio social. Neste caso os skills discutidos por M. Balint constituem a forma visível da maneira aprendida de relacionar-se.

Sendo necessárias certas trocas, estas negam o afeto, porque o ambiente não permite a sua manifestação. Entretanto, a negação do afeto abre espaço para a pulsão de morte, uma vez que essa negação separa e movimenta sentimentos destrutivos.

Referindo-se às pessoas vorazes, Damergian (2009, p. 131), sustentada no pensamento de Klein e pensando nessas pessoas quando ocupam a função de liderar, lembra que “não estimulam nem encorajam os mais jovens, porque alguns dentre eles poderiam se tornar seus sucessores. Em posição de liderança, ambiciosos e invejosos impedem e destroem qualquer possibilidade de crescimento e progresso para os demais”.

Klein recorda que a pulsão de morte se manifesta de variadas maneiras e que a

liderança é muitas vezes o seu veículo, complementando então que as atitudes antissociais do líder ou de qualquer membro do grupo aumentam, se ele desconfia que é objeto de ódio e isso afeta profundamente ao grupo (Damergian, 2009, p. 133). Jaques (1969) relata uma

experiência envolvendo dois grupos em uma fábrica, sendo um deles composto de gerentes e o outro de operários, que estabelecem um conjunto de defesas maníacas, adotadas por cada um desses grupos em um modelo de complementaridade, que vai se intensificando na medida das respostas de cada uma das partes aos ataques recebidos.

Klein discute sobre a liderança; segundo essa autora “se a inveja e a voracidade não são excessivas, mesmo uma pessoa ambiciosa encontra satisfação em ajudar os outros na realização de suas tarefas” Damergian (2009, p. 131). As idéias de Klein sobre a liderança vêm de suas observações envolvendo crianças, o que lhe propiciou verificar crianças maiores exercendo a liderança em relação às menores de forma positiva; e demonstrando satisfação com os sucessos das menores, exercendo assim também um papel benéfico de integradores nos grupos infantis. De acordo com Damergian (2009, p. 132), “A base dessa liderança é a capacidade que essas crianças possuem para estabelecer relações amistosas, cooperativas, com as demais, sem imposição, com a naturalidade que emana de sua capacidade amorosa e impede que as outras crianças se sintam inferiores diante delas”.

As crianças que lideram desse modo apresentam as características do que seriam os modelos saudáveis de identificação; isso porque estão submetidas a valores humanísticos, não competitivos, que se contrapõem à pulsão de morte. Mas, como podem se desenvolver crianças assim capazes de desempenharem a função de modelos saudáveis de identificação? Damergian (2009, pp. 133-139) discute sobre a relevância do movimento de reparação, típico da posição depressiva no desenvolvimento infantil. Esse impulso pode ser elaborado a partir da descoberta do bebê de que, ao ter odiado o seio mau que não o gratificava, também atingiu destrutivamente o seio bom que lhe trazia gratificações. Surge então a possibilidade de que uma parte da energia psíquica que se liga à ansiedade persecutória, típica da posição esquizo- paranóide, venha a se ligar à outra ansiedade, agora não mais fundada na agressividade e, pelo contrário, fundada em movimentos amorosos, típica da posição depressiva. Pode-se dizer também, a partir da elaboração dos pensamentos de Alice e Michael Balint para aproximá-los das propostas de Klein, que o bebê descobre ser a mãe um objeto único que requer

gratificações ao mesmo tempo em que gratifica; e essa descoberta o faz entrar na posição depressiva e movimenta nele a pulsão de vida mediante o impulso para reparar o mal causado. Aqui estão as bases da empatia, quando o sujeito consegue colocar-se no lugar do outro reconhecendo que fazê-lo sofrer corresponde a um sofrimento em si mesmo, pois o outro representa alguém que não se pode agredir sob pena de agredir a alguém que nos traz o bem.

Está evidente o processo de naturalização da violência na sociedade atual e em particular no trabalho organizado. Há diversos fatores que contribuem para a interiorização subjetiva dessa barbárie civilizatória; tornam-se fundamentais, o conhecimento dos aspectos que permitem reflexões a partir da ética humanista, bem como o imperativo de serem estabelecidas relações que recusem a violência. Dessa forma, chega-se a novos referenciais teóricos para fundamentar a reeducação dos líderes, mediante a aplicação de um processo de capacitação voltado para a ética humanista, capacitando-os a estabelecer o “espaço de

palavra” em suas equipes de trabalho, incluindo nesse espaço a atuação que se contraponha à barbárie.

No documento Grupo Balint: o recomeço para os líderes (páginas 86-90)