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Estabelecendo limites para a representação do sexo

3 REPRESENTAÇÕES DA DUALIDADE FEMININA: A PERDIÇÃO E A

3.4 Configurando as disposições masculinas sobre mulheres

3.4.1 Estabelecendo limites para a representação do sexo

A partir desse ponto, pode-se dedicar a compreensão dos tipos de mulheres que homens, elegem como modelos de orientação de sua conduta. Essa compreensão já está organizada por Flandrin (1986) e Áries (1986), e que retoma aqui significado central: as “mulheres da rua” e as “mulheres de casa”.

Há certo tempo, conversava com um amigo sobre algumas salas de bate-papo abertas pelo provedor UOL para públicos interessados em práticas sexuais diversas. O que nos interessava era, especificamente, um conjunto de salas para casais – ou praticantes de

swing. Animado com a possibilidade de arrumar uma transa com alguma mulher,

O problema é que ao contrário do que imaginou meses se passaram e pouco do que ele havia conseguido, era dar um beijo virtual. Frustrado, ele veio conversar comigo, sabendo de minha curiosidade pelas interações on line, e me contou como foi sua experiência. Ao fim ele desabafou: “não entendo esse povo!!! Eles são muito “caretas”! Querem estabelecer um nível alto de procedimentos ritualísticos para que as relações possam ser efetivadas, o que inviabiliza a ação sexual”. Ele terminou seu raciocínio com a seguinte questão: “Não é dionisíaco aquele espaço? Por que colocar Apolo no meio?” O que parece que esse meu amigo não entendeu é que festas a Dionísio são rituais, a final de contas ele é um deus, e como ritual existem etapas muito bem descritas para que se chegue ao objetivo último.56

De que serve esse exemplo? Ele é uma ponte que permite dizer que as práticas sexuais não estão anarquicamente distribuídas entre os indivíduos, mas reguladas por campos de possibilidade. Assim, ao contrário da ficção pornográfica em que todos os desejos são elaborados segundo modelos técnicos de maximização do prazer, produzindo uma sensação de que toda prática sexual pode ser realizada; nas relações cotidianas, não são fundamentalmente as limitações técnicas que impedem esse ou aquele repertório sexual, mas a própria distribuição da diferença sexual e, conseqüentemente, o significado que cada indivíduo possui nela. Antes de tudo, o campo das práticas sexuais é um campo relacional e não relativista.

Dentro das considerações precedentes, pode-se observar a diferença na conduta de homens e mulheres: de um lado o rompante, a pulsão e do outro o controle, a gerência

56 Os grupos de swing formam listas de anuncio de seus interesses. Na maior parte dos anúncios encontra-se primeiramente, a idéia de que é necessário o estabelecimento de uma relação de amizade que pode ou não acabar encontrando seu referencial em práticas sexuais de casais.

do cotidiano. Mais uma vez, pode-se afirmar essa distribuição desigual de cada natureza em sua relação com as práticas sexuais. A princípio, o universo masculino é marcado pela busca da satisfação de sua natureza insaciável. Já as mulheres, de natureza oposta, são mecanismos de concessão ou impedimento do sexo desenfreado. A elas cabe a possibilidade de administrar os estímulos do homem. Todavia, a concessão ou impedimento das práticas sexuais pelas mulheres não ocorrem de forma aleatória, mas pelo lugar ocupado por ela na estratificação organizada pelo homem, ou seja, “o modo como o homem classifica a parceira” diz como operacionalizar o desejo. À esposa, é dado um conjunto de possibilidades e a mulher da rua outras tantas.

Diante da imensa profusão de discursos, em imagens e textos sobre sexo presente na contemporaneidade somos levados a acreditar que a hipótese de Foucault (1998) sobre a colocação do sexo em discurso em oposição à hipótese repressiva tem de fato se consolidado. Organiza-se em alguma medida uma “vontade de saber”. A mídia aborda como regularidade o tema, nada parece lhe escapar, tudo é descrito, conformado em diagnósticos e inscritos em alguma medida na prática corriqueira. A relação com os objetos apresentados é estabelecida por critérios de antipatia e empatia, identificação ou incapacidade de significar. A questão chave é que parcela significativa da população contemporânea tem acesso, aos debates sobre sexualidade.

O que parece interessante salientar é que, de alguma forma, observa-se a organização de práticas sexuais cada vez mais segmentadas entre os grupos sociais. Cada elemento presente na sexualidade encontra conexão em escolhas dentro do mapa social de cada indivíduo. Ou seja, não é o fato de ser exposto a uma determinada mensagem que se vai

produzir uma conduta especifica, ao contrário, a mensagem sofre uma triagem, e é

empacotada em níveis diferentes a partir dos modos de vida de cada indivíduo.

O encontro das ciências sociais com o real é marcado pelos elementos culturais que orientam o mundo do sujeito, e do objeto. Nesse caso, o pesquisador se envolve em técnicas que tentam permitir a apreensão das categorias nativas. Quando o assunto é a sexualidade, homens e mulheres observam discursos diferentes, possivelmente em decorrência da organização das expectativas sociais que se tem. Nesse sentido, pode-se observar que o homem, visto como o guerreiro, o pegador e espada, precisa corresponder a essa situação afirmando uma sexualidade ativa e marcadamente aberta a todas as práticas sexuais, é o jogo do vale tudo. Para as mulheres, o que se espera é o desenvolvimento de um argumento elaborado a partir de sua passividade e da necessária conexão entre o self e o sexo.

Todavia, é necessário um duplo exercício para a compreensão dessa situação: o primeiro deles é a “imaginação sociológica”,·ou seja, a conexão de cenários imediatos a relações gerais da sociedade pesquisada e, conseqüentemente b) a compreensão das apresentações de si mesmo que cada indivíduo produz a partir do contexto em que está submetido. É por isso que, segundo Salem (2004, p. 18),

“relativiza-se a importância da tão propalada tese de que „mente-se muito ao falar de sexo‟: mais significativo do que saber se o entrevistador foi capaz de alcançar o âmago dos sujeitos, desvelando sua mais profunda intimidade, é considerar as falas e a auto- apresentação masculinas como expressão de preceitos normativos e valorativos que presidem sua identidade de gênero e sua relação com o feminino”.

Assim, um primeiro entendimento das práticas sexuais organizadas pelos homens entrevistados por Salem (2004), que se prontificam em dizer prontos para o vale-tudo sexual, é o lugar que ocupam as mulheres no funcionamento desse vale-tudo, uma vez que são observadas como reguladoras do ambiente sexual.

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