O estabelecimento da classe dos verbos de movimento com trajetória do PB se deu pela seleção dos verbos que lexicalizam movimento por uma trajetória, ou seja, que lexicalizam “ir de um ponto x para um ponto y”, independente de direção especificada ou não. Salientamos que o verbo IR não foi incluído entre os verbos de movimento com trajetória
porque foi tomado como um primitivo semântico para o estabelecimento da classe. O primitivo IR, em nossa análise, denota “movimento + deslocamento”, assim, o verbo “ir” foi considerado como elemento default para análise de outros verbos e estabelecimento da classe verbal. Todos os verbos que selecionamos implicam IR para algum lugar, critério base para checagem dos verbos de movimento com trajetória.
Além do critério morfológico que verificou a classificação verbal dos dados (se era verbo e sua terminação em infinitivo), realizamos a análise pelo critério semântico, a partir do qual verificou-se o conteúdo semântico e estrutura semântica dos verbos, focalizando o significado dicionarizado e o significado de ir. No significado dicionarizado (análise do conteúdo semântico) foi observado se o verbete apresentava o significado de deslocamento para alguma direção, incluindo paráfrases com verbos como atravessar, percorrer, passar, independente da presença do verbo ir no verbete. Se o verbo já apresentasse em sua acepção, em primeira análise, o verbo “ir” indicando deslocamento por uma trajetória, “de um ponto x para um ponto y”, o considerávamos como um item pertencente à estrutura semântica do verbo em decorrência de IR ser tomado como um elemento primitivo básico para a análise.
Desse modo, a estrutura semântica observou se o elemento trajetória era expresso no significado do verbo. O elemento trajetória denota “ir de um ponto x para um ponto y”, de um lugar para outro, o que resulta em uma mudança de localização. Na sequência, verificamos se essa trajetória era especificada lexicalmente, ou seja, se o verbo de movimento com trajetória possuía ainda o traço semântico [+direção]. Os verbos subir e atravessar ilustram essa diferença. Tanto subir quanto atravessar são verbos que lexicalizam deslocamento por uma trajetória mas se distinguem quanto a especificação da direção. Explicamos a seguir, a partir do percurso metodológico adotado para esta pesquisa.
O verbo subir é um verbo de movimento com trajetória e direção lexicalizada. Detalhando o percurso de análise, observamos que subir possui terminação de infinitivo e é um verbo, o que satisfaz nosso primeiro critério de delimitação: o morfológico. O segundo critério, o semântico, pelo qual olhamos para o significado dicionarizado do verbo, observamos que a acepção verbal denota que subir indica deslocamento por uma trajetória “ir para cima”. Já em primeira análise, consideramos, pela presença do verbo “ir”, que esse verbo é um verbo de movimento com deslocamento, e esse deslocamento é direcionado (para cima). Assim, esse verbo possui como acepção básica “ir para cima”, (cf. apêndice A - “verbos de
movimento com trajetória que lexicalizam direção” - item 333)64 e denota deslocamento por uma trajetória.
Nosso conhecimento de falante da língua portuguesa reconhece que subir sempre significa “ir para cima”. Uma sentença como “#Eu subi [para baixo]”, é inaceitável, pois tratar-se de uma sentença anômala “(#)”, devido à estrutura semântica de subir e ao conhecimento linguístico do falante, que bloqueiam esse tipo de informação, e isso se dá em razão de subir possuir direção lexicalmente marcada. Também em uma sentença como “Eu subi [para cima]”, como já discutimos na seção anterior, a realização do sintagma direcional [para cima] é desnecessária, pois essa informação encontra-se na raiz do item lexical.
Com o verbo atravessar não ocorre da mesma maneira. Ao analisarmos atravessar, temos satisfeito o critério morfológico, já que o item lexical tem terminação de infinitivo e recebe classificação de verbo. Na análise de conteúdo semântico, o significado dicionarizado indica que em atravessar há deslocamento para alguma direção, e ao contrário do verbo subir, apresenta paráfrases do verbo “ir”, e não o verbo ir propriamente. Após essa constatação, passou-se para a análise da estrutura semântica, que verificou se as paráfrases apresentavam o “significado de ir”. Atravessar tem como acepção básica o sentido de “passar para o outro lado” (Cf. Quadro 2 – item 6), e isso significa o mesmo que “ir para o outro lado”, portanto passar é equivalente ao verbo “ir” (paráfrase). Essa acepção não especifica a direção do movimento, como se pode observar ao compararmos os dois verbos aqui detalhados: “subir = ir para cima” e “atravessar = ir para o outro lado”. Em distinção, subir é sempre para cima e essa informação é determinada no item lexical, enquanto atravessar pode ser para qualquer lado, já que “passar para o outro lado” não determina para qual lado o movimento é realizado (direito ou esquerdo/ dentro ou fora etc.)
Em vista disso, atravessar, assim como subir, denota deslocamento por uma trajetória, entretanto, o deslocamento pode ser realizado em qualquer direção (para cima, para baixo, para o lado, para a esquerda, para a direita). Uma sentença como “Eu atravessei o rio” expressa que um deslocamento foi realizado por uma trajetória, como se pode ver por sua paráfrase, “Eu passei de um lado do rio para o outro lado”. Nesse caso, a trajetória é indicada, “ir um ponto x para um ponto y”, mas a direção do movimento (origem e meta) não é especificada no item lexical, apenas depreendemos que houve deslocamento.
O movimento com trajetória, como se percebe, é denotado por uma classe de verbos cuja estrutura semântica possibilita a expressão de mudança de lugar físico. Entretanto, por
64 A classe dos “verbos de movimento com trajetória que lexicalizam direção” pode ser conferida no Apêndice
nossa análise, esses verbos podem ser subdivididos em classes diferentes por apresentarem características específicas quanto à lexicalização de direção do movimento. Deste modo, formamos uma classe geral65, que é composta pela totalidade de verbos que consideramos como “verbos de movimento com trajetória” do PB. Ao total, foram classificados 432 verbos como “verbos de movimento com trajetória”. Após a divisão dos verbos, obtivemos como resultado duas classes verbais66, sendo 361 verbos compondo a classe dos “verbos de movimento com trajetória que lexicalizam direção” e 71 verbos compondo a subclasse dos “verbos de movimento com trajetória que não lexicalizam direção”, como se pode observar no quadro abaixo:
Quadro 1 – Quantitativo de verbos de movimento com trajetória
Fonte: Elaborado pela autora (2019)
O Quadro 1 ilustra a quantidade de verbos encontrados em nossa investigação. Do total de verbos catalogados, 16,45% são verbos pertencentes à subclasse dos “verbos de movimento com trajetória que não lexicalizam direção”. Para distinção e identificação dos traços semânticos lexicalizados por esse grupo de predicadores, que são: deslocamento por uma trajetória [+Trajetória] e direção inespecífica [-Direção], nos referimos à subclasse como (VMT [+Trajetória, -Direção] Verbos de Movimento com trajetória [+Trajetória, - Direção]) ou verbos do tipo de atravessar. Esses verbos são apresentados na seção a seguir. A classe dos “verbos de movimento com trajetória que lexicalizam direção”, ou verbos do tipo de subir, podem ser conferidos no Apêndice A deste trabalho, com suas acepções e exemplos.
65 A classe geral é composta por todos os verbos de movimento com trajetória, coletados a partir da análise que
verificou, item a item, os dados disponíveis no Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa (2010).
66 As duas classes verbais foram obtidas a partir da classe geral. Desse modo, os verbos que compõem a classe geral foram agrupados em: classe dos “verbos de movimento com trajetória que especificam direção” e
subclasse dos “verbos de movimento com trajetória que não especificam direção”. Verbos de movimento com
trajetória que lexicalizam direção
Verbos de movimento com trajetória que não lexicalizam
direção
361 71 16,45%
3.3 A SUBCLASSE DOS “VERBOS DE MOVIMENTO COM TRAJETÓRIA QUE NÃO