3.1 A CARÊNCIA DE MOEDA E OS PROBLEMAS DO CRÉDITO
ESTABELECIMENTOS COMERCIAIS DO SUL DE GOIÁS, 1866 1896*.
0 2,5 5 7,5 10 12,5 15 17,5 20 22,5 25 27,5 30 32,5 Mercadorias consumidas %
Tecidos, vestuário, calçados, cama, mesa e banho Ferramentas
Utensílios e mantimentos do lar Medicamentos
Bebidas Sal
Açúcar Café
Empréstimos Bélico
Arreamentos Animais
Outros
Fonte: Escrivania de Família e Sucessões do Fórum Dr. Guilherme Xavier de Almeida de Morrinhos-GO. – Notas promissórias anexas aos inventários post-mortem de 1866-1896.
Dentre os principais estabelecimentos comerciais da região sul de Goiás, do último quartel do século XIX, destacavam-se as lojas do coronel Hermenegildo Lopes de Moraes, de Francisco Soares Pinheiro e de José Luiz de Medeiros. Das 45 notas encontradas anexadas aos inventários como cobrança de dívidas, 18 eram do estabelecimento do coronel Hermenegildo, 10 de Francisco Soares Pinheiro e 6 de José Luiz de Medeiros; as 11 restantes eram de comerciantes diversos da região: um de Uberaba e outro de Morrinhos. 165
Os dados apresentados no Gráfico 3.2 mostram que os maiores gastos eram com tecidos, vestuário, roupas e artigos de cama, mesa e banho com 30%,
165 Escrivania de Família e Sucessões do Fórum Dr. Guilherme Xavier de Almeida de Morrinhos-
seguidos por empréstimos pessoais com 28,9%, sal com 5,8%, utensílios e mantimentos do lar 5,1%, animais 4,7%, café 4,3%, arreamentos 3%, medicamentos 2,5%, material bélico 2,3%, bebidas 2,1%, açúcar 1,6%, ferramentas 1,3% e outros artigos diversos 8,3%. Em uma economia predominantemente voltada para o abastecimento familiar e local, as famílias produziam quase tudo o que necessitavam e o pouco excedente era comercializado no comércio local e o gado para fora das fronteiras da Província. Desta forma, os gastos com produtos alimentícios restringiam-se apenas ao açúcar e café. Segundo Oscar Leal,
além do comércio regular desenvolvido pelos estabelecimentos das vilas, havia também, um comércio itinerante e de maior amplitude geográfica praticado por negociantes tropeiros profissionalizados e, ocasionalmente pelos comerciantes estabelecidos e pelos mascates. No final do século XIX, os sírios e libaneses, já começavam a mascatear no sul de Goiás.166
Diante da carência de moeda os lavradores agregados e lavradores proprietários de terras que tinham uma produção tipicamente voltada para o abastecimento familiar e local ficavam numa permanente situação de dependência dos grandes fazendeiros, negociantes de crédito, comerciantes de mercadorias e gado. Contraíam dívidas em dinheiro ou mercadorias nos estabelecimentos comerciais onde tinham contas permanentes e onde compravam as mercadorias de consumo diário da família como: tecidos, aviamentos, café, ferramentas, pólvora, e ainda faziam empréstimos em dinheiro.167 O arrolamento das dívidas nas lojas comerciais poderia durar décadas. Pagar e continuar devendo anos a fio era uma prática comum na vida cotidiana dos sertões do Brasil, e eram os bens que davam a
166LEAL, Oscar. Op. cit. p.157.
167 Joaquim Rosa em sua memória “Por esse Goiás afora” relembra que seu pai, que era dono de
uma loja, vendendo a fregueses do norte, mercadorias de seu estoque no fiado, embora houvesse uma advertência escrito em um pedaço de papelão “fiado só amanhã”, a vendia-se a prazo com muita freqüência e também, no dinheiro e no regime de badroca, isto é, troca de mercadorias de artigos regionais, mantimentos e produtos de artesanato. ROSA, 1974. Op. Cit. p.16.
garantia aos credores, que recebiam o restante das dívidas no ato da partilha dos bens do devedor, por ocasião de sua morte. Como o responsável por todos os negócios da família era o pai, sempre na ocasião em que este falecia, os credores reivindicavam o pagamento das dívidas no ato da divisão dos bens. Abatido às dívidas, o restante do monte-mór era dividido entre os herdeiros; quando estas suplantavam o valor do total dos bens, tinha-se que abrir mão dos recebimentos em favor dos credores, sendo, portanto, muito freqüentemente viúvas, com vários filhos ficarem na miséria, como observou Oscar Leal em Goiás na última década do século XIX,
viuvas de homens que em vida passaram por bem arranjados, ora em completa pobreza como o temos visto. Para prova podiamos transcrever aqui o annuncio que no “Publicador Goyano” fez certo padre do Bomfim, o qual declarava que por estar velho e contando mais dia menos dia baixar á sepultura, desejava fazer publico que nada devia a pessoa alguma até aquella data; podendo aliás quem por ventura se julgasse seu credor, apresentar-se n'um prazo estabelecido, para que depois de sua morte não succedesse o mesmo que a outros tem succedido. Em Luziania conheci mais uma viuva carregada de filhos, mulher de muito boa fé e inexperiente, cujo marido negociava a credito e que teve o desgosto depois da morte d'elle de ver até a sua machina de costura, a sua thesoura e os seus proprios arreios de montar, irem á praça para pagamento aos credores do finado.168
Estudando os inventários post-mortem do sul de Goiás, não foi raro encontrar viúvas que após a morte do marido ficaram em situação difícil e que no ato da partilha tiveram que abrir mão de sua parte e dos filhos menores, em benefício dos credores que dividiam entre si os bens da família do inventariado. Um exemplo é o de Anna Francisca dos Reis, viúva de Francisco Alves da Costa que ao falecer em 1887, deixou-a com 12 filhos, sendo seis menores de 15 anos e uma dívida passiva que consumia 42% dos bens do casal.169 Outro exemplo é o de Maria Carolina de Jesus, viúva de Manoel Bento Machado, que falecido em 1900, deixou-a com 10
168 LEAL, 1980, p. 141
169 Escrivania de Famílias de Sucessões do Fórum Dr. Guilherme Xavier de Almeida de Morrinhos.
filhos, sendo sete menores de 15 anos e uma dívida passiva que consumia 48% dos bens inventariados.170. Estes são apenas dois casos, em meio a dezenas de outros que fazem parte de uma amostragem de 536 inventários post-mortem distribuídos pela atual região sul de Goiás de indivíduos que viveram na segunda metade do século XIX, do qual, foi selecionada uma amostra de 44 cuja dívida passiva superava mais de 40% do monte-mór inventariado. Destes, mais de 70% eram viúvas que perderam o marido e os bens.
GRÁFICO 3.3 - ESTRUTURA E COMPOSIÇAO DA