3 A ANÁLISE DO CONTEXTO E HISTÓRICO GEOGRÁFICO DA PRODUÇÃO
4.1 ESTRUTURAÇÃO DO ESPAÇO INTRAURBANO: EM BUSCA DO CENTRO
4.1.1 Estabelecimentos de consumo produtivo
4.1.1.2 Estabelecimentos produtivos de fluxos
Dentre os estabelecimentos produtivos de fluxos temos uma distinção entre seus segmentos que podem ser divididos em quatro grupos: os que comercializam a produção agrícola (escritórios de fazenda, corretores agrícolas e tradings); os que financiam a produção ou disponibilizam vantagens com o intuito de ampliar a produção (instituições financeiras públicas e privadas, órgãos governamentais); os que promovem assistência jurídica, administrativa e financeira (escritórios de advocacia, contabilidade e administração); e por último, os que escoam a produção (transportadoras).
Entre esses quatro segmentos, destacamos os que comercializam a produção agrícola (escritórios de fazenda, corretores agrícolas e tradings), pois dentre os estabelecimentos produtivos de fluxos são os que atuam exclusivamente com o agronegócio. Segundo Frederico (2011), LEM foi a segunda cidade do agronegócio do Brasil em valor de exportação de grãos em 2007, com um valor de US$ 200 milhões. Vale ressaltar que deste total a empresa Bunge Alimentos S/A foi responsável pela exportação de US$ 100 milhões, ou seja, 50% do valor total.
A primeira análise a ser feita sobre os estabelecimentos de consumo produtivo de fluxos refere-se a comparação entre as figuras 03 e 04, uma vez que mostram, respectivamente, as localizações dos estabelecimentos de consumo produtivo para a agricultura e as localizações dos escritórios de fazenda e corretores agrícolas. Embora os dois tenham suas funções destinadas ao campo, podemos perceber que os estabelecimentos produtivos para a agricultura possuem uma localização dispersa às margens das rodovias (como já foi dito). Enquanto que, os escritórios de fazenda e corretores agrícolas, ainda que com uma ligação intensa com o campo, possui uma localização mais concentrada numa área central da cidade. A explicação está na necessidade de que estes estabelecimentos estejam localizados próximos a possíveis compradores e financiadores da produção.
A análise sobre os estabelecimentos de consumo de fluxos exige mais atenção, pois existe correlação direta entre eles. Os escritórios de fazenda devem está próximos aos financeiros e instituições públicas uma vez que são os estabelecimentos de consumo que financiam a produção (Figura 05). Os corretores
agrícolas e os tradings precisam ficar próximos aos escritórios de fazenda e dos estabelecimentos financeiros para comercializar a produção; enquanto os de advocacia, de contabilidade e de administração (Figura 06) têm os escritórios de fazenda e corretores agrícolas como seus clientes em potencial. Esta interdependência gera uma concentração desses estabelecimentos em uma única zona da cidade, como pode-se ver nas figuras 04, 05, 06.
Os últimos estabelecimentos de consumo produtivo de fluxos analisados foram as transportadoras de cargas (Figura 07). Esses precisam ficar próximos às rodovias aonde teriam acesso à carga transportada, armazéns e o próprio campo. Ao mesmo tempo que, necessitavam se situar próximos aos escritórios de fazendas, corretores agrícolas e tradings com quem comercializam o transporte das cargas. Portanto, podemos perceber que suas localizações também se concentram na zona onde estão os demais estabelecimentos de consumo produtivo de fluxos. No entanto, encontram-se mais próximos às rodovias. Outro fator interessante é que a maioria dos escritórios das transportadoras ficam próximos a postos de gasolina, locais onde abastecem e estacionam seus caminhões quando não estão a serviço.
Figura 04
Localização dos estabelecimentos de consumo produtivo de fluxos: escritórios de fazenda, corretores agrícolas e tradings
Figura 05
Localização das Instituições financeiras públicas e privadas e órgãos e repartições públicas
Figura 06
Figura 07
4.1.2 Estabelecimentos de consumo consumptivo
Também dividimos os estabelecimentos de consumo consumptivo em dois grupos:
1. Os estabelecimentos de consumo básico, que são aqueles que disponibilizam produtos e serviços que podem ser realizados por qualquer classe social: supermercados, padarias, quitandas, farmácias, bares, lanchonetes, lan
houses, oficinas, concessionárias de motocicletas, lojas de confecções, de
calçados, de materiais esportivos, de móveis e eletrodomésticos, salões de beleza, lojas de cosméticos, óticas, igrejas, instituições de ensino e saúde públicos entre outros (Figura 08).
2. Os estabelecimentos de consumo não-básico, que são aqueles praticados prioritariamente pela classe média alta e alto padrão: clínicas e consultórios médicos e odontológicos particulares, instituições de ensino particulares, faculdades, cursos de língua estrangeira, clínicas de estética e massoterapias, concessionárias de automóveis, clínicas veterinárias para animal de pequeno porte e pet shoppings, clubes recreativos, restaurantes, escolas de dança e de balé, lojas de móveis planejados, ateliê de obras de artes, empresas especializadas em segurança, lojas de ar condicionado, academias entre outros (Figura 09).
Comparando as duas figuras, que representam a localização dos estabelecimentos de consumo consumptivo, podemos perceber que os não-básico são mais concentrados no espaço intraurbano do que os básico, acompanhando inclusive a localização dos estabelecimentos de consumo produtivo de fluxos, principalmente os escritórios de fazenda e corretoras agrícolas (Figura 04). Sua localização concentra-se na área central da cidade: no bairro Mimoso Central e no bairro Jardim Paraíso (às margens da BR-242).
Os estabelecimentos de consumo consumptivo básico possuem uma localização mais dispersa pelo espaço intraurbano de LEM, inclusive com o número considerável de estabelecimentos em áreas periféricas. No entanto, dois aspectos precisam ser ressaltados, o primeiro, é que mesmo organizados de maneira
dispersa, sua maioria se concentra na área central da cidade, em contrapartida o bairro Jardim Paraíso (Figura 31) é o único que quase não possui estabelecimentos deste tipo.
O segundo aspecto é que mesmo com essa localização dispersa de estabelecimentos de consumo básico pelas zonas periféricas, podemos perceber que quanto mais os estabelecimentos se afastam do centro mais diminui a sua variedade. No centro temos todos os tipos de estabelecimentos de consumo básico, nas áreas mais periféricas esses limitam-se aos de gêneros alimentícios (mercados e padarias), salões de beleza e bares.
Figura 08
Figura 09
Ainda nessa perspectiva de análise, quanto a localização dos estabelecimentos de consumo consumptivo, vale destacar onde estão situados os estabelecimentos de consumo consumptivo de serviços essenciais: saúde, educação e segurança. Com relação a estes serviços, como se pode analisar na figura 10, os estabelecimentos de saúde são mais concentrados que os de educação e segurança, principalmente aqueles que prestam serviços particulares, como clínicas, consultórios médicos e odontológicos e laboratórios de análises clínicas. As escolas são mais dispersas no espaço intraurbano, inclusive, sua maioria se concentra fora da zona central da cidade. No entanto, as duas maiores escolas particulares se localizam uma na área central (Escola Monteiro Lobato) e outra no bairro Jardim Paraíso (Centro Educacional do Mimoso do Oeste).
Na cidade localizam-se duas faculdades particulares: a Faculdade Arnaldo Horácio Ferreira (FAHAF), presencial, e a Universidade do Oeste do Paraná (UNOPAR), de educação a distância (EaD). Esta última possui dois pontos na cidade, um no centro e outro no bairro Jardim Paraíso. A primeira está situada na zona periférica, ao norte. A localização justifica-se pela necessidade de uma área com grande extensão territorial.
São três os estabelecimentos de segurança pública encontrados em LEM. A Companhia Independente de Ações do Cerrado (CIAC) da Polícia Militar e duas delegacias da Polícia Civil. É importante perceber a localização destes estabelecimentos. Tem um posto da Polícia Civil no bairro Mimoso Central (centro principal), a CIAC e a delegacia da polícia civil no bairro Santa Cruz. Este último é considerado pela própria população como o bairro mais violento da cidade. Em pesquisa de campo com 23 famílias, perguntamos aos moradores dos bairros Mimoso Central e do Jardim Paraíso em qual lugar da cidade eles não morariam e o por que: 78,26% responderam que não morariam no Jardim Paraíso, o motivo foi o mesmo em todas as respostas, a violência.
Figura 10
O último tipo de consumo consumptivo que foi analisado refere-se ao setor imobiliário (Figura 11). Os estabelecimentos que compõem este segmento são: as incorporadoras e construtoras, as imobiliárias e corretores de imóveis, os escritórios de engenharia e arquitetura e as casas de material de construção. Destes estabelecimentos podemos classificar as casas de materiais de construção como sendo os estabelecimentos de serviço mais básico, por isso sua localização apresenta-se de maneira mais dispersa no espaço intraurbano. Os escritórios de engenharia e arquitetura possuem a mesma lógica dos escritórios de outros profissionais liberais (escritórios de advocacia, de contabilidade e de administração - Figura 06) e de consultórios médicos e odontológicos particulares (Figura 10), todos se concentram no centro da cidade.
As imobiliárias também se concentram no centro da cidade, pois a pretensão é estarem próximas às instituições financeiras e aos locais de trabalho das classes sociais mais elevadas, seus clientes em potencial. No entanto, a lógica organizacional das incorporadoras e construtoras é diferente. Elas se localizam, principalmente, próximas aos empreendimentos pelas quais estão investindo. Como é o caso da Imobiliária Aracruz que se situa no Loteamento Florais Lea que é de sua responsabilidade; o mesmo podemos observar com a Loteadora Donna Carmela que possui dois estabelecimentos, o Loteamento Cidade Universitária e o Loteamento Setor M3; e também a Construtora ACNT que está próximo ao Loteamento Tropical Ville. Vale ressaltar que as duas últimas empresas não são da cidade, a primeira possui sua sede no Paraná e a segunda em Brasília.
Figura 11
Como observamos existe uma concentração espacial de quase todos os estabelecimentos de consumo tanto produtivo quanto consumptivo, na Zona Mimoso Central, no centro da cidade. Em contrapartida, também observamos que nas áreas periféricas os tipos de estabelecimentos limitam-se ao consumo consumptivo básico. Considerando que esses estabelecimentos são os locais de trabalho e de consumo da população, neste momento parece evidente que o centro principal da cidade exerce o papel de sítio social, o que nos leva a acreditar na reprodução do padrão centro x periferia na pequena cidade do agronegócio de LEM.
A confirmação fica mais forte quando observamos a figura 12 que ilustra a localização dos empreendimentos imobiliários na cidade. A imensa maioria dos condomínios horizontais e verticais acompanha a concentração dos estabelecimentos de consumo, demonstrando que a concentração espacial desses no centro da cidade é tão intensa que tem promovido uma verticalização considerável nesta zona, reforçando sua caracterização enquanto sítio social.
Talvez se nossa análise fosse numa metrópole, a constituição de um centro principal com esta morfologia pudesse ser suficiente para produzir a segregação com o padrão centro x periferia, uma vez que a acessibilidade ao centro através da otimização do tempo de deslocamento seria vital para os moradores destas cidades. No entanto, estamos analisando uma cidade pequena e por isso, este fator, talvez não seja tão preponderante. Sendo assim, na próxima seção vamos tentar localizar as classes sociais por faixa de renda e depois correlacionar com a localização dos estabelecimentos de consumo.
Figura 12