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Estabilidade, variabilidade e dinamismo entre vozes

CAPÍTULO 2: O SELF EM MOVIMENTO

2. Auto-organização e mudança no Self Dialógico

2.1. Estabilidade, variabilidade e dinamismo entre vozes

Somente um número reduzido de autores tem reflectido sobre os processos dinâmicos de auto-regulação e auto-organização no self dialógico (e.g. Hermans & Kempen, 1993; Josephs, 2000; Valsiner, 2002b). Tal como foi dito anteriormente, Valsiner – uma das vozes críticas dentro desta área de estudos, considera que, mais do que enfatizar o tipo de elementos constituintes do self dialógico (as diferentes posições do Eu), uma abordagem desenvolvimental sobre o self dialógico terá que focar as relações dinâmicas estabelecidas entre as posições (cf. Valsiner, 2002b, 2004c). Neste sentido, ainda que exista uma multiplicidade microgenética, esta será organizada em formas recorrentes – que constituirão padrões de auto-organização – através do poder constritor dos processos de mediação semiótica.

Comecemos por rever os contributos de Hermans e Kempen (1993) que, nos seus trabalhos pioneiros nesta abordagem, também já reconheciam a relação intrínseca entre dinamismo e estabilidade no self dialógico. Assim, no seu livro The Dialogical Self (1993) referem que a socialização da criança poderá constranger ou potenciar o poder de algumas posições do Eu, expressando vozes que se tornam de tal forma dominantes que criam regularidades no self dialógico. De acordo com Hermans (2001a), para compreendermos melhor o que se passa no diálogo, temos de ter em conta que as culturas e os indivíduos não são entidades estanques, mas sim em relação. Desta forma, determinados discursos sociais e culturais podem ser internalizados e tornarem-se posições do Eu ou vozes poderosas, que produzem uma desvalorização de vozes mais fracas. Assim, o diálogo é muitas vezes assimétrico, evidenciando relações diferenciais de poder – por exemplo, a voz de um grupo pode dominar vozes individuais (Hermans & Kempen, 1993). Algumas vozes específicas poderão ser apoiadas, desvalorizadas, ou até rejeitadas e excluídas do diálogo por outras vozes dominantes.

A manutenção temporal de assimetrias de poder entre vozes poderá criar uma estabilidade superficial do self dialógico conseguida por processos de monologização de vozes subjugadas. Considere-se monologização, aqui, como um conjunto de processos que envolvem a supressão da alteridade no espaço dialógico. Não passa, assim, a existir uma ausência real de dialogicalidade no self pois a existência humana será sempre de base dialógica. No entanto, na consequência de processos de monologização, essa dialogicalidade poderá ser (aparentemente) diminuída ou suprimida, obtendo-se aquilo que Valsiner (2004b) denomina de dialogicalidade escondida.

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Salientam-se, como exemplos de processos de monologização de intensidades diferentes: a) a menor elaboração ou expressão de vozes dominadas; b) a rejeição de vozes relevadas ao silêncio; ou, c) a supressão/exclusão total de determinadas vozes do espaço dialógico. De facto, o poder de um determinado discurso pode ser tão nítido, que a voz do agente comunicacional pode ser confundida com uma voz cultural ou socialmente autoritária num processo de ventriloquismo de um discurso internamente persuasivo (Bakhtin, 1981).

Segundo Hermans (2001b), os diálogos específicos situados num microcontexto não podem ser dissociados da história do indivíduo (das experiências pessoais e de socialização prévias), da história conjunta dos intervenientes (se a têm ou não), das representações que medeiam a sua relação com o outro (o Outro-em-Mim como distinto do Outro real) e dos macrocontextos que envolvem a situação dialógica específica, pois todos estes factores poderão traduzir-se em assimetrias entre vozes. De acordo com Hermans e Kempen (1993):

“As relações de domínio não estão presentes somente no mundo externo mas, pelas intensas trocas entre os dois, organizam o mundo interno. Isto implica que o possível leque de posições imaginárias torna-se não só organizado mas também restrito pelo processo de institucionalização (e.g. na família, escola, igreja, serviço militar, vida comunitária).” (p. 78)

Outro exemplo particularmente interessante ilustrativo de um outro tipo de relação de poder entre vozes, mencionado por Hermans e Hermans-Jansen (2004), é o caso das coligações de poder entre posições do Eu (coalition of positions). Neste caso, o poder de monologização sobre outras vozes dentro do self dialógico resulta não do poder de uma voz, mas do poder conseguido pela relação entre duas (ou mais) vozes, que se alimentam reciprocamente e monologizam outras vozes diferentes (Hermans & Hermans-Jansen, 2004). Este efeito poderá ser perverso ou desadaptativo para o self dialógico, se as vozes dominantes coarctarem os contributos benéficos de outras vozes divergentes, mas poderá surtir efeitos positivos, se representarem uma integração de vozes que anteriormente apareciam dissociadas e excluídas. A literatura demonstra-nos algumas vantagens da construção de uma coligação entre vozes num caso de reorganização pessoal depois de um processo terapêutico bem sucedido (cf. Hermans & Hermans-Jansen, 2004).

Um outro processo referido por Hermans como desencadeador de inovação no

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dinâmico de reorganização do self (que pode ser facilitado em psicoterapia). Definindo este conceito, salienta:

“a expressão de uma meta-posição, uma perspectiva a partir da qual o cliente formula as ligações entre várias posições significativas numa forma auto-reflexiva. Alguns investigadores propuseram a noção de uma meta-posição ou posição observadora como uma contribuição bem- vinda para a teoria do self dialógico” (Hermans & Hermans-Jansen, 2004, p. 133)

Tal como referido, uma meta-posição diz respeito a um posicionamento assumido pelo Eu, a partir do qual se toma a si próprio como objecto de reflexão, na tentativa de criar sentido do seu movimento passado de posicionamento e reposicionamento, particularmente na inferência de regularidades ao longo do tempo. Neste sentido, esta (meta)posição resulta de um posicionamento específico do Eu no Aqui e no Agora, construindo significado sobre si. Por isso, na nossa interpretação, não se deverá confundir com uma espécie de homúnculo ou «olho interno» que permanentemente se auto-observa. Ou seja, a capacidade auto-reflexiva desta posição será, a nosso ver, melhor entendida como uma questão de organização semiótica do indivíduo perante a sugestão de uma tarefa de auto-análise por parte de outrem (ou do próprio) num diálogo interno ou externo.

Além dos processos anteriores, Hermans e Kempen (1993) apresentam também o processo de inversão do domínio (dominance reversal) referindo-se à possibilidade de uma posição do Eu, inicialmente dominada, poder momentaneamente fazer-se “ouvir” e tomar o palco dialógico, introduzindo novidade e diferença.

Uma outra autora particularmente interessada no dinamismo das relações entre vozes, particularmente a um nível microgenético de construção de significados, é Josephs (2000). Esta autora considera que a construção de significados expressos por uma voz traduzem uma emergência de sentido (e de organização), sócio-culturalmente guiada, a partir de um estado ambíguo. Esta estruturação emergente, que nos permite ultrapassar a ambiguidade experiencial, é conseguida através de signos (i.e. processos de mediação semiótica no seu sentido mais lato). Josephs, Valsiner e Surgan (1999) consideram que sempre que alguém atribui algum significado à sua experiência, uma série de outros significados potenciais emergem simultaneamente, organizando um campo semiótico (que contrasta com o significado numa relação figura-fundo). Este campo semiótico é contrastado com o universo de tudo o resto. Assim, juntamente com

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o significado {A} (por exemplo, triste) emerge um campo semiótico de significados possíveis {não–A} (por exemplo, melancólico, zangado, aborrecido, alegre) que, pelo seu contraste com o significado escolhido, contribuem também para a definição mais clara de {A}. Simultaneamente, para o conjunto formado pelo significado e respectivo campo semiótico, o par {A} – {não–A}, temos também um universo contrastante, referido como {Anti–A} (do qual fazem parte todos os significados que não têm nenhuma relação com o significado referido ou o seu campo semiótico; numa continuação do exemplo acima, o nome dos países europeus,).

De acordo com Josephs (2000; cf. também Josephs, Valsiner & Surgan, 1999), em termos de processos dinâmicos que resultam numa transformação qualitativa dos significados, podemos salientar dois tipos: o crescimento do significado de A, pela sua diferenciação semiótica (por exemplo, perante o significado triste, a pessoa poderá dizer: Lembro-me de uma vez em que era criança… e começar a elaborar uma narrativa em torno da tristeza; ou então dizer: Bem, não é somente triste o que eu sinto, é uma tristeza que, ao mesmo tempo é reconfortante…); ou, então, a elaboração construtiva que opera sobre o campo semiótico não–A, produzindo uma maior definição deste (por exemplo, perante o significado triste, a pessoa pode dizer: Sinto-me triste, não é melancólica… Melancolia foi o que senti uma vez quando era mais jovem…).

Por seu turno, a noção de estratégias de circundação ou bypass semiótico (circumvention strategies – cf. Josephs, 2000; Josephs, Valsiner & Surgan, 1999) envolve uma regulação dos significados que entretanto se diferenciaram num retorno à posição de origem, através de um distanciamento do sujeito do significado em questão. Estas estratégias estão frequentemente envolvidas em tensões (internas ou vividas no plano inter/intrapessoal), geralmente evidenciadas por frases que contêm conjunções adversativas (como mas, porém, no entanto). Este tipo de estratégias evidencia o constrangimento que determinados signos, significados ou vozes poderão exercer nas diferentes posições do Eu (por exemplo, Eu gostaria de ir dormir mas não posso ir enquanto não terminar esta explicação). Consideramos que este tipo de conjunções adversativas evidencia, em termos psicológicos, um movimento de reposicionamento de uma posição para outra posição do Eu distinta numa mesma elocução. A forma como a pessoa lida com estas tensões poderá conduzir à manutenção da estabilidade ou à emergência de mudança; assim, estas situações poderão indiciar momentos de instabilidade no self particularmente vulneráveis à mudança. Estas estratégias apresentam-se, portanto, como particularmente ricas e de análise complexa.

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Seguindo uma lógica de apresentação progressiva dos processos dinâmicos do self dialógico, que estão envolvidos na sua variabilidade e estabilidade, concluímos com a apresentação do trabalho de Valsiner, que tem sido o mais sistematizado e complexo neste campo.

Tal como temos vindo a argumentar, a criação de sentido sobre a experiência pode ser regulada de forma poderosa através de signos ou símbolos sociais ou culturais abstractos e de generalização elevada que têm impacto na mediação semiótica momento a momento (Valsiner, 1999). Segundo Valsiner (2004b), os seres humanos estão constantemente orientados para o futuro, a tentar lidar com a ambiguidade do momento seguinte (trazida pela novidade experiencial), construindo familiaridade e continuidade. Por isso, em preparação desta ambiguidade futura, as pessoas organizam-se criando familiaridade de forma antecipada, preparando-se para o futuro através de um leque semiótico de significados prováveis (e previsíveis tendo em conta o passado e o presente). Desta forma, estes campos semióticos prováveis funcionam como signos promotores (promotor signs) que, na maior parte das vezes, constrangem a novidade numa assimilação desta em estruturas familiares prévias (i. e. processo de assimilação; cf. Valsiner, 2004b). De acordo com Valsiner (2004a, 2006b), vivemos a maior parte do tempo num mundo ficcional, num mundo como–se (as-if) que acaba por se tornar como–é (as-is), influenciado pelas nossas expectativas e construções passadas.

Numa elaboração sobre a auto-regulação de vozes no self dialógico, Valsiner (2002a) refere que a síntese de novas posições do Eu (i.e. reorganização e emergência de novas estruturas) é um fenómeno raro quando comparado com a ocorrência de relações dialógicas que mantêm a estabilidade. As diferentes formas de relações dialógicas entre vozes podem ser divididas em dois tipos distintos: por um lado, podemos ter formas de estabilidade dialógica (ver figura 4); por outro, podemos ter formas que criam uma instabilidade dialógica (ver figura 5).

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Figura 4: Tipos de relações implicadas na estabilidade dialógica

Fonte: Valsiner (2002a, p. 257)

A ) Equilíbrio de alimentação mútua de vozes

(mutual in-feeding balance)

Voz X: “A vida é boa”

Voz Y: “A vida é má”

B) Polifonização que resulta em proliferação de vozes (polyphonization resulting in

proliferation)

Voz X: “A vida é boa” Voz Y: “A vida é má”

Voz x1: “A vida é agradável” Voz y1: “A vida é perigosa” Voz x2: “A vida é interessante”

Voz x3: “A vida é depressiva”

Por um lado, temos dois processos de manutenção da estabilidade dialógica: A) Um equilíbrio de alimentação mútua de vozes (mutual in-feeding balance): em que se conquista uma estabilidade dinâmica e oscilatória entre duas (ou mais) vozes numa relação de dependência;

B) Um processo de polifonização que resulta em proliferação de vozes (polyphonization resulting in proliferation): aqui existe uma diferenciação dos significados veiculados pelas vozes mas, no entanto, o tipo de relação que as vozes mantêm permanece qualitativamente idêntica.

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Figura 5: Tipos de relações implicadas na instabilidade dialógica

Fonte: Valsiner (2002a, p. 257-258)

C) Escalada mútua de vozes (mutually escalating)

Voz x1: “A vida é positiva” Vox y1: “A vida é negativa”

Voz x2: “A vida é boa” Voz y2: “A vida é má”

Voz x3: “A vida é excelente!” Voz y3: “A vida é horrível!”

D) Dissociação de vozes – neutralização por separação

(de-coupling – neutralizing by

separation)

Voz X: “A vida é boa” Voz Y: “A vida é má”

Voz X: “A vida é boa e nada mais!” Voz Y: “A vida é má e nada mais!”

E) Domínio sobre uma outra voz (dominating the other)

Voz X: “A vida é boa” Voz Y: “A vida é má”

VOZ X: “A vida é booooooa!!!!.... Não há nada de mau (vestígios de Y).”

F) Expropriação de uma voz (expropriating the other)

Voz X: “A vida é boa” Voz Y: “A vida é má”

Voz Y: “A vida é má” [=MONOLOGIZAÇÃO]

G) Ventriloquismo de uma voz (ventriloquation)

Voz X: “A vida é boa” Voz Y: “A vida é má”

Voz X(Y): “A vida é má em geral, mas em muitas coisas é boa”

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Por outro lado, temos quatro formas de aumento da instabilidade dialógica: C) Escalada mútua de vozes (mutually escalating): estas expandem-se em termos semióticos mas mantêm o mesmo tipo de relação estrutural ou funcional entre as vozes iniciais (por exemplo, oposição);

D) Dissociação de vozes – neutralização por separação (de-coupling – neutralizing by separation): neste caso, existe uma dissolução de uma relação prévia entre as vozes iniciais (o que traduz uma modificação da estrutura da relação entre elas), passando estas a fazer-se ouvir de forma independente uma da outra. Este processo assemelha-se àquilo que Lyzaker e Lysaker (2004) denominam de cacofonia e é particularmente frequente em situações de esquizofrenia (expressão de vozes de forma dissociada e desestruturada);

E) Domínio sobre uma outra voz: aqui a relação de uma voz sobre a outra torna- se diferente, pelo aparecimento de um diferencial de poder entre elas;

F) Expropriação de uma voz: traduz uma relação de domínio extrema de uma voz sobre a outra, suprimindo a expressão da dominada no espaço dialógico;

G) Ventriloquismo de uma voz: envolve uma relação parasitária de uma voz sobre a outra; ou seja, uma voz usa uma outra posição do Eu para se expressar.

Como podemos verificar, estas distinções englobam alguns dos processos mencionados anteriormente pelos outros autores (cf. Hermans e também Bakhtin). No entanto, por muito diversificado que o self possa ser, Valsiner (2002a) propõe-nos que a eventual hiper-abundância de significados veiculados pelas diferentes vozes tende a alimentar uma tipologia de relações relativamente reduzida.

Os processos acima mencionados serão, provavelmente, boas pistas para a compreensão dos processos de estabilidade pessoal. Contudo, poderão também estar envolvidos na emergência de diferença que, ocorrendo em momentos críticos, poderá criar «a diferença que faz a diferença» (Bateson, 1979) e proporcionar a mudança.