Os projetos de PSA-Água no Brasil são uma realidade em expansão. Neste trabalho, foram le- vantadas 40 iniciativas e projetos em diferentes situações de implementação e arranjos institucio- nais. Este levantamento estimou um número total de 848 prestadores de serviços ambientais já rece- bendo valores que variam entre R$ 10 ha/ano (min. - Produtores de Água e Florestas, RJ) a R$ 577/ha/ mês (máx.-Joinville, SC) ou envolvidos em projetos em desenvolvimento. A área ocupada pelos proje- tos em curso ou em vias de serem implementados
3 O número apresentado acima representa uma estimativa dos beneficiários dos cursos d’água onde se encontram as iniciativas/projetos. Em alguns casos foram usados estimativas dos habitantes das bacias e microbacias referindo-se à população da cidade mais próxima ou da microbacia em questão, e em outras casos, medidas mais indiretas para referirmos aos cursos d´água mais distantes e que, em grande parte dos casos, deságuam nos sistemas de abastecimento de grande importância como o Sistema Cantareira.
lores de R$ 200 mil a R$ 2,5 milhões por ano. Estes montantes, na maior parte das vezes, não refletem somente os custos associados aos pagamentos aos produtores rurais, mas também os das ações de res- tauração e conservação; entretanto, muitas vezes, não consideram os altos custos de transação para o estabelecimento dos projetos, decorrentes da ne- cessidade da consolidação das parcerias e também do caráter ainda pioneiro das iniciativas.
Os pagamentos, embora em alguns casos pare- çam ter valores baixos, mudam a percepção sobre a importância das florestas e, mesmo que em alguns casos percebidos como simbólicos, são importan- tes para a promoção de atitudes de conservação ambiental e para o sentimento de valorização do produtor rural como um beneficiário para a socie- dade. A simplificação do repasse de recursos atra- vés dos marcos legais é também de extrema impor- tância, bem como a simplificação de tais processos a fim de se evitar custos desnecessários. Ainda so- bre os pagamentos, estes são mais explícitos quan- do atrelados à área trabalhada, pois estabelece de forma mais clara a relação entre a perda da área produtiva e o pagamento pelo serviço ambiental.
Também é importante lembrar que o produ- tor rural, em geral, nos projetos aqui descritos, não recebe apenas os pagamentos strictu sensu. Ele também recebe um pacote de outros benefícios, no qual geralmente estão inclusos os insumos para a restauração e conservação florestal (cercas, mudas, adubos etc); na maior parte dos casos também o trabalho associado a estas ações (equipes de traba- lho pagas pelo projeto); e em alguns casos, outros benefícios, como a conservação de solos, sistemas de saneamento rural, conservação de estradas etc. Ao produtor, em vários casos, cabe “abrir a portei- ra” para o projeto, e a partir daí, construir uma re- lação de acompanhamento junto aos proponentes/ executores do mesmo.
Cantareira, e as represas Billings e Guarapirangua, em São Paulo; o Sistema Guandu, no Rio de Janei- ro, e mananciais de abastecimento de capitais como Brasília, Vitória, Palmas e Campo Grande. Outras estão em regiões estrategicamente importantes para a conservação de corredores naturais, o que possibilita agregar mais valor para tais iniciativas/ projetos, pois se multiplicam os serviços oferecidos pela manutenção de um determinado remanescen- te florestal – água, conservação dos solos, carbono, manutenção de fluxos gênicos e habitats.
Além das iniciativas e projetos no campo, outro ponto que merece destaque é o desenvolvimento de políticas públicas municipais, estaduais e fede- rais, que poderão dar a este processo um grande impulso de replicação. É importante notar que a maior parte dos projetos aqui relatados é piloto, que, ou serviram de base para a formulação destas políticas, como é o caso do estado de São Paulo ou Rio de Janeiro, ou inauguram as mesmas, como é o caso do Espírito Santo.
De maneira geral, as iniciativas envolvem di- versas instituições e aparentemente não existe um número ideal de instituições, que geralmente está positivamente correlacionado com os custos de transação da iniciativa, muitas vezes subestimados.
As principais fontes de recursos para os PSA são os orçamentos públicos, assim como dos Comi- tês de Bacia, através da cobrança pelo uso da água. Há poucos arranjos que envolvem a iniciativa pri- vada. Tais iniciativas/projetos têm sido, em maior parte, lideradas pelas prefeituras municipais; em alguns casos, pelas empresas municipais de água, podendo ser observada também uma forte parti- cipação dos órgãos estaduais de meio ambiente e/ ou recursos hídricos, ONGs e da ANA, através dos Programa Produtor de Água, principal referência para as iniciativas em curso.
Os custos para a implementação e manutenção de tais sistemas são muito variáveis e alcançam va-
Gargalos
Dentre os principais gargalos e dificuldades en- contradas por estas iniciativas pioneiras, vale citar as seguintes:
Do ponto de vista econômico: a) Incertezas quanto à existência de recursos futuros e contí- nuos para a manutenção dos projetos e dos PSAs, tanto do ponto de vista dos executores dos proje- tos, quanto por parte dos produtores rurais (o que pode aumentar a desconfiança em participar dos projetos); b) Alto custo das atividades associadas, especialmente a restauração florestal e a assistên- cia técnica adequada; c) Altos custos de transação por conta: da complexidade da elaboração de pro- jetos (mapeamento, diagnóstico socioambiental); da gestão compartilhada dos projetos, e da elabo- ração, negociação e monitoramento de contratos individuais com cada produtor; d) Dificuldades na identificação dos custos totais dos projetos, dadas muitas vezes pela gestão compartilhada dos mes- mos e pela existência de contrapartida não mo- netária colocada por cada instituição parceira; e) Implementação caso a caso (ausência de padroni- zação); f) Ausência de instituições privadas espe- cializadas na implementação dos projetos PSA.
Do ponto de vista técnico, os principais garga- los encontrados são: a) Baixa capacidade técnica na condução dos processos de restauração florestal (coleta de sementes, produção de mudas de qua- lidade, manutenção dos plantios executados); b) Baixa capacidade técnica de gestão de projetos; c) Processos de monitoramento ausentes ou de- ficientes para o conjunto das atividades, ou ainda em processo de implementação, tanto em relação à
água, quanto em relação às práticas de conservação e restauração florestal executadas.
Do ponto de vista institucional e legal, prova- velmente os principais pontos encontrados dizem respeito a: a) Em alguns casos, a inexistência de arcabouço legal que dê segurança jurídica aos en- volvidos; b) Indefinição de regras fiscais aplicáveis aos PSAs; c) Dificuldade na execução de recursos públicos, originado da ausência do arcabouço le- gal ou de processos extremamente burocráticos na gestão de contratos; d) Desconhecimento dos pro- dutores em relação às suas obrigações ambientais (o que aumentaria o nível de adesão aos projetos).
Recomendações
Um dos maiores desafios para o PSA na Mata Atlântica é a definição do que é preciso ser feito para que as iniciativas desenvolvidas até agora con- tinuem e se desdobrem para um processo de ganho de escala. Baseadas nos gargalos acima, seguem al- gumas considerações e recomendações.