RIO PRETO DA EVAPRESIDENTE FIGUEIREDO
2. ESTADO DA ARTE
2.1. Aspectos geológicos 2.1.1. Generalidades
A área de abrangência deste trabalho envolve uma porção territorial da borda norte da Bacia Paleozóica do Amazonas (Figura 5), que é uma estrutura em sinéclise do tipo intracratônica, estabelecida no Continente Gonduânico, com direção geral WSW-ENE (Neves, 1990), extensão superficial de cerca de 515.000 km2 e cerca de 5.000 metros de espessura sedimentar fanerozóica (Cunha et al., 1994, 2007; Silva et al., 2003). Esta bacia faz fronteira ao norte com o escudo das Guianas, ao sul com o escudo Brasil Central e bacia do Alto Tapajós, a oeste com a bacia do Solimões, marcada pelo Alto de Purus e, a leste, com o rifte mesozóico de Marajó, cuja ombreira é denominada de “Arco de Gurupá” (Milani e Zalán, 1999; Silva et al., 2003).
Escudo das Guianas 1 2 3 Escudo Brasil Central LEGENDA Alto/Arco estrutural Bacia sedimentar Substrato cratônico Limite internacional Limite interestadual Região Amazônica
Figura 5 – Mapa de localização da Bacia Sedimentar Paleozóica do Amazonas, destacando as feições limítrofes com as demais bacias sedimentares da Região Norte do Brasil: 1. Arco de
Iquitos, 2. Arco de Purus e 3. Arco de Gurupá. Modificado de Wanderley Filho et al. (2006).
O substrato da Bacia Paleozóica do Amazonas é representado pelo Cráton Amazônico, de idade arqueana, que é constituído por complexos gnáissicos, associados a faixas supracrustais metamorfoseadas e sucessões sedimentares proterozóicas (Hasui, 1996; Milani e Thomaz Filho, 2000). Reis et al. (2006),com base em análises de propostas anteriores (a exemplo de Tassinari e Macambira, 1999 e 2004; Santos et al., 2006; Delgado et al., 2003) e em informações mais recentes,
propuseram a subdivisão do Cráton Amazônico em sete províncias geocronológicas e seus respectivos domínios tectono-estratigráficos, com idades variando do Mesoarqueano ao Paleoproterozóico, conforme a seguir (Figura 6): (I) Província Rio Negro - domínios Alto Rio Negro (9) e Imeri (10); (II) Província Sunsás - domínios Rio Alegre (15) e Nova Brasilândia (16); (III) Província Rondônia-Juruena - domínios Alta Floresta (11), Roosevelt-Juruena (12), Jamari (13) e Jauru-Santa Helena (14); (IV) Província Tapajós-Parima - domínios Parima (1), Surumu (2), Guiana Central (3), Uatumã-Anauá (4), Tapajós (6) e Peixoto de Azevedo (7); (V) Província Transamazonas - domínios Amapá (17) e Bacajá (18); (VI) Província Amazônica Central - domínios Erepecuru-Trombetas (5) e Iriri-Xingu (8) e (VII) Província Carajás - domínios Carajás (19) e Rio Maria (20). Partes significativas dessas províncias estão recorbertas pela unidade Coberturas Fanerozóicas (21), que inclui as bacias sedimentares do Amazonas, Solimões, Acre e Alto Tapajós.
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Área da pesquisa
Figura 6 – Subdivisão do Cráton Amazônico em províncias geocronológicas e domínios tectono-estratigráficos (conforme sugerido por Reis et al., 2006)
Em conformidade com essa proposição, a área tema deste trabalho está inserida fundamentalmente na unidade Coberturas Fanerozóicas (unidade 21 - Figura 6), que tem como substrato a faixa orogênica Província Tapajós-Parima (Domínio Uatumã-Anauá – unidade 4), de direção NW-SE e idade Paleoproterozóica. Esse domínio compreende uma extensa área, marcada por duas gerações de granitos, com características pós-orogênicas a anarogênicas, onde as principais feições estruturais têm direções NW-SE, E-W, NE-SW e N-S (Reis et al., 2006). A primeira geração está
representada pelos corpos Abonari, de idade 1,87 Ga (Santos et al., 2002) e São Gabriel, de idade 1,88 Ga (Valério et al., 2006) e a segunda geração pelos plutonismos Alalaú-Mapuera (1,87 Ga) e Madeira-Moderna (1,81 Ga). Envolve ainda terrenos granito-gnáissico relacionados ao Complexo Jauaperi (Reis et al., 2006), que detém litologias gnáissicas e metagranitóides, metamorfisadas, de idade 1,88 a 1,86 Ga (Santos et al., op cit), cujo arcabouço tem direções estruturais N-S a NE-SW.
Ocorrem ainda derrames basálticos e diques de diabásio da Formação Seringa, com idade de 0,9 a 1,2 Ga (Costi et al., 1984 apud Reis et al., 2006), a qual corresponde a uma fase extensional, que culminou com rifteamento e sedimentação da bacia Prosperança (Reis et al., 2003). De acordo com Santos et al. 2002, a implantação do rifte precursor da Bacia do Amazonas deveu-se a movimentos de pluma mantélica ocorrida no Cambriano Médio (507 Ma), após o encerramento do ciclo Brasiliano, inicialmente preenchido por sedimentos da Formação Prosperança (Caputo et al., 1971; Cunha et al., 1994; Silva et al., 2003), relacionada ao Mesoproterozóico (CPRM, 2001). Baseados nessa premissa, Silva et al. (2003) consideram que a tectônica formadora dessa bacia pode ser classificada como do tipo IF/IS (Fraturas Interiores, produzidas por esforços distensivos/Depressão Interior, causada por movimentos verticais).
2.1.2. Evolução tectônica da Bacia do Amazonas
Vários autores, entre eles Neves (1990), Wanderley Filho (1991), Cunha (1991), Hasui (1996), Costa e Hasui (1997), Costa et al. (2001), propugnam que a evolução da Bacia do Amazonas ocorreu de acordo com vários estágios, incluindo um regime extensional NW-SE, do Eopaleozóico, marcado por falhas normais (NE-SW e ENE-WSW) e de transferências (NW-SE). Após a fase de soerguimento e erosão, seguiu-se um regime distensivo, com direção NW-SE, relacionado à abertura do Oceano Atlântico, que resultou na formação de falhas normais (N-S e NNE-SSW), intrusões de diabásio e geração de depressões que permitiram a deposição de sedimentos da Formação Alter do Chão (Costa e Hasui, 1997).
A evolução fanerozóica seguiu a estruturação imposta às rochas do Cráton Amazônico, relacionada com os movimentos tectônicos do megacontinente Gondwana durante o Paleozóico, acompanhado da instalação de sistemas de falhas normais (NE- SW) e de transferência (NW-SE) e geração de arcos estruturais (horsts) e discordâncias regionais, que controlaram a deposição sedimentar e sua estruturação (Wanderley Filho, 1991; Reis et al., 2006). A geração desses arcos determinou a compartimentação da bacia em blocos estruturais distintos, que também funcionaram
como controladores das ingressões marinhas que influenciaram os ambientes deposicionais (Cunha et. al., 1994), enquanto que os esforços tectônicos, relacionados à abertura do Oceano Atlântico, no Mesozóico, foram responsáveis por eventos magmáticos e criação de condições de sedimentação. Posteriormente a bacia foi afetada por falhas de transferência de direção NW-SE, que ocasionaram a segmentação em uma série de lineamentos, com destaque para os lineamentos Manacapuru-Rio Negro e Urubu-Crepori (Figura 7), além dos lineamentos Faro-Juriti, Paru-Anapu e Jari-Pacajaí. Esses lineamentos ocasionaram a compartimentação da bacia em blocos, deslocaram depocentros de quase todas as unidades litológicas e desenvolveram horts, a exemplo dos arcos Purus e Gurupá (Wanderley Filho, 1991).
0oS 2oS 4oS 6oS 58oW 60oW 62oW MANAUS Rio Amazonas Plataforma Sul Plataforma Norte LEGENDA Falha normal Eixo da bacia Máximo gravimétrico Bacias sedimentares Substrato proterozóico Arco estrutural Drenagem
Figura 7 – Compartimentação da Bacia do Amazonas (conforme Wanderley Filho, 1991)
Localmente, é de destacada importância geológica e geomorfológica os lineamentos Manacapuru-Rio Negro, Rio Preto da Eva e Rio Urubu, de direção geral NW-SE, que controlam a direção dos rios homônimos, considerados como estruturas do embasamento e que influenciaram na história geológica da Bacia do Amazonas (Cordani et al., 1984; Costa, 1996; Hasui, 1996, dentre outros).
2.1.3. Estratigrafia da Bacia do Amazonas
Segundo Silva et al. (2003), o rifte precursor da bacia do Amazonas foi inicialmente preenchido por sedimentos das formações Prosperança e Acari, do Grupo Purus (Figura 8). A Formação Prosperança, de idade Neoproterozóica (Silva et al., 2003, Cunha et al., 2004 e 2007), é constituída essencialmente de arenitos
arcoseanos, siltitos, argilitos e conglomerados, depositados sob condições de planície deltaica e desembocadura em mar raso (Nogueira, 1999).
A fase sinéclise da bacia do Amazonas, que teve início com a deposição de sedimentos da Formação Acari (sem registro de exposições nessa porção da borda norte da bacia), de ambiente transicional, ou da Formação Autás-Mirim, de origem nerítica (Silva et al., 2003), é marcada por eventos orogenéticos, responsáveis por discordâncias regionais, associadas a episódios orogênicos cíclicos que afetaram toda a porção setentrional da Plataforma Sul-Americana e adjacências (Neves, 1990; Cunha et al., 1994).
Conforme Cunha et al. (2007), na Bacia do Amazonas são identificadas duas megassequências sedimentares de primeira ordem (chegam a 5.000 metros de preenchimento sedimentar e ígneo), sendo uma paleozóica (subdividaida em quatro grandes sequências de segunda ordem: Ordovício-Devoniana, Devono-Tournaisiana, Neo-Viseana e Permo-Carbonífera), constituída por rochas sedimentares de naturezas variadas, associadas a um grande volume de diques e soleiras de diabásios mesozóicos, e uma mesozóico-cenozóico sedimentar (Cretáceo-Paleógeno).
Segundo esses autores, após o preenchimento do rifte (localmente pela Formação Prosperança) teve início a deposição de sedimentos relacionados à Superseqüência Ordovício-Devoniana (do Neo-Ordoviciano ao Eo-Devoniano), constituída por alternâncias de sedimentos glaciais e marinhos, pertencentes ao Grupo Trombetas, que é representado pelas formações Autás-Mirim (arenitos e folhelhos neríticos), Nhamundá (arenitos neríticos e depósitos glaciogênicos), Pitinga (folhelhos e diamictitos marinhos) e Manacapuru (arenitos e pelitos neríticos e litorâneos). Cunha et al. (2007), elevaram o Membro Jatapu da Formação Maecuru à condição de Formação (Formação Jatapu) e a incluíram como unidade superior do Grupo Trombetas, com idade Eo-Devoniana e constituída de arenitos e siltitos marinhos parálicos.
Após a discordância relacionada à Orogenia Calendoniana, verificou-se um novo ciclo transgressivo-regressivo, responsável pela deposição da Sequência Devono-Tournaisiana (Cunha et al., 2007), compreendendo sedimentos flúvio- deltáicos e neríticos, além de incursões glaciais, relacionados aos grupos Urupadi e Curuá. O Grupo Urupadi reúne as formações Maecuru (representada integralmente pelo antigo Membro Lontra), constituída de arenitos e pelitos neríticos e deltaicos, e Ererê (siltitos, folhelhos e arenitos neríticos, parálicos), enquanto que o Grupo Curuá agrega as formações Barreirinha (folhelho marinho), Curiri (diamictitos, folhelhos e siltitos glaciais) e Oriximiná (arenitos e pelitos fluviais regressivos). Esses autores propuseram a divisão da Formação Barreirinha nos membros Abacaxis (folhelhos
cinza-escuros a pretos, físseis, carbonosos, depositados em ambiente marinho distal e euxínico), Urubu (folhelhos cinza-escuros depositados em ambiente marinho regressivo ou progradacional) e Urariá (folhelhos cinza-escuros a claros e siltitos, de ambiente marinho fracamante regressivo), como também a exclusão da Formação Faro do Grupo Curuá.
Após a deposição da Sequência Devono-Tournaisiana verificou-se um hiato de tempo com duração da ordem de 14 Ma, quando as margens da Placa Sul- Americana foi submetida a uma intensa atividade tectônica, responsável por soerguimento e erosão, e que originou uma discordância e deposição dos sedimentos da Formação Faro (arenitos e pelitos fluvio-deltaicos e litorâneos), a qual constitui a Sequência Neo-Viseana (Cunha et al., 2007).
Após hiato de cerca de 15 milhões de anos, ocorreu novo ciclo transgressivo- regressivo na sinéclise, ocorrido entre o Neo-Carbonífero e Neo-Permiano, o qual foi responsável pela deposição da Sequência Permo-Carbonífera (Pensilvaniano- Permiana), individualizada pela Orogenia Gonduanide e pelo Diastrofismo Juruá (diques e soleiras máficas), que foram responsáveis por drásticas mudanças climáticas (de frio para quente e árido) e que permitiram a deposição de sedimentos continentais e marinhos do Grupo Tapajós. Essa unidade compreende as formações Monte Alegre (arenitos eólicos e wadis intercalados com siltitos e folhelhos de interdunas e lagos), Itaituba (calcários, evaporitos, siltitos e folhelhos), Nova Olinda (calcários de inframaré e evaporitos de planície de sabkha) e Andirá (arenitos e folhelhos continentais e final do ciclo transgressivo-regressivo paleozóico). Cunha et al. (2007) propuseram a subdivisão da Formação Nova Olinda em dois membros: Fazendinha (folhelhos, carbonatos, anidritas e halitas, além de sais solúveis – silvita) e Arari (folhelhos, siltitos e halitas), que marca o início da forte regressão que ocorreu na bacia.
Conforme Santos (1978), no princípio do Jurássico a bacia foi afetada por um amplo magmatismo basáltico, responsável pela geração de soleiras e diques com direção N-S e derrames não aflorantes, situados entre as formações Nova Olinda e Alter do Chão, associados com um evento distensional com direção E-W (Reis et al., 2006). Teixeira (1978) propôs que as atividades ígneas do Proterozóico e do eo- Paleozóico na região amazônica, foram condicionadas por sistemas de fraqueza NE e NW, representativas de eventos terminais dos cinturões móveis regionais e/ou do magmatismo, reflexo de sua atuação em áreas cratonizadas. Na região esse magmatismo compreende a unidade Diabásio Penateucaua, de idade relacionada ao Juro-Triássico (Issler et al., 1974).
AMBIENTE
DEPOSICIONAL DISCORDÂNCIAS
LITOESTRATIGRAFIA
GRUPO FORMAÇÃO MEMBRO
ESPESSURA