Antes de pensar os efeitos da ordem internacional dentro do ordenamento jurídico
brasileiro, é fundamental passar por algumas questões preliminares, em especial, pelo
relacionamento entre estas duas esferas de regulação social: direito nacional e direito
internacional. Isso porque o direito internacional, por si só, é recheado de desconfianças e de
polêmicas. No âmbito acadêmico, de modo geral, pouquíssimas atenções lhe são empregadas,
sendo, não raras as vezes, disciplina ministrada por professores em regime de substituição ou
mesmo ofertada na modalidade optativa. Na esfera da doutrina, o direito internacional está
repleto de divergências e dúvidas quanto à sua aplicabilidade e eficácia. Já no âmbito do
Poder Judiciário, praticamente esquecido, vide o número extremamente pequeno de decisões
que discutem a convencionalidade das leis, conforme anteriormente destacado.
E nesse sentido Kelsen (1998) traz importantes contribuições, seja quanto à própria
essência do direito internacional, seja quanto às formas de relacionamento entre a ordem
interna e a externa.
Primeiramente, quanto à essência do direito internacional, Kelsen (1998) afirma que
tal ramo do direito, ainda que enquanto ordem coercitiva exteriorize o mesmo caráter do
direito estatal, em muito se aproxima do Direito das sociedades primitivas. Isso basicamente
porque não apresenta órgãos funcionando segundo o princípio da divisão do trabalho para a
elaboração e aplicação de suas normas. Ou seja, ainda não possui um Poder Legislativo e um
Poder Judiciário bem caracterizado, como dispõe o direito que advém de uma ordem estatal.
Se encontra, ainda, em um grande estágio de descentralização.
Segundo assegura Kelsen (1998), o direito internacional ainda está situado no começo
de uma escala evolutiva que o direito estadual já percorreu há bastante tempo. Isso fica muito
claro ao se analisar a sua estrutura legislativa, uma vez que ainda é formado basicamente a
partir do costume ou de um tratado internacional, o que significa que não há um órgão
legislativo especial com representantes da comunidade e incumbido da elaboração das leis.
Suas normas são construídas através dos próprios integrantes da comunidade, de forma direta.
Não que no direito estatal as normas não sejam elaboradas pelos membros da própria
comunidade. Ocorre que neste, desde pelo menos a consolidação das ideias contratualistas de
Locke, existe um Poder Legislativo composto, na maioria dos casos, por representantes da
vontade do povo. Pelo menos em tese representantes da vontade de quem os elegeu.
E justamente por não haver um órgão mediador no processo de elaboração e aplicação
das leis, nos casos concretos em que determinado Estado se crê lesado em seu direito, ele
mesmo, vai verificar se está caracterizado o ilícito bem como se há um outro Estado a ser
responsabilizado. Se, no entanto, este outro Estado nega o ilícito e não se dispõe à
composição inexiste instância objetiva que deva decidir o litígio através de um processo
juridicamente regulado e o próprio Estado lesado está autorizado a reagir contra o violador do
seu Direito. Ou seja, é a própria parte que reage ao ilícito e não um órgão próprio e imparcial.
Assim, é ainda o próprio Estado lesado no seu direito que é autorizado a
reagir contra o violador do Direito com o ato de coerção estabelecido pelo
Direito internacional geral, com as represálias ou com a guerra. E a técnica
da autodefesa, que também foi o ponto de partida da evolução da ordem
jurídica estadual (KELSEN, 1998, p. 226).
Até porque, no plano interestatal, ainda não há “uma estrutura externa coercitiva capaz
de aplicar sanções (na forma de um “superestado”), como na esfera doméstica, que existe
submissão dos indivíduos em relação ao governo instituído” (FERREIRA & TROTTA, 2013,
p. 340).
Muito semelhante, portanto, às formas pré-estatais de resolução de conflito.
Kelsen (1998) diz também, ainda com intuito de caracterizar a essência do direito
internacional, que a construção deste direito ocorre de forma escalonada, através de normas de
primeiro, segundo e terceiro escalão.
O ponto de partida para a construção de uma ordem jurídica internacional, para Kelsen
(1998) é o pacta sunt servanda
14. Tal fórmula dá respaldo para que os membros da
comunidade internacional possam regular, por meio de tratados, a sua conduta recíproca.
Assim sendo, através do expresso acordo de vontades de dois ou mais Estados, são criadas
normas pelas quais são impostos deveres e conferidos direitos aos Estados contratantes, o que
significa dizer que, este Direito internacional pactual, salvo raras exceções, tem caráter
meramente particular. Suas normas não vigoram em relação à todos os Estados, mas tão
somente em relação ao grupo que optou por integrar a ordem internacional construída.
Mas antes da ideia do pacta sunt servanda é imperioso lembrar da existência de um
Direito internacional geral consuetudinário. Direito este que não é coordenado ao pacta sunt
servanda, mas guarda com ele uma relação jurídica escalonada, isto é, de normas de grau
14