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Estado da Arte

No documento Anais... (páginas 57-63)

Trabalhos de recuperação de áreas degradadas em áreas de mineração são abundantes na literatura, principalmente, a partir da Constituição Federal de 1988 que, no artigo 225, estabeleceu o princípio do usuário/poluidor pagador. De lá para cá, muito se avançou, culminando nos modernos conceitos da restauração ecológica da paisagem, principalmente, no âmbito brasileiro, in- cluindo a Mata Atlântica, o Cerrado e a Amazônia (Cava et al., 2016). Nesses biomas, a remoção das camadas superfi ciais do solo causa forte impacto nas características químicas, físicas e biológicas do substrato, o que demanda uma série de estratégias para possibilitar a formação de uma nova comuni- dade vegetal, que pode incluir desde técnicas de adubação à adição de solo superfi cial, como fonte de propágulos, e plantio de mudas (Resende et al., 2017).

Na Caatinga, da mesma forma que nos dois outros biomas citados, a re- moção superfi cial acarreta em fortes alterações do solo, cujas característi- cas químicas não são tão afetadas quanto na Mata Atlântica e na Amazônia, principalmente, devido ao fato de serem solos, muitas vezes, eutrófi cos. Em contrapartida, como lidar com a ausência de precipitação por cerca de seis a oito meses após o plantio, característica marcante desse Bioma?

A saída passa pela escolha de espécies mais adaptadas a essa condição, aliada ao plantio no início do período chuvoso e fazendo uso de estratégias para conservação de umidade, como a aplicação de composto orgânico, es- terco, hidrogel, palha de carnaúba ou o plantio com mudas de raízes alonga- das. Junto a esse conjunto de ações, também é fundamental buscar estraté- gias de aumento da diversidade como aumento da rugosidade do solo para retenção de propágulos e adição de solo superfi cial.

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Embrapa Agrobiologia, [email protected] 2Universidade Federal Rural do Semi- -Árido-UFERSA, 3Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro UFRRJ, 4Centro Nacional de Pesquisa - Petrobras.

Algumas espécies nativas como Mimosa tenuifl ora [Willd.] Poir. (jurema- -preta), Libidibia ferrea (Mart. ex Tul.) L.P. Queiroz (jucá); Tabebuia aurea (Silva Manso) Benth. & Hook. f. ex S. More (craibeira) e Mimosa caesalpinii-

folia Benth. (sabiá) destacam-se por sua velocidade de crescimento, o que

as coloca, em muitas situações, como espécies estruturantes com elevado potencial de recobrimento da área (Lima et al., 2015a). Uma adubação de base com esterco, o uso do hidrogel e o plantio no início das águas têm sido fundamentais para o sucesso dos plantios. O uso de solo superfi cial tem possibilitado o incremento, em curto período, da riqueza de plantas na área, principalmente de espécies herbáceas e arbustivas que atraem um grande número de insetos e predadores, aumentando a biodiversidade (Figura 1).

Figura 1. Espécies vegetais nativas como jurema-preta (Mimosa tenuifl ora [Willd.]), caraibeira (Tabebuia aurea (Silva Manso) Benth. & Hook. f. ex S. More) e jucá (Libidibia ferrea (Mart. ex Tul.) L.P. Queiroz), 90 dias após plantio em jazida de exploração de piçarra, sem a aplicação de solo superfi cial no primeiro plano. A seta indica onde foi adicionado solo superfi cial. Alto do Rodrigues, RN.

Foto: Eduardo F

. C. Campello

Na ausência da possibilidade de adição de solo superfi cial, o plantio de legumi- nosas arbóreas fi xadoras de nitrogênio inoculadas com fungos micorrízicos e rizóbios (Figura 2) tem sido uma estratégia bem sucedida para promover uma rápida cobertura do solo e favorecer a regeneração natural (Lima et al., 2017).

Figura 2. Leguminosas arbóreas testadas sem adição de solo superfi cial e inoculadas com bactérias fi xadoras de nitrogênio e fungos micorrízicos, 17 meses após o plantio, na função de espécies estruturantes na recuperação de jazidas de exploração de piçarra, em Areia Branca, RN. Extraído de Resende e Chaer (2010).

F o to : C id R o d ri g o C a va lc a n ti

Na área de piçarra plantada com leguminosas fi xadoras e, ou com aplicação de solo superfi cial, a análise de diversos indicadores mostrou que a atividade biológica no substrato da jazida foi similar à da área adjacente com vegeta- ção nativa de Caatinga, seis anos após a intervenção (Tabela 1). O mesmo não aconteceu em áreas onde não se fez a intervenção ou em que as espé- cies plantadas não eram leguminosas fi xadoras de N.

Tabela 1. Valores de hidrólise do diacetato de fl uoresceína (FDA), atividade

respiratória da biomassa microbiana (Resp-B) e carbono da biomassa micro- biana (CBM) do solo (0 - 5 cm), nas diferentes unidades de estudo, localiza- das no Rio Grande do Norte. Extraído de Lima et al. (2015b).

Tratamentos FDA Resp-B CBM

µg Fluorescg-1h-1 mg CO 2kg -1d-1 Mgkg-1 Testemunha (+)1 47,92 ab2 5,967 ab 185,03 ab Testemunha (-) 1,01 c 0,769 b 120,45 c CS/CF 51,77 a 9,811 a 202,14 a CS/SF 39,30 ab 7,807 a 176,45 abc SS/CF 24,16 bc 5,305 ab 137,70 bc SS/SF 2,59 c 1,884 b 121,62 c

1Testemunha (+) – Área com vegetação nativa (Caatinga de referência); Testemunha (-) – Sem adição de solo superfi cial e sem plantio de espécies arbóreas; CS/CF – Com adição de solo superfi cial e plantio de fi xadoras de nitrogênio; CS/SF – Com adição de solo superfi cial e plantio de não fi xadoras de nitrogênio; SS/CF – Sem adição de solo superfi cial e plantio de fi xadoras de nitrogênio e SS/SF - Sem adição de solo superfi cial e plantio de não fi xadoras de nitrogênio.

2Médias de quatro repetições. Valores com a mesma letra na coluna não diferem entre si pelo teste t de Bon- ferroni a 10%.

Situação muito similar aos indicadores biológicos foi também observada para os teores de carbono orgânico total (COT), teores de carbono orgânico das frações humina (C-HUM), ácidos húmicos (C-AH) e ácidos fúlvicos (C-AF) e relação C-AH/C-AF do solo (0 - 5 cm) (Tabela 2).

Esses resultados indicam que houve uma relação positiva entre a atividade biológica e o carbono do solo e suas frações, a depender dos tratamentos. A adição de solo superfi cial e o plantio de leguminosas nodulantes (fi xadoras de nitrogênio) garantiram valores mais próximos aos verifi cados na área de Caatinga nativa (testemunha +). O tratamento sem adição de solo superfi cial e com plantio de espécies arbóreas não fi xadoras de nitrogênio (SS/SF) não diferiu da testemunha (-), mostrando-se inefi ciente para garantir melhorias na qualidade do solo em processo de recuperação no período avaliado.

Tabela 2. Valores de carbono orgânico total (COT), teores de carbono orgâ-

nico das frações humina (C-HUM), ácidos húmicos e ácidos fúlvicos (C-AF) e relação C-AH/C-AF do solo (0 - 5 cm) nas diferentes unidades de estudo, localizadas no Rio Grande do Norte. Extraído de Fontes et al. (2015).

Tratamentos COT C-HUM C-AH C-AF C-AH/C-AF

g kg-1 Testemunha (+) 22,05 a 16,35 a 0,82 a 0,74 a 1,12 a Testemunha (-) 1,575 b 1,50 b 0,04 b 0,16 b 0,26 b CS/CF 12,5 a 12,52 a 0,28 ab 0,33 ab 0,93 ab CS/SF 12,25 a 13,11 a 0,33 ab 0,31 ab 1,14 a SS/CF 5,85 ab 6,17 ab 0,18 b 0,30 ab 0,72 ab SS/SF 1,725 b 1,66 b 0,03 b 0,13 b 0,22 b 1Testemunha (+) – Área com vegetação nativa (Caatinga de referência); Testemunha (-) – Sem adição de solo superfi cial e sem plantio de espécies arbóreas; CS/CF – Com adição de solo superfi cial e plantio de fi xadoras de nitrogênio; CS/SF – Com adição de solo superfi cial e plantio de não fi xadoras de nitrogênio; SS/CF – Sem adição de solo superfi cial e plantio de fi xadoras de nitrogênio e SS/SF - Sem adição de solo superfi cial e plantio de não fi xadoras de nitrogênio. 2Médias de quatro repetições. Valores com a mesma letra na coluna não diferem entre si pelo teste t de Bonferroni a 10%.

Os indicadores refl etem em detalhes o que se vê após a intervenção nas ja- zidas. Com o aumento da cobertura vegetal, as relações ecológicas avançam em seus diferentes níveis, numa velocidade e com um destino diferentes do ambiente original, face à alteração do substrato, mas integrada paisagística e ecologicamente em relação ao seu entorno (Figura 3).

É necessária uma busca por um leque maior de espécies vegetais nativas que possam ter sua curva de crescimento quantifi cada, de forma a gerar recomenda- ções para as diferentes condições de paisagem de plantio. O mesmo vale para a busca de estratégias mais adequadas de plantio, visando a reduzir custos e a aumentar a efi ciência, tanto econômica quanto ecológica das intervenções. Para que seja possível perceber o quanto ainda se precisa de avanço de conheci- mento, destaca-se, na Figura 4, uma área de plantio que foi coveada com adição de esterco e que fi cou cerca de 45 dias sem intervenção. O banco de sementes que fazia parte da dieta animal e estava no esterco começou a germinar. É claro que surgiram muitas espécies que não eram do interesse do projeto, como gra- míneas exóticas, maxixe e algaroba, mas a verdade é que muita coisa germinou, num custo de intervenção muito baixo. Considerando que nessa condição não há competição com o mato, possivelmente essa estratégia, fazendo uso de uma mis- tura de sementes nativas na dieta animal, pode trazer resultados interessantes para a restauração da Caatinga. Avanços se fazem necessários também nessa ampla linha de estudo, testando com esterco, com composto, com solo superfi - cial, com sementes escarifi cadas e não escarifi cadas, enfi m, um grande poten- cial, quase ilimitado, a ser pesquisado.

Figura 3. Visão de uma jazida de exploração de piçarra antes da (esquerda) e 36 meses após a inter- venção (direita), Assú, RN. Extraído de Resende e Chaer (2010).

Foto: José Erivaldo

A

raú

Outra questão importante que precisa ser melhor trabalhada diz respeito à necessidade de alternativas madeireiras para a região, visando suprir a de- manda energética. Somente a atividade ceramista no Rio Grande do Norte consome lenha da ordem de 1,58 milhão de m3 ano-1, sendo cerca de 50% proveniente do manejo da Caatinga e do corte da algaroba e, a outra meta- de, composta por resíduos vegetais, como a poda do cajueiro, por exemplo (Schwob et al., 2017). Os 40 planos de manejo fl orestais ativos no estado geram cerca de 32 mil hectares de área manejada, o que não atende à de- manda atual (Campos; Oliveira, 2017).

É necessário aproveitar a oportunidade que pode vir a surgir em programas de refl orestamento para fi ns ambientais na região, para, em conjunto, buscar alternativas e a seleção de indivíduos com maior potencial econômico que possibilitem uma exploração fi nanceira futura. Não é mais possível sustentar um discurso ambiental dissociado da importância econômica que as árvores possuem no bioma como fonte de lenha.

Figura 4. Restauração de jazida de exploração de piçarra com semeadura direta em covas, estratégia antiga, que se bem trabalhada pode trazer bons resultados, a baixo custo. Pendência, RN.

Foto: Eduardo F

No documento Anais... (páginas 57-63)