CAPÍTULO II – REVISÃO DA LITERATURA
II. 1 – Estado da arte
A proteção social, no que respeita a crianças e jovens, tem vindo a sofrer diversas mudanças numa lógica de melhoria e promoção dos direitos das crianças, tendo em conta as mais vulneráveis. Desta forma, é primordial referir a primeira reforma legislativa, vertida na Lei n.º 147/99 de 1 de setembro e alterada pela Lei 142/2015 de 8 de setembro. A intervenção do Estado, em relação às políticas sociais existentes, visa, primordialmente, a proteção das crianças embora os pressupostos e aplicação sejam refletidos a alterados consoante novos contributos chegam dos mais variados quadrantes o que conduz a algumas alterações e motivações. Portugal “foi um dos primeiros países a adotar leis específicas para menores de idade, apenas a partir de 1974 começaram a verificar-se progressos nas políticas de infância” (Tomás & Fonseca, 2004, p. 384).
A lei acima mencionada respeita, claro está, todos os princípios consagrados na Convenção dos Direitos da Criança. A reforma dos direitos inerentes às crianças em Portugal, em 1999, através da convenção dos direitos da criança, teve um maior impacto na sua intervenção e reforçou a dimensão social de proteção à criança através da mesma lei que estabelece o enquadramento jurídico das Comissões de Proteção de crianças e jovens em Perigo (Ferreira, 2011).
O mesmo autor atesta que com a ratificação da Convenção dos Direitos da Criança reconhecendo à criança o estatuto de sujeito de direitos e, na atualidade, o estatuto de cidadão, também designada a cidadania da infância, há um reforço na dimensão social de proteção a quem está em perigo (Ferreira, 2011).
Consequentemente, o superior interesse da criança assume um lugar de destaque nas políticas de proteção à infância, tendo como diretrizes:
Defender o interesse superior da criança e seus direitos; orientação da criança e evolução das suas capacidades; sobrevivência e desenvolvimento; protecção da identidade; liberdade de expressão; protecção da vida privada; protecção contra maus-tratos e negligência; a adopção; educação; trabalho das crianças; consumo e tráfico de drogas; exploração sexual, etc. (Ferreira, 2011, pp. 127,128)
A Convenção dos Direitos das Crianças é o ponto máximo da criação de medidas em prol da defesa dos direitos da criança. É importar ressalvar o n.º1 do art.º 2.º da Convenção dos Direitos da Crianças (CVC), que citamos:
Os Estados Partes comprometem-se a respeitar e a garantir os direitos previstos na presente Convenção a todas as crianças que se encontrem sujeitas à sua jurisdição sem discriminar alguma, independentemente de qualquer consideração de raça, cor, sexo, língua religião, opinião política ou outra da criança, de seus pais ou representantes legais, ou da sua origem nacional, étnica ou social, fortuna, incapacidade, nascimento ou de qualquer outra situação. (Portugal, 1990, p. 6)
Cabe-nos, ainda, referir e destacar a missão das Comissões de Proteção de Menores, atualmente designadas de Comissões de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ), destacando que as Comissões têm como objetivo primordial o apoio junto das crianças e jovens em perigo, sem a necessidade evidente de uma intervenção judicial por parte dos tribunais com competência na matéria (Tomás & Fonseca, 2004).
No contexto das comissões e das diretrizes que acompanham o seu trabalho na área social de prevenção primária as quais as regulam e determinam os passos a serem seguidos, Loulé (2010) menciona:
A prevenção primária do risco, no sentido indicado, está incluída nas competências das Comissões de Protecção de Crianças e Jovens, na sua modalidade alargada, na medida em que as suas atribuições de prevenção primária do perigo não podem deixar de implicar a sua intervenção o mais possível, a montante. (Loulé, 2010, p. 32)
É necessário reforçar que a ação das CPCJ é diagnosticar necessidades das crianças e jovens e respetiva família, para um trabalho mais assertivo na sua intervenção. Este trabalho teve o seu início em 1998 com a criação da CPCJ, e em 1999 com a criação da Lei de Proteção de Crianças e Jovens, de forma a garantir o bem-estar e desenvolvimento integral.
No entanto, quando nos reportamos ao tema crianças e jovens, não nos podemos cingir a nível nacional, pois muito trabalho e apoio tem resultado de projetos e intervenções a nível Europeu. Nesta perspetiva, “a intervenção, associada a diretrizes internacionais/europeias, é hoje orientada pelos seguintes princípios: igualdade de oportunidades, cidadania, responsabilidade, participação, integração, multidimensionalidade e intervenção local” (Santos, 2010, p. 5).
Valle & Zurita (2000), citados por Maria Manuela Calheiros (2007), referem que “a jusante da intervenção das Comissões de Protecção de Crianças e jovens, outra área do Sistema de Protecção – o acolhimento institucional – tem vindo a ser alvo de avaliação e discussão na Europa” (p. 34).
As políticas sociais são um fenómeno Europeu e, nesta base está o reconhecimento da existência de necessidades a nível humano e do direito que lhe está inerente, o direito de satisfação (Loulé, 2010). Nas palavras da autora citada anteriormente, “só assim podemos implementar uma cidadania ativa baseada no dever da solidariedade, mas também inculcar um espírito de obrigação por parte do estado” (Loulé, 2010, p. 67).
De acordo com a Convenção das Nações Unidas sobre os direitos da criança, criança é qualquer ser humano com menos de 18 anos. O tratado de Lisboa introduziu na União Europeia (UE) a promoção dos direitos da criança e a carta dos direitos fundamentais que garante a proteção dos direitos que lhe estão inerentes.
Voltando a nossa atenção para a informação existente no documento da Comissão Europeia, Compreender Políticas da União Europeia – Emprego e assuntos sociais, podemos frisar e citar o item relacionado com a proteção social, que nos diz:
Os sistemas de proteção social dos países da UE foram criados para gerir os riscos relacionados com o desemprego, problemas de saúde, invalidez, situações familiares difíceis, velhice, etc. Embora os Estados – Membros sejam responsáveis pela organização e pelo financiamento dos respetivos regimes de proteção social, a UE desempenha um papel importante de coordenação dos sistemas nacionais de segurança social com vista a facilitar, nomeadamente, a mobilidade entre os países da UE. (Comissão Europeia, 2013, p. 5)
A aprovação pela Comissão Europeia, em junho de 2010, da “Estratégia 2020”, muito significou nestas linhas de orientação, no que respeita à proteção social e a tudo o que lhe está inerente. Incluída no campo da inclusão social, dando um grande avanço na definição da política social, a inclusão social é um indicador presente para designar o risco e a pobreza e a exclusão social (Santos, 2016).
As sociedades atuais justificam a relevância de reforçar o papel da inclusão social no programa estratégico da EU e, por isso, é criado o Método Aberto Coordenado (MAC), o qual tem como linhas orientadoras a preparação do PNAI, documento que visa colocar em prática as políticas inclusivas e de combate à pobreza e à exclusão social (Almendra, 2011).