2.3. A Cidadania Activa no Contexto Internacional e Nacional
2.3.2. Estado da Cidadania Activa na Europa e em Portugal
Procedendo à análise do estado da cidadania activa na Europa e em Portugal, é interessante começar por avaliar como tem evoluído o espírito de associativismo e verificar que em Portugal esta capacidade da sociedade civil se organizar ocorreu tardiamente relativamente a outros países europeus, tendo em consideração que a primeira organização mundial na área da Ecologia Urbana foi criada em 1843 em Inglaterra (Vasconcelos e Baptista, 2002).
Efectivamente foi apenas em 1948 que em Portugal surgiu a primeira associação vocacionada para a protecção e conservação da natureza – a Liga para a Protecção da Natureza. Associado à viragem política da sociedade portuguesa, a partir de 1974 é que se registou um aumento do movimento social, surgindo em 1976 o Movimento Ecológico Português.
Entre 1984 e 1985 a história do movimento português caracterizou-se pela proliferação de diferentes tipos de organizações relacionadas com a conservação da natureza e organizações neo-anarquistas, resultantes de grupos locais ou políticos.
No entanto, comparativamente com a realidade de outros países europeus, em Portugal são ainda poucas as pessoas que integram movimentos ambientalistas, apesar de nos últimos anos esta situação denotar alguma evolução positiva, com a progressiva adesão de individualidades de diferentes áreas (Vasconcelos e Baptista, 2002).
Esta realidade é confirmada pelos resultados do European Social Survey II – 2005 (Schmidt, 2008), pois na resposta à questão sobre a adesão a “Trabalho voluntário numa organização não partidária nos últimos 12 meses”, Portugal situou-se na penúltima posição, com 2,6% de respostas positivas, enquanto países como a Finlândia, Noruega ou Luxemburgo registaram as maiores percentagens de respostas positivas, entre 24% e 31%.
No sentido de apurar qual o ponto de situação acerca do nível de informação e conhecimento dos cidadãos sobre as questões ambientais e da prática da cidadania no contexto europeu e nacional, vários têm sido os estudos, as sondagens e as metodologias aplicadas, nomeadamente no domínio dos recursos hídricos. Apresenta-se seguidamente alguns resultados que confirmam o facto do caminho para a prática da cidadania estar aberto, mas ainda longe de ser aplicado eficazmente, quer do ponto de vista institucional, quer dos cidadãos.
Assim, o Flash Eurobarometer on Water (European Comission, 2009), cujo objectivo foi examinar o conhecimento dos cidadãos da UE27, mediante a realização de entrevistas no final do mês de Janeiro de 2009, sobre diversos problemas relacionados com a água, as suas percepções sobre o impacto de determinados factores na qualidade da água, a sua predisposição para tomar iniciativas que contribuam para a redução destes problemas, entre outros aspectos associados aos hábitos de participação pública, publicou conclusões muito relevantes, destacando-se seguidamente algumas com interesse no âmbito do presente trabalho:
• Em média, cerca de 43% dos cidadãos europeus julgam-se informados ou muito informados sobre os problemas relativos a rios, lagos e águas costeiras do seu país. Este sentimento aumenta em função da idade, grau de educação e nível da ocupação profissional dos inquiridos. Em Portugal, o nível é um pouco inferior, pois consideram-se informados ou muito informados cerca de 35% e pouco informados cerca de 56,6%;
• A grande maioria dos cidadãos europeus afirma que têm tentado reduzir os problemas associados à água, utilizando menos quantidade de água (84% na UE 27 e 93% em Portugal), usando detergentes amigos do ambiente (60% na UE27 e 70% em Portugal) ou evitando o uso de pesticidas no seu jardim
(78% na UE27 e 77% em Portugal). As mulheres, os mais idosos, os inquiridos com maior grau de educação e aqueles que se consideram bem informados acerca dos problemas associados à água foram os que se mostraram mais predispostos para actuar neste sentido;
• Apenas 14% dos cidadãos da UE27 tem conhecimento do processo de consulta pública dos Planos de Gestão de Região Hidrográfica, sendo que os mais jovens, com menos grau de educação, trabalhadores manuais e desempregados foram os que manifestaram menos interesse em expressar os seus pontos de vista durante os processos de consulta pública. Em Portugal cerca de 54% dos inquiridos referiu não ter tomado conhecimento, mas tencionar participar, 21% afirmou não ter tomado conhecimento e nem estar interessado e 8% afirmou ter tomado conhecimento e tencionar participar. Verifica-se assim que o nível de informação em Portugal ainda é reduzido e está muito associado ao grau de literacia dos cidadãos, embora haja consciência da necessidade de colaborar individualmente para a resolução de problemas comuns associados à quantidade e qualidade da água.
Por outro lado, apenas um nº reduzido de portugueses tem participado no processo de consulta pública dos Planos de Gestão, por desconhecimento, mas é de salientar que um pouco mais de metade dos inquiridos revela vontade em participar. Uma percentagem ainda significativa afirma não ter interesse neste processo, não sendo, no entanto, apresentados os motivos deste desinteresse.
É também de referir que, de acordo com os resultados do Eurobarómetro 70 – Outono 2008 (Comissão Europeia, 2008), uma proporção substancial dos portugueses refere não confiar nos Partidos Políticos (77%), no Governo (61%), na Assembleia da República (54%) e no Sistema Judicial (52%), sendo que, das instituições avaliadas, as regionais e locais são as que recolhem mais confiança.
Por sua vez, os resultados de um estudo publicado pela Fundação Luso – Americana para o Desenvolvimento (FLAD), na sequência da aplicação da metodologia TAI (The Acess Initiative), inicialmente estabelecida pelo World Resources Institute, revelam que a participação e inclusão de sugestões dadas pelo público e outros interessados não se verifica, na maior parte das situações, nas decisões finais, o que gera
frustração nos participantes e traduz-se na concretização de projectos ou estratégias com lacunas significativas e desenquadrados do contexto real das necessidades que motivaram a sua criação (Vasconcelos e Fonseca, 2006).
Estas observações são corroboradas por Propst et al (2004), citado por Larson e Lach (2008), que considera que aspectos como a falta de acompanhamento, de objectivos claros e da incorporação da monitorização e do feedback afectam negativamente alguns participantes.
Relativamente à questão da capacitação, o mesmo estudo dá indicação de que o Estado não faz o devido investimento para a implementação dos princípios do acesso à informação, ou seja, ainda são poucas e nem sempre mais adequadas as iniciativas levadas a cabo pela Administração Pública, no sentido de estimular a prática da cidadania activa do cidadão comum.
Não obstante, são conhecidos alguns projectos em que o envolvimento activo dos actores chave constitui uma realidade. São exemplo disso, entre várias iniciativas da mesma natureza que têm sido desenvolvidas em algumas regiões e ou municípios a nível nacional, os seguintes:
• Agenda XXI Local de Oeiras - Câmara Municipal de Oeiras, em www.cm- oeiras.pt;
• Modelação Participada no Baixo Guadiana - Instituto da Água/ADVISOR (Videira et al, 2006 e Videira et al, 2009);
• MarGov - Universidade Nova de Lisboa, em http://margov.isegi.unl.pt); • Projecto Maré – Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade
dos Açores (Vasconcelos et al, 2009), em
http://www.horta.uac.pt/projectos/macmar/life/index.html;
• Projecto Douro Limpo – Campanha de Sensibilização e Educação Ambiental no Alto Douro Vinhateiro - Universidade de Trás os Montes e Alto Douro, em http://dourolimpo.utad.pt;
• Sistema de Indicadores de Desenvolvimento Sustentável do Algarve (SIDS Algarve) - Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve, em http://web.ccdr-alg.pt/sids/indweb/.
A continuação e reforço desta prática de cidadania activa passa, entre outros aspectos, pelo esforço da Administração Pública em formar uma equipa de recursos humanos capacitada para promover este tipo de iniciativas, para assegurar a divulgação de informação por públicos diferenciados e para estimular e encorajar a sua participação, sendo fundamental implementar medidas que possibilitem esclarecer o cidadão e simultaneamente envolvê-lo mais directamente, co-responsabilizando-o (Vasconcelos e Fonseca, 2006).
Para estimular a cidadania será ainda fundamental a interiorização de que estes processos colaborativos constituem uma mais-valia nas políticas de planeamento, ao contribuírem para que estas se adaptem melhor às reais necessidades dos cidadãos e para a implementação de políticas, estratégias, planos e empreendimentos adaptados a cada situação (Vasconcelos e Fonseca, 2006).
Cabe, no entanto, referir ainda que outros investigadores defendem a existência de mais factores que podem influenciar e condicionar a capacidade e disponibilidade dos cidadãos para participar, como é o caso da idade, género, estado civil e a distância do local de residência, podendo variar também com o tempo dispendido na ocupação laboral e com a criação de oportunidades para o trabalho em parceria, conforme referido por Martinez e McMullin (2004), citado por Larson e Lach (2008).
Referem ainda estes autores questões geográficas e situacionais enquanto aspectos que podem influenciar a participação, na perspectiva de que as pequenas comunidades rurais revelam mais aptidão para o envolvimento comunitário do que as urbanas de maior dimensão e de que o convite expresso para participar e a existência de interesses e preocupações específicas podem condicionar o exercício da cidadania em determinadas situações.
Conclui-se assim que o estreitamento das relações entre os serviços e os cidadãos e o aumento do seu grau de confiança, o fomento do trabalho em rede, a adaptação do processo participativo às características de cada situação, o reforço da informação, o esforço na adaptação da comunicação em função das características do público – alvo e
a inclusão das sugestões e propostas do público nas decisões finais, contribuirão para combater a apatia, a desmotivação e a falta de hábito dos cidadãos em participar e em expressar os seus pontos de vista e interesses.