Dentre os 2284 túmulos do Cemitério Municial São José, 1058 encontram- se em ótimo estado de conservação (46,3%); 839 em estado regular (36,7%) e; por fim, 387 encontram-se deteriorados (16,9%). Deste modo, há mais sepulturas bem conservadas do que degradadas. Este dado indica a existência de preocupação com a manutenção da necrópole, por parte tanto da municipalidade, quanto dos familiares ou interessados das sepulturas individuais, ainda que a construção de muitas das necrópoles seja anterior à década de 1950.
O gráfico, na sequência, clarifica a visualização dos resultados obtidos quanto ao estado de conservação dos túmulos.
46,3% 36,7% 16,9% 0,0% 5,0% 10,0% 15,0% 20,0% 25,0% 30,0% 35,0% 40,0% 45,0% 50,0% PERCENTUAL
ÓTIMO REGULAR DETERIORADO
CONSERVAÇÃO
OCORRÊNCIAS
GRÁFICO 1 – Estado de conservação dos túmulos. Fonte: Acervo pessoal da autora.
Notamos que o estado de conservação não implica relação com o tipo de jazigo ou mesmo com a temporalidade, a datação das sepulturas, visto que as categorias para a análise deste elemento encontram-se muito mais dispersas na organização espacial da necrópole, do que concentradas, salvo discretos agrupamentos.
Ainda no que se refere à conservação dos túmulos no Cemitério Municipal São José, há que se apontar que um número significativo de construções foi reformado a partir de meados de abril de 2006, tendo em vista a seguinte situação:
Proprietários ou detentores de concessões de túmulos nos cemitérios municipais São José e Santa Luiza, que não promoveram obras de recuperação ou manutenção desses espaços naquele campo santo têm menos de 90 dias para se manifestar. Alerta nesse sentido vem sendo feito através de cartazes e comunicações, nos próprios cemitérios, por parte da administração municipal. Trata-se, segundo o secretário municipal de Obras e Serviços Públicos, Olímpio Malucelli Filho, de uma medida para fazer com que os proprietários ou detentores de concessões recuperem, restaurem ou ao menos deixem em condições os túmulos dos principais cemitérios de Ponta Grossa. Para que os detentores desses espaços não possam alegar desconhecimento, a Secretaria de Obras, através do Serviço Funerário Municipal, identificou cada um dos túmulos que devem ser recuperados com uma marca em tinta vermelha. No Cemitério São José, há cerca de 400 sepultaras assinaladas e, no Santa Luzia, mais de 500, segundo os registros da Secretaria de Obras. (...) se não forem tomadas as providências devidas, o poder público vai reassumir a titularidade das concessões. Isso porque, explica Geraldo Kapp, diretor do Departamento de Serviços Urbanos, os dois cemitérios já estão completamente tomados, e existem diversos túmulos que há muitos anos não são mais visitados e ainda mais significativo não recebem qualquer manutenção. (...) Os espaços até então ocupados serão, dentro da ordem de requisição e solicitação, cedidos a novos interessados. O diretor do Departamento de Serviços Urbanos diz que o interesse do governo é tanto melhorar o visual e a
segurança dos cemitérios, como atender ao grande número de pessoas que procuram o Serviço Funerário em busca de espaços nesses dois campos santos. Até agora, segundo Kapp, o resultado da marcação dos túmulos tem sido excelente: dezenas de famílias já procuraram o Serviço Funerário Municipal, e muitas já começaram as obras de recuperação e manutenção dos túmulos. “Muita gente está atendendo à nossa convocação e voltando a cuidar dos túmulos”, revela Kapp. (...) [sem grifo no original]. 28
Dessa forma, percebemos a preocupação por parte do poder público com a configuração dos “principais” cemitérios da cidade. Sob pena de reassumir a titularidade das concessões perpétuas, a administração municipal impôs a necessidade de recuperação e/ou restauração de determinadas construções, marcando as mesmas com tinta vermelha. Tal imposição foi justificada pelo fato de que os cemitérios em questão estão ocupados, todavia muitos dos túmulos não eram mais visitados e, além disso, não recebiam manutenção. Não havendo interesse manifestado na recuperação dos túmulos marcados, os mesmos seriam destinados a novos interessados. Além disso, a medida objetiva “melhorar o visual e a segurança dos cemitérios”.
Ressaltamos que essas medidas acabaram por interferir na distribuição espacial da necrópole, sendo que grande parte dos túmulos marcados pelo poder público, e que estavam deteriorados, foram restaurados e passaram a compor o grupo dos túmulos em ótimo estado de conservação, o que reforça a “maioria” encontrada, resguardadas as devidas proporções: do total das construções catalogadas, 46,3% se encontram em ótimo estado de conservação. Infelizmente, alguns dos túmulos não foram reformados, mas demolidos. Todavia, ainda que não possamos aferir exatamente quantos túmulos sofreram mudanças em função desta medida, não acreditamos que a quantidade de túmulos que passaram a ter ótimo estado de conservação tenha alterado a configuração anterior, no que se refere à conservação, de forma drástica.
Ainda assim, denota-se que através de tais medidas o poder público promove e reforça a hierarquização através da regulamentação das distinções territoriais do espaço cemiterial, além de estar voltado para a valorização urbanística do espaço do cemitério. O Cemitério Municipal São José é comumente reconhecido como o “Cemitério dos Ricos”, quando comparado aos demais cemitérios públicos de Ponta Grossa, o que reforça a preocupação com o estado de conservação do mesmo, ainda mais se levarmos em conta a proposta do espaço cemiterial como um espelho sócio-cultural do meio que o produziu.
28 PREFEITURA MUNICIPAL DE PONTA GROSSA. Prefeitura dá prazo para manutenção de túmulos.
A existência das áreas de concentração de determinados elementos, como apontado, e a possibilidade de áreas mais valorizadas dentro do traçado arquitetônico da necrópole nos leva a tecer algumas reflexões, antes de prosseguirmos. A exemplo de Lefebvre (2011, p. 52), pontuamos que a cidade – onde incluímos a cidade dos mortos – “é obra a ser
associada mais com a obra de arte do que com o simples produto material.” Com isso
queremos afirmar que, mais do que metragens, cores e tinta, a análise de elementos como área e conservação acabam por revelar disposições humanas que produzem a cidade e as próprias relações sociais na mesma.
Ao verificarmos os agrupamentos e, por oposição, a dispersão de determinados elementos no Cemitério Municipal São José, como vimos ocorrer com área e conservação até agora, por exemplo, também evidenciamos a manutenção de certas práticas sociais. Com a instituição dos cemitérios extramuros e, posteriormente, sua secularização, o homem não deixou de representar a si e às suas relações sociais em suas práticas fúnebres. Ao contrário, o cemitério público permitiu novas formas de exposição de tais relações, oportunizou novas estratégias para a exibição da própria identidade humana. Tal exposição é muitas vezes explorada através da representação e da discriminação dos estratos sociais, cuja leitura é válida, não somente em si mesma, enquanto expressão material. Mais do que isso, esta reflexão é relevante porque as “relações sociais são atingidas a partir do sensível”, do elemento material (LEFEBVRE, 2011, p. 52).
3.3 MATERIAL DOS TÚMULOS: ENTRE INVESTIMENTOS E REVESTIMENTOS
No trabalho de campo verificamos que o estado de conservação dos túmulos é influenciado principalmente pelo material escolhido pelos proprietários para o revestimento das construções29. Para o levantamento deste atributo, há que se observar que consideramos o material predominantemente utilizado no revestimento, ou seja, ainda que haja túmulos que combinem materiais, por exemplo, cerâmica e mármore, a classificação se deu priorizando o material utilizado em maior medida. Na forma espacial da necrópole, ainda que haja maior incidência do uso da alvenaria e da cerâmica como revestimento, não constatamos um padrão de distribuição dos materiais como um todo, os quais se encontram espacialmente espalhados de forma equilibrada. Divididos entre alvenaria, cerâmica, mármore e pedra, os túmulos apresentam a seguinte configuração espacial:
29 Para informações técnicas sobre o revestimento das construções, consultamos: YAZIGI, Walid. A técnica de
CARTOGRAMA 7 – Material predominante dos túmulos.