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Um Estado Desonesto e um Poder Político Capturado pelo Poder Invisível

EFEITOS SOB OS DIREITOS HUMANOS

CORRUPÇÃO E SEUS EFEITOS SOB OS DIREITOS HUMANOS

5. Um Estado Desonesto e um Poder Político Capturado pelo Poder Invisível

Os direitos humanos, portanto, como se pôde depreender, acabam por se colocar eles próprios como um ponto a ser considerado no combate à corrupção, enquanto se adote a transparência, a não‑discriminação e a efetiva participação do homem na sociedade, parâmetros que vão ao encontro de seus princípios fundamentais. De outra forma, continuar‑se‑ia a preponderância de um jogo desonesto havido entre grupos e governabilidades que se demonstram ilegítimas, haja vista a distorção de seu real compromisso com a sociedade, resul‑ tando, em uma verdadeira tirania. O fenômeno, longe de ser regional, tem seus braços estendidos por todo o globo. Não apenas lhes dá causa a má função do cargo público ocupado, mas também por meio de empresas.

Porque existe a corrupção do Estado e no Estado? Como dissemos nas linhas iniciais do presente artigo, entre algumas das causas da corrupção estão a ineficiência administrativa, a instabilidade política e o subdesenvolvimento da economia. Tais pontos proporcionam terreno fértil para a desonestidade, que por sua vez, se mostra como comparada a uma espécie de tirania, mormente praticada por grupos empresariais, polí‑

(21) BRASIL. Decreto n. 591, de 6 de julho de 1992. Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais. Promulgação. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1990‑1994/ D0591.htm>. Acesso em 09 fev 2018.

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ticos em meio a um sistema de governabilidade que empre‑ endem pelo fenômeno da corrupção o amealhar de recursos públicos em proveito próprio, obtendo assim, não raro, uma maneira de voltar a usar os recursos desviados para a compra de políticos e empresários, valendo‑se do poder econômico em tempos de campanha política. Ora pois...

E como não falar de democracia em todo esse contexto? A democracia moderna é uma reinvenção da democracia dos antigos, porquanto naqueles tempos não se falava em direitos como se os têm atualmente reconhecidos. Os Estados Unidos, por exemplo, ao recriar a democracia, teceu rígidos parâme‑ tros para seu exercício. Não à toa, para Thomas Jefferson que governou os Estados Unidos, toda a arte de governar consiste em ser honesto. Em artigo escrito para o jornal Folha de São Paulo, ainda em meados dos anos 90, o megaempresário Antô‑

nio Ermírio de Moraes(22) escrevia compreender a democracia

como um “processo lento, baseado em longas cadeias de erros e acertos –sendo que a descoberta dos erros é tão importante quanto os resultados dos acertos”. E concluía ele, afirmando que a transparência que despontava entre os brasileiros seria fundamental para o progresso democrático.

Aqui, questionamos: poder‑se‑ia afirmar que um Estado desonesto detém um poder ilegítimo, porquanto traia seu com‑ promisso de servir à sociedade, obstruindo o acesso a direitos fundamentais tendo em vista a prática da corrupção? Sabe‑se bem que, e já o comentamos anteriormente, uma das faces mais cruéis de uma situação como esta é a descrença e o desencan‑

(22) MORAES, Antônio Ermírio de. A lição de Thomas Jefferson. Folha de São Paulo. 04/12/94. Disponí‑

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tamento que se apoderam do pensamento coletivo. O reflexo de um Estado corrupto é uma atitude social massiva de des‑ valor que passa imperar no seio da sociedade. Mas, enfim, o Estado desonesto traduz um poder legítimo?

A este contexto, uma análise anterior. Ingresso ao poder mediante eleições democráticas, tem‑se um poder legítimo, contudo, ao adotar medidas ao longo de seu curso, que tradu‑ zam disparidades para com o que estrutura o Estado de Direito, e aí se tem presente também o fenômeno da corrupção, sabe‑ ‑se, há mecanismos jurídicos para destituir o governo em curso. Contudo, resta‑nos o aspecto ético, sim, pois, mesmo adotando medidas que possam ser ilegais, tais atos podem ser conside‑ rados necessários, e vistos pela comunidade como legítimos, assim como o contrário também é verdadeiro, sendo vistas determinadas medidas como injustas e eticamente reprová‑ veis.

Em face desta realidade, questionamos ainda: Que ele‑ mento nos une enquanto nação? Qual o sentimento que ainda nos mantém coesos enquanto um povo? Que crenças e valo‑ res, em um contexto de corrupção sistêmica e endêmica, ainda sobrevivem? Estas preocupações têm grande relevân‑ cia quando se constata que, no regime democrático, o Estado não pode quebrar o vínculo de confiança com a sociedade. Em sentido político, o Estado ao romper com os valores cívi‑ cos, éticos e morais degrada a dimensão pública, porquanto se afasta da condição basilar de uma democracia que é a virtude da honestidade. Aqui, ressalto o já mencionado pelo empre‑ sário Antônio Ermírio de Moraes, ao referir‑se ao presidente

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americano Thomas Jefferson, constitucionalista que governou os EUA, de 1801 a 1809, afirmando que toda a arte de gover‑ nar consiste em ser honesto.

Um Estado desonesto, portanto, é, sim, um poder ilegí‑ timo, porquanto trai seu compromisso de servir à sociedade. Na expressão do Prof. José Renato Nalini, “Quando os de cima não dão o exemplo, os de baixo se sentem liberados”, ressaltando ainda a expressão do filósofo espanhol novecentista Jaime Balmes, que afirmou: “Não nos esqueçamos que, quando o Poder dirige sua mira para o bem pessoal de quem o exerce, já degenerou em tirania”.(23)

Aqui, resta‑nos a reflexão quanto aos fatos do poder polí‑ tico que fora capturado pelo poder invisível, a saber, o poder que busca o retorno à administração patrimonialista, que visa permanecer pelo viés unilateral e autoritário, em especial por aliar‑se a empresas que se apresentam como agentes corrup‑ tores, fazendo com que a transparência seja, quando muito, apenas um discurso vazio. Norberto Bobbio aponta as pro‑ messas não cumpridas pela democracia, desde seus primór‑ dios oitocentistas.(24) Toda luta contra a opacidade do poder

político que permeia o ideário das Revoluções Liberais, ainda está por se concretizar. A almejada transparência, o dever de visibilidade, de cognoscibilidade e de controle soberano do povo ainda não saiu do texto legal.

(23) NALINI, José Renato. Quando os de cima não dão o exemplo, os de baixo se sentem liberados, diz o presidente do TJ-SP. Jornal Estado de São Paulo. 02/02/15. Disponível em: <http://politica.estadao.

com.br/blogs/fausto‑macedo/quando‑os‑de‑cima‑nao‑dao‑o‑exemplo‑os‑de‑baixo‑se‑sentem‑libera‑ dos‑diz‑presidente‑do‑tj‑sp/>. Acesso em 10 fev 2018.

(24) BOBBIO, Norberto. O futuro da democracia. Uma defesa das regras do jogo. Tradução: Marco Au‑

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Atente‑se ao papel fundamental do Poder Legislativo na fiscalização das contas do Estado. Ao que nos consta, desde a implantação da República do Brasil, somente com impeachment da ex‑Presidente Dilma Roussef é que o TCU e o Congresso apontaram irregularidades nas contas do Poder Executivo. A pergunta que se faz é a seguinte: Que Poder Legislativo é este que deixa de cumprir a sua missão principal que é o da repre‑ sentação da sociedade em uma democracia? O que temos, no ontem e no hoje, e provavelmente no amanhã, pode‑se se chamar democracia?

O poder invisível na democracia parlamentar parece ser a tônica no jogo político que leva à perda de sua credibilidade. Uma das estratégias mais utilizadas é a definição de maioria apenas pelas lideranças de bancadas. Ora, nesse contexto, a manipulação dos senhores líderes será sempre no interesse privado e nunca no interesse público. O parlamentar, isolada‑ mente, não possui independência para votar de acordo com o seu representado.

Nessa linha, subornos, desvios de verbas em benefício dos partidos, entre outras artimanhas, determinando coalisões, com‑ prometendo a independência de suas funções, sobretudo em conluio com empresas que vão desde o pequeno ao grande porte, em qualquer esfera de governo, tudo acaba por contribuir para perpetrar uma agressão direta aos direitos humanos, inde‑ corosa e indecente em todos os sentidos, sobretudo por impin‑ gir aos mais pobres um estado de penúria cruel e inaceitável.

Outrora já meditávamos na questão em que se mostra clara a versão formal de poder político atual, existindo uma ambiva‑

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lência da atuação do Estado: um público e o cidadão na porta da frente, e um público de clientes na porta dos fundos. Em outro sentido, infere‑se um comportamento promíscuo do sis‑ tema político, no qual pessoas e partidos atuam como sócios, visando interesses nada republicanos. Foi então que levanta‑ mos a questão: que legitimação é essa, formada por grupos de pressão em associação com o Estado, sempre parciais, que não representam a totalidade da sociedade? A explicação, res‑ pondíamos, nos parece intuitiva quando se avalia a captura do poder por interesses setoriais da sociedade.

Enfim, é comum, portanto, que o Estado seja capturado por interesses econômicos, e a linha entre política e negócios pri‑ vados se torna tênue, dirigindo interesses empresariais. Tam‑ bém a captura do poder judiciário tem a atenção da dominação econômica empresarial, e este é um ponto em que se ressalta somente a independência para a aplicação das sanções judi‑ ciais poderá fazer frente aos desmandos testemunhados em todo o mundo. O fato é que mecanismos de combate à cor‑ rupção devem ser independentes. O papel da sociedade civil, assim como a mídia, também exerce papel importante nesse combate, perseguindo e apontando conflitos de interesses em contextos em que funcionários públicos se vejam envolvidos por negócios privados ou mesmo com a política.

As empresas, sabe‑se, são os principais agentes corruptores do Estado. Expor‑se‑á, a seguir, mediante um exemplo con‑ creto, como o mundo corporativo age no sentido de cooptação do poder político visando interesses privados. As corporações empresariais e seus prepostos desconhecem limites e aí reside

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uma das fontes mais conhecidas de corrupção e desrespeito aos direitos humanos. Na África, milhões perdem suas vidas em guerras causadas pela ganância de empresas que não dese‑ jam pagar o preço justo por recursos naturais. Na Europa e na Ásia, milhões adoecem vítimas de níveis de poluição que somente a insensatez do lucro a qualquer custo os explica. Nos EUA, milhões perdem suas casas e seus empregos por conta da especulação financeira de algumas poucas corporações.

Fiquemos apenas no caso africano. O caso do Coltan e a

guerra do Congo.(25) O ‘Coltan’ é a combinação de duas pala‑

vras que correspondem aos minerais, columbita e tantalita, dos quais se extraem metais mais cobiçados do que o ouro. Pois bem, Ruanda e Uganda ocupam militarmente parte do territó‑ rio congolês. O Coltan é essencial para as novas tecnologias, estações espaciais, naves tripuladas que se lançam no espaço e às armas mais sofisticadas. Segundo dados da ONU a guerra liderada por Ruanda e Uganda já vitimou 5 milhões de seres humanos. Foram identificadas 157 empresas ocidentais envol‑ vidas, e calculou‑se que um telefone celular fabricado com matéria‑prima daquela região custa a vida de duas crianças. Pasmem: sequer sabemos os nomes destas empresas! Esse é um pequeno exemplo de como o poder invisível destrói seres humanos.

(25) REVISTA FÓRUM SEMANAL. Os “Minerais de Conflito” do Congo. Por Vinicius Gomes. 06/06/14.

Disponível em: <https://www.revistaforum.com.br/digital/150/os‑minerais‑de‑conflito‑congo/>. Aces‑ so em: 10 fev 2018.

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6. A crise e o risco da democracia diante dos populismos