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Estado liberal: princípios e constituição

CAPÍTULO 1 – AS FORMAS HISTÓRICAS DA FORMAÇÃO E CONSTITUIÇÃO DO ESTADO

1.1. A origem do Estado e suas formas históricas: considerações iniciais

1.1.2 Estado liberal: princípios e constituição

Três fatos históricos marcaram a condução do Estado Liberal: a Revolução Inglesa, em 1689, influenciada por Locke; a Revolução Americana, resultando na Declaração de Independência das treze colônias americanas, em 1776; e a Revolução Francesa, cujos princípios foram expressos na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, de 1789, com a influência de Rousseau.

No que se refere ao Estado Liberal em Locke, este considera que todos os homens nascem livres e iguais, afirmando os direitos naturais dos indivíduos. Os direitos naturais dos indivíduos representam, portanto, o seu Estado de Natureza. Neste Estado, a regra moral, que é natural, propõe que a limitação do indivíduo está no não prejuízo à vida, à liberdade e às posses dos seus semelhantes.

Ao afirmar tal proposição, Locke aproxima-se da concepção romana do jus naturale, que representa o conjunto de princípios universais de justiça válidos a todos. O direito fundamental da preservação dos homens depende de cada um. “Cabe ao indivíduo a produção material de sua existência, mas ele precisa se associar a outros homens se quiser reter o resultado dessa produção”. (FERREIRA, 1993, p. 72)

Para Locke, os direitos naturais do homem são limitados à própria pessoa. Sendo assim, o direito de propriedade é exercido a partir do seu próprio trabalho. O indivíduo é proprietário de tudo o que consegue com a força de seu trabalho. Dessa forma, o Estado Natural representa, ainda, paz, boa vontade e reciprocidade entre os homens, pois todos são livres e iguais.

No entanto, essa harmonia pode ser quebrada em razão do vício e do amor próprio de alguns indivíduos que transgridem a moral. Para que essa harmonia seja reestabelecida, o Estado surge como elemento que irá redirecionar todos os indivíduos ao bem comum.

A designação de um juiz comum está, portanto, na origem da sociedade política, que resulta da associação dos indivíduos, de modo a formar um só corpo, com um sistema jurídico e judiciário comum, ao qual podem recorrer e que tem competência para dirimir as disputas individuais. Assim, o pacto social é um acordo que envolve os indivíduos em geral. Um grupo de indivíduos passa a ter o direito legítimo de governar. (FERREIRA, 1993, p. 82)

Assim, a passagem do Estado de Natureza dos indivíduos para o Estado Civil se dá mediante um pacto, no qual o indivíduo renuncia aos seus direitos originais em prol do bem comum, passando todos a obedecer às leis. Logo, o poder legislativo, representando o governo da maioria, asseguraria a liberdade dos cidadãos. Nesse sentido, as leis estabelecidas seriam promulgadas e conhecidas do povo e o poder estaria sujeito ao povo, promovendo a democracia.

Sobre a democracia, Locke apud Dallari (1998, p. 55) afirma que:

Tendo a maioria, quando de início os homens se reúnem em sociedade, todo o poder da comunidade naturalmente em si, pode empregá-lo para fazer leis destinadas à comunidade de tempos em tempos, as quais se executam por meio de funcionários que ela própria nomeia: nesse caso, a forma de governo é uma perfeita democracia.

Sendo, então, este Estado Liberal, democrático, deve estar à serviço da sociedade, zelar pela harmonia, regular as relações formais entre os indivíduos, elaborando e fazendo-se cumprir as leis, ao mesmo tempo em que mantém a propriedade de cada indivíduo e sua segurança pessoal. A legislação, portanto, se aplica a todos, sem exceção.

No entanto, para Locke, os indivíduos que têm direitos políticos são todos proprietários, excluindo aqueles que não possuam propriedade. Daí, considera-se apenas um

grupo homogêneo na determinação das regras morais e ferindo, portanto, o ideal de que todos são iguais.

Ainda sobre os direitos políticos dos indivíduos, o governante não pode interferir na vida particular do indivíduo, já que este é livre em relação aos outros. “A liberdade que existia no Estado de Natureza não desaparece ao se instituir o poder civil. A diferença é que, no Estado de Natureza, as limitações individuais eram trazidas pela razão, agora são instituídas pela lei” (FERREIRA, 1993, p. 91).

Ao limitar a ação do Estado à vida coletiva dos indivíduos, Locke defende a autonomia do mercado como manifestação da livre vontade dos indivíduos. A concorrência é legítima, baseada nas aptidões pessoais e na manutenção de uma ordem social justa. Por ser tratar de uma ação espontânea dos indivíduos, Locke propõe a garantia estatal de um mercado livre, fundado no princípio do mercado auto regulável e independente da esfera política.

Também inspirado pelo princípio do jus naturale, Rousseau reafirma a necessidade de um contrato social para a passagem do Estado de Natureza para o Estado Civil.

Diferentemente de Locke, Rousseau entende que a sociedade civil é uma constituição real dos indivíduos e corrupta. Em seu Estado natural o homem encontra-se sem maldade. A posse da propriedade e a formação da própria sociedade civil é que o corrompe.

A partir do momento em que pareceu vantajoso para um homem possuir provisões suficientes para dois, a igualdade desapareceu; a propriedade foi introduzida; o trabalho tornou-se necessário; as vastas florestas tornaram-se campos risonhos que tinham que ser regados com o suor humano e onde a escravidão e a miséria eram logo vistas, germinando e crescendo com as colheitas. (ROUSSEAU apud CARNOY, 1988, p. 32)

Disto, tem-se que no Estado natural, o grupo preservava a segurança de todos e o direito de cada um. Quando se institui a propriedade, criam-se as leis e o direito da propriedade, resultando na relação conflitante entre ricos e pobres. Daí, a necessidade do poder estatal para regular os conflitos e executar as leis.

De tal modo, Rousseau considerou que o Estado age sob a direção da vontade geral, rompendo com a liberdade ilimitada do Estado natural, a fim de que todos os cidadãos sejam tratados igualmente. A liberdade natural, fundada na satisfação das necessidades, é substituída por necessidades recíprocas dos indivíduos, que se associam e tentam resolver questões comuns.

Ora, como é impossível aos homens engendrar novas forças, mas apenas unir e dirigir as existentes, não lhes resta outro meio, para se conservarem, senão formando, por agregação, uma soma de forças que possa arrastá-los pela resistência, pô-los em movimento em por um único móbil, e fazê-los agir de comum acordo. (ROUSSEAU, 2002, p. 23)

Defende, portanto, que as relações entre governo e cidadãos sejam modificadas e uma nova ordem moral seja constituída. “É de tal importância a vida grupal, que a todo custo o homem a preserva. Por desejo de conservá-la e conservar-se, dá o grupo parte de si mesmo, subordina seus instintos, aceita seus interditos, submete-se às leis”. (FERREIRA, 1993, p. 121)

O contrato social, por conseguinte, representa uma forma de associação que defende e protege a força comum, a pessoa e o bem de cada associado, pela qual todos se tornam unidos, permanecendo livres. O que o homem perde pelo contrato social é a liberdade natural e um direito ilimitado a tudo o que tenta e pode alcançar; o que ganha é a liberdade civil e propriedade de tudo o que possui. (ROUSSEAU, 2002, p. 31)

Vale ressaltar que, para Rousseau, a lei só é legítima se for para benefício de todos. Caso haja desordem social, é necessária a criação de outra ordem, outro contrato social, que garanta a sobrevivência do grupo. Logo, a ordem social se dá por um sistema de convenções e não de forma natural; o homem não nasce cidadão, mas se torna a partir das convenções.

Portanto, o cidadão para Rousseau é um homem racional e livre que, quando chamado para atuar politicamente da sociedade, se constituiu em um servidor do bem comum. E ainda, a passagem do Estado natural para o Estado civil produziu mudança significativa à conduta do indivíduo, imprimindo-lhe a moralidade outrora inexistente. Ao invés de olhar para si mesmo, o indivíduo passa a olhar para o dever, que é coletivo.

Ora, o bem comum e a vontade geral em Rousseau está no próprio Estado, que deve manter a unidade das partes para a sua própria permanência. Disto, a matéria que resulta que da vontade geral estatui a lei, e não pertence ao legislativo qualquer função que se relacione com um objeto individual.

No tocante a esta ideia, vê-se imediatamente não mais ser preciso perguntar a quem compete fazer as leis, pois que elas constituem atos da vontade geral; nem se o príncipe se constitui acima das leis, pois ele é membro do Estado; nem se a lei pode se injusta, pois ninguém é injusto consigo mesmo; nem em que sentido somos livres e sujeitos às leis; pois que estas são apenas registros de nossas vontades. (ROUSSEAU, 2002, p. 53)

Deste modo, as leis representam as condições da associação social, no qual compete aos associados regulamentar sobre a sociedade.

Disto, Rousseau propõe que no Estado há dois tipos de poder: o legislativo (Estado), pertencente ao povo, e o executivo (soberano). Neste contexto, o governo representa a forma intermediária encarregado da execução das leis e manutenção da liberdade, o exercício legítimo do poder executivo. Além disso, o Estado existe por si mesmo, enquanto que o governo depende do soberano. Assim, o Estado deve se mostrar sempre prestes a sacrificar o governo ao povo, e não o povo ao governo, com vistas à manutenção do bem comum, pois nada é mais perigoso que a influência dos interesses privados nos negócios públicos; e o abuso das leis por parte do governo constitui um mal menor que a corrupção por parte do legislador, continuação infalível dos alvos particulares.

Enfim, quando o Estado, próximo de sua ruína, apenas subsiste através de uma forma vã e ilusória, quando o laço social se rompe em todos os corações, quando o mais vil interesse se adorna afrontosamente com o nome sagrado do bem público, então a vontade geral emudece, todos, guiados por motivos secretos, deixam de opinar como cidadãos, como se o Estado jamais tivesse existido, e são aprovados falsamente, a título de leis, decretos iníquos, cujo fim é o interesse particular. (ROUSSEAU, 2002, p. 144)

Com essa lógica, Rousseau ainda admite a dissolução do Estado em duas situações. A primeira acontece quando o Estado não é mais administrado conforme as leis (que são estabelecidas pelo povo) e usurpa o soberano. O grande Estado se dissolve e se forma outro no seu interior, composto pelos membros do governo. Esse outro Estado se torna, em relação ao povo, o senhor e o tirano. Quando a usurpação da soberania parte do governo, o pacto social é rompido, e todos os cidadãos são forçados a obedecer.

A segunda situação de dissolução do Estado acontece quando os membros do governo usurpam separadamente o poder, produzindo maior desordem. Quando o Estado é dissolvido, toma o nome de anarquia. Cabe, portanto, aos homens também proteger o Estado. “Não depende dos homens a prolongação de sua vida; mas depende deles prolongar a do Estado tanto quanto possível; dando-lhe a melhor constituição que possa existir” (ROUSSEAU, 2002, p. 122).

Para que o Estado se torne mais forte e melhor governado, Rousseau afirma a necessidade de se povoar por igual todo o seu território, estender por toda parte os mesmos direitos e levar vida e abundância a todos os lugares.