2.3 Modelos econômicos de Estado
2.3.5 Estado “neoliberal”
A criação de um novo modelo de Estado, motivado pela crise dos Estados decorrente do agigantamento da estrutura, cuja base ideológica se funda no retorno ao liberalismo de forma mitigada, impulsionou a criação do modelo neoliberal de Estado. Esse modelo tem como premissas básicas a redução do aparelho estatal, a valorização das forças do mercado e a formação de um Estado financeiramente sustentável.
Tavares (2011, p. 60) ressalta que:
Em decorrência do panorama de crises que se instalou, assistese, mais recentemente, a uma mudança de parâmetros para a atuação do Estado, numa retomada comedida dos ideais concebidos para o Estado liberal, em face da crise observada tanto no modelo do Welfare State quando no modelo socialista de economia.
O novo modelo de Estado, baseado em premissas liberais, tem como principal escopo a redução do Estado com a diminuição do seu papel de promotor da liberdade e igualdade social, de modo a reduzir/eliminar a intervenção estatal necessária à implementação de direitos sociais prestacionais24.
Há o fortalecimento da concepção de que o mecanismo de mercado livre, o afastamento do Estado do mercado e a diminuição da carga prestacional social assegurarão maior eficiência à estrutura que, limitada ao núcleo essencial, atenderá de melhor forma às necessidades prioritárias.
Há a formação de um novo modelo de Estado, por alguns denominado ‘neoliberal’. Fundase essa atual concepção da presença do Estado sobre a economia, portanto, na revalorização das forças do mercado, na defesa da desestatização e na busca de um Estado financeiramente mais eficiente, probo e equilibrado, reduzindose os encargos sociais criados no pósguerra, ainda que sem afastar totalmente o Estado da prestação de serviços essenciais, anteriormente referido (TAVARES, 2011, p. 61).
O modelo neoliberal não prega o afastamento total do Estado na promoção dos direitos sociais, no entanto, estabelece como essencial e necessária à sua manutenção a redução dos direitos sociais providos pelo Estado, ressaltando que as demais necessidades ao pleno desenvolvimento das capacidades da pessoa devem ser promovidas pelo mercado.
A crítica ao sistema neoliberal está sedimentada na retomada do pensamento liberal egoístico e o afastamento do Estado de sua atribuição típica de assegurar direitos
24 “Fica evidenciado que a globalização e o neoliberalismo constituem um óbice à efetividade dos direitos
sociais. Neste diapasão, como corolário da miniaturização do Estado, concebida como a erosão da sabedoria do Estado e de suas capacidades regulatórias, que está ocorrendo um processo de desuniversalização dos direitos sociais, eis que a redução da atividade estatal acaba por dissipálos, posto que a atuação do Estado é indispensável para sua implementação” (LIMA, 2006, p. 15).
fundamentais e promover o desenvolvimento das capacidades, visando a garantir existência digna. Como destaca Grau (2012, p. 48):
O capitalismo é essencialmente conformado pela microrracionalidade da empresa, não pela macrorracionalidade reclamada pela sociedade. Mais do que apenas isso, no entanto, o neoliberalismo é fundamentalmente antissocial, gerando consequências que unicamente as unanimidades cegas não reconhecem. O desemprego estrutural na Comunidade Européia alcança cifras elevadíssimas. Os países avançados suportam a estagnação econômica, com o empobrecimento dos assalariados. A América Latina passa por um processo de marcante desindustrialização. Os Estados nacionais, cujas dívidas explodem uma vez que seus títulos públicos alimentam o capital a juros globalizados, entram em situação de falência fiscal.
A reconstrução do modelo de Estado fundado na premissa da liberdade de mercado, com a redução da intervenção do Estado na promoção de políticas públicas implementadoras dos direitos fundamentais, vem demonstrando a retomada dos problemas verificados na concepção liberal clássica, em especial o aumento das desigualdades que, ao final, levam à escravização do homem pelo homem. Isso porque, inexistindo condições mínimas de liberdade e igualdade material, não há como assegurar a liberdade de opção necessária ao pleno desenvolvimento das capacidades humanas.
O resultado da implementação da concepção neoliberal de Estado tem se verificado pelos números representativos do crescimento econômico e pelo aumento da taxa de desemprego. Grau (2012, p. 51), com a precisão que lhe é peculiar, destaca:
As taxas de crescimento são inferiores às do período ‘intervencionista’. Além disso, o capitalismo falha escandalosamente em sua capacidade de gerar empregos, de oferecer segurança aos que consegue empregar e de alentar os empregados com as perspectivas de melhores salários. Aumentam significativamente as desigualdades, tanto nas sociedades desenvolvidas quanto nas regiões periféricas.
É importante destacar, como será abordado oportunamente, que o crescimento econômico é essencial ao integral desenvolvimento das capacidades, entretanto, a falta de distribuição equilibrada das externalidades positivas tem sido o grande problema.
A concentração de renda em decorrência da centralização em pequena parcela da população dos benefícios auferidos com o progresso econômico tem ocasionado o aumento da desigualdade na distribuição de renda que vem provocado problemas sociais graves, com aviltamento dos valores comezinhos assegurados à pessoa humana
O professor Lima (2006, p. 13) da Universidade Federal do Paraná, em artigo denominado “A globalização econômica e a dissipação dos direitos sociais”, destaca os efeitos negativos da globalização econômica neoliberal:
A existência de uma crescente exclusão social, caracterizada pela precarização das condições de trabalho, pela disseminação do desemprego crônico, baixos níveis salariais, perdas das garantias sociais dos cidadãos e pela geração de um quadro de pobreza estrutural, que compromete a participação dos cidadãos nos âmbitos político
e jurídico, eis que os cidadãos não têm garantidas condições mínimas e dignas de existência para participarem politicamente.
A redução de direitos sociais destinados ao pleno desenvolvimento das capacidades (liberdade e igualdade materiais) afeta a dignidade do homem e compromete a coesão social, vilipendiando, assim, o Estado Democrático de Direito. Nesse sentido:
Há marcante contradição entre o neoliberalismo – que exclui, marginaliza – e a democracia, que supõe o acesso de um número cada vez maior de cidadãos aos bens sociais. Por isso dizemos que a racionalidade econômica do neoliberalismo já elegeu seu principal inimigo: o Estado Democrático de Direito (GRAU, 2012, p. 55).
Por fim, é importante destacar que neoliberalismo e globalização não se confundem: esta é fato histórico decorrente da revolução industrial moderna; aquele, por sua vez, é ideologia econômica. Como destaca Eros Roberto Grau, a globalização poderia conviver, perfeitamente, com outras ideologias hegemônicas (Cf. GRAU, 2012, p. 54).