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CAPÍTULO 3 A DETERIORAÇÃO DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS DO

3.2 Os críticos de Mugabe

3.2.4 Estados Unidos da América

Frente à utilização política da violência e da reforma agrária na primeira metade do ano 2000, os EUA se juntaram aos críticos de Mugabe:

While economic growth has been uneven during these 20 years and the government has never been what we would call “market friendly”, there was a pragmatic streak to government policies in the political and economic arena. We are talking, after all, about the second most

202

Human Rights Monitor. Op. cit. Outubro 2001.

203 Business Day, “Commonwealth sidesteps Harare”, 26/10/2000.

204 Reuters, “Commonwealth to mull Zimbabwe sanctions in 2 weeks”, 15/12/2001. 205

Electoral Institute for the Sustainability of Democracy in Africa, “Zimbabwe: 2002 International statements”, março 2002. Disponível em http://www.eisa.org.za/WEP/zim2002int.htm, acessado em 28/10/2010.

206 Report of the Commonwealth Observer Group, The Parliamentary Elections in Zimbabwe, 24-25 June 2000. p. 14.

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important economy in the [Southern Africa] subregion, a pivot for regional integration and development, and a nation whose institutions have at times played an important and constructive regional role. Sadly, those legacies have gone out the window. Zimbabwe's policies of pragmatism, reconciliation and regional cooperation have been replaced by the politics of greedy adventurism in the region – most notably, of course, in the Congo – and the politics of envy and racial

scapegoating at home.207

O Congresso norte-americano reconhecia que, historicamente, as eleições do Zimbábue “frequently included the arbitrary use of official power, an uneven playing

field for opposition candidates, and the occasional resort to tactics of intimidation,”

mas acreditava que até a década de 1990 tais práticas tinham sido limitadas, pois a oposição não tinha forças para apresentar um desafio real ao governo da ZANU-PF.208 É interessante que, embora acreditasse que “No matter what President Mugabe and his

lieutenants may declare publicly, Zimbabwe's troubles are of their own making,” o

Congresso reconhecia o papel da comunidade internacional na crise do Zimbábue por não ter imposto limites às ações problemáticas de Mugabe na década de 1980.

The U.S. and the international community have sowed the seeds for today's crisis, sweeping these troubling realities under the rug for years, and indulging the Mugabe government with aid. U.S. bilateral aid alone has totaled $750 million, while the Mugabe government has

bought luxury properties abroad.209

Washington suspendeu qualquer apoio para a reforma agrária e ameaçou encerrar a ajuda bilateral ao Zimbábue devido às políticas do governo e à ação militar na RDC, e incentivou outros doadores e os Estados vizinhos do Zimbábue a pressionarem Mugabe.210 No início de maio de 2000, foi introduzida no Congresso uma resolução que demandava do governo norte-americano que condenasse a violência do governo do Zimbábue contra seus cidadãos. Tal medida foi vista por Mugabe como uma campanha para coagir e forçar Mugabe a se submeter às demandas ocidentais.211

207 CROCKER, Chester A., Former Assistant Secretary Bureau of African Affairs, Testimony Before the House International Relations Committee Subcommittee on Africa, Washington, DC, 13/06/2000. 208 Idem.

209

ROYCE, Ed, Chairman Subcommittee on Africa Committee, U.S House of Representatives, Opening Statement for Hearing Entitled “Zimbabwe: Democracy on the Line”, Washington, DC, 13/06/2000. 210 POWELL, Nancy J., Acting Assistant Secretary Bureau of African Affairs, Testimony Before the House International Relations Committee Subcommittee on Africa, Washington, DC, 13/06/2000, Financial Gazette (Harare), “UN warns Mugabe on abuses”, 22/06/2000. PAYNE, Donald M. Ranking Member, Subcommittee on Africa Committee, U.S House of Representatives, Opening Statement for Hearing Entitled "Zimbabwe: Democracy on the Line", Washington, DC, 13/06/2000.

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Em junho, reconhecendo que a violência, a intimidação e as mortes que ocorriam no Zimbábue eram fruto da ação planejada do governo contra a oposição e fazendeiros brancos para se manter no poder, foi proposto no Congresso dos EUA o

Zimbabwe Democracy and Economic Recovery Act (ZDERA). Este ato sugerindo a

imposição de sanções que proibissem Mugabe, seus ministros e oficiais militares, assim como suas respectivas famílias, de entrarem nos EUA.212 Também seria cortada a ajuda bilateral ao Zimbábue, seriam impedidas reduções de sua dívida externa e oficiais norte- americanos em instituições multinacionais de empréstimo foram orientados a se oporem a empréstimos, créditos ou outros benefícios ao Zimbábue. A possibilidade de sanções compreensivas foi rejeitada, pois estas causariam mais problemas para os cidadãos comuns do que para a elite política, responsabilizada pelos problemas do país.213 O ZDERA também previa a duplicação de fundos direcionados a reformas democráticas, e garantia que se o Zimbábue voltasse a ser democrático, os EUA retomariam as doações e contribuiriam com $16 milhões para a reforma agrária.

O senador, Bill Frist, chefe de um subcomitê de assuntos africanos, afirmou que “Increasingly over the last 20 years, President Mugabe's leadership has become more

totalitarian” e que “The farm invasions in Zimbabwe are nothing but a cover for an assault on democracy and the rule of law, the collapse of the economy, and a desperate effort to win over rural, landless voters.” 214 O Congresso norte-americano reconheceu que “President Robert Mugabe is sparing no means to maintain power for his ZANU-

PF,” utilizando poderes especiais oriundos de legislação colonial, comprometendo o

estado de direito, invadindo fazendas ilegalmente e orquestrando violência e intimidação contra a oposição que resultavam em mortes e no colapso da economia do país.215 “The government of Zimbabwe and the ruling ZANU-PF is primarily

212 POWELL, Nancy J., Acting Assistant Secretary Bureau of African Affairs, Testimony Before the House International Relations Committee Subcommittee on Africa, Washington, DC, 13/06/2000, Zimbabwe Independent, “UN Abandons Zimbabwe”, 11/08/2000, IRIN, “New US Legislation To Suspend Aid”, 08/06/2000. Zimbabwe Human Rights Ngo Forum. Human rights and Zimbabwe’s June

2000 Election. Special Report. Janeiro 2001. p. 6.

213

Reuters, “US Sanctions Would Hurt Zimbabwe People –Opposition”, 08/06/2000. 214 Reuters, “US Senate threatens to cut Zim aid”, 08/06/2000.

215 ROYCE, Ed, Chairman Subcommittee on Africa Committee, U.S House of Representatives, Opening Statement for Hearing Entitled "Zimbabwe: Democracy on the Line", Washington, DC, 13/06/2000. The Standard, “US Fears Slide Into Anarchy”, 26/03/2000.

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responsible for these deeply troubling developments and the election climate which we see now in Zimbabwe.”216

Os EUA desejavam enviar observadores para a eleição parlamentar de 2000, que sentiam estarem ameaçadas devido à natureza da campanha eleitoral. Mugabe negou acesso a diplomatas e membros de ONGs como observadores na eleição, afetando diretamente os observadores americanos, fato que teve repercussões negativas na opinião da potência sobre a eleição.217 A má impressão não foi desfeita quando foi permitida, logo antes das votações, a presença dos diplomatas, os EUA reconheceram a atmosfera pacífica nos dias de votação, mas concluíram que irregularidades e a violência na campanha da ZANU-PF impediram a eleição de ser livre ou justa.218

O congresso privilegiava uma postura intervencionista, prevendo que, se as eleições resultassem em uma vitória ilegal da ZANU-PF, seria iniciada uma estratégia de incentivos e punições “treat Zimbabwe like the pariah it appears almost to want to

be, disengage from official relationships and government-to-government programming of any sort, and wait for the pressures to mount”.219 Assim, em agosto, os Estados Unidos da América emitiram um alerta de segurança para os turistas americanos, avisando que a violência e as invasões de fazendas no Zimbábue poderiam ser perigosas para eles.220 Além disso, foram introduzidos requerimentos rigorosos para a obtenção de vistos norte-americanos por zimbabuanos.221

Frente ao endurecimento na posição norte-americana, o Ministro do Exterior do Zimbábue, Stan Mudenge, iniciou um lobby para impedir a imposição das sanções previstas no ZDERA, afirmando que a isto condenaria a economia do Zimbábue. “It's a

bad Bill. It's really dangerous, it's horrible. The Americans want to recolonise Africa

216

The Associate Press, “U.S. Blasts Zimbabwe Election Move”, 21/06/2000, U.S. Department Of State, “Daily Press Briefing #63”, 21/06/2000.

217 U.S. House International Relations Committee, “Gilman, Hastings Call For Election Monitors In Zimbabwe”, 13/05/2000.

218 U.S. Department Of State, “Daily Press Briefing #65”, 26/06/2000, U.S. DEPARTMENT OF STATE, “Daily Press Briefing #66”, 27/06/2000.

219 PECEQUILO, Cristina Soreanu. Política externa dos Estados Unidos: continuidade ou mudança?. Porto Alegre, Editora da UFRGS. 2003. Disponível em

http://www.cebri.com.br/midia/documentos/apoliticaexternadoseua.pdf, acessado em 25/10/2010. CROCKER, Chester A., Former Assistant Secretary Bureau of African Affairs, “Testimony Before the House International Relations Committee Subcommittee on Africa”, Washington, DC, 13/06/2000. 220 Estima-se que em 1998, cerca de 20 mil turistas americanos visitavam o país anualmente e 5 mil americanos lá trabalhavam ou moravam. Panafrican News Agency, “US Tour Operators Explore Tourism Opportunities”, 16/08/1998, African Eye News Service, “US Warns Citizens Visiting Zimbabwe”, 24/08/2000.

221 Panafrican News Agency, “US Introduces Stringent Visa Requirements for Zimbabweans”, 27/08/2000.

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and make Zimbabwe their protectorate, that is outrageous.” Mudenge obteve o apoio da

SADC, da OUA, do NAM e do movimento negro nos EUA e, em outubro de 2000, o Congresso norte-americano decidiu temporariamente arquivar o ZDERA, que seria retomado se o apoio à democracia no Zimbábue não surtisse os efeitos esperados.222

O relacionamento harmonioso que existia entre EUA e Zimbábue nao foi retomado. A potência encerrou a ajuda para a reforma grária no Zimbábue e não incluiu este em uma redução de tarifas comerciais que ofereceu a 58 Estados africanos, do Caribe e da América Central.223 Em fevereiro de 2001, a potência condenou publicamente as violações de direitos humanos no Zimbábue e responsabilizou o governo pelas mortes que ocorreram durante a campanha da eleição de 2000.224

3.3 As reações ocidentais aos problemas domésticos do Zimbábue