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1 - No dealbar da noção de felicidade até à diferenciaçãodo conceito de Bem-Estar.

Ao longo das secções seguintes faremos uma incursão pelo desenvolvimento da noção de felicidade até à significação actual atribuída pela ciência aos conceitos de Bem-Estar1 e de qualidade de vida (qdv).

Quando nos propusemos estudar a percepção da qdv e do Bem-Estar nos idosos institucionalizados em contextos residenciais comunitários utilizámos a literatura disponível como fonte inicial para o enquadramento conceptual, tendo verificado que muitos autores elaboraram constructos nocionais com fundamentação específica2 (por exemplo Bem-Estar Psicológico, Bem-Estar Subjectivo, felicidade, qualidade de vida, eudaimonia, Satisfação com a Vida, etc.) enquanto outros autores usavam indistintamente3 aqueles termos para denominar a mesma ideia ou para atribuir significado ao mesmo constructo. Neste âmbito, escolhemos caracterizar multifacetadamente a conceptualização dos diferentes termos que, admitimos, podem adquirir, lato sensu, uma acepção aproximada entre si mas que, stricto sensu, contêm uma significação específica. É o caso da noção de felicidade a qual, com algum desregramento, tem sido comummente denominada (e confundida) como satisfação com a vida, estado de espírito, eudaimonia ou afecto positivo (Giacomoni, 2004).

Por conseguinte, começaremos por analisar o termo felicidade, atribuição distinta do conceito de Bem-Estar Subjectivo (BES)4 mas a ele associada (Diener, Suh & Oishi, 1997; Diener, Sapyta & Suh, 1998), tal como também é diferenciável, a outro nível teórico, o conceito de Bem-Estar Psicológico (BEP) (Ryff, 1989; Siqueira & Padovam, 2008). Em continuação, terminaremos o Capítulo com uma reflexão crítica sobre o constructo qualidade de vida (qdv), por este ser de proeminente interesse na nossa investigação.

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Por ser necessária na compreensão qualitativa do envelhecimento, apresentaremos uma breve reflexão sobre o desenvolvimento do conceito de Bem-Estar Subjectivo (BES), particularmente no respeita às suas componentes e à sustentação teórica fundamental no estabelecimento da definição conceptual contemporânea mais prevalecente.

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À medida que aprofundávamos a nossa revisão da literatura verificámos ser indispensável juntarmo-nos àquele primeiro grupo, por serem francamente subjectivas e altamente idiossincráticas as atribuições de significado relativas a determinadas noções pessoais intangíveis, tais como a supracitadas eudaimonia ou felicidade, entre outras.

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Termos que não sendo especificamente sinónimos são utilizados como tal. 4

Sobre o qual dedicaremos adiante parte considerável da nossa atenção, por ser um conceito multidimensional indispensável para a compreensão do constructo alargado de Bem-Estar (Galinha, 2008; Galinha & Pais-Ribeiro, 2005c).

1.1 - O desenvolvimento do conceito de felicidade.

A ideia de felicidade, cuja essência é particularmente abstracta e idiossincrática, é simultaneamente um termo tanto erudito como é largamente usado no léxico comum, mesmo que a sua significância frequentemente seja mais intuitiva do que material. Porquê? Simplesmente porque, de uma forma ou de outra, mesmo sem uma definição universal e objectiva, o Homem sempre tenha procurado alcançar a felicidade ou, melhor dizendo, atingir um estado psíquico - há quem lhe chame um estado de espírito - sobre o qual foram atribuídas variadas significações.

Comumente usado na atribuição explicativa da denominação Bem-Estar, o conceito de felicidade tem sido definido por via de múltiplas e diferentes significações. No senso comum é frequente considerar-se a felicidade como a satisfação de todos os desejos na vida5 ou, no campo da erudição científica, pode ser percebida como uma preponderância do afecto positivo sobre o afecto negativo, portanto relacionado a componentes emocionais do Bem-Estar Subjectivo6 (Diener, 1984) ou, também, como um estado de Humor, consistente e optimista (Steel, Schmidt & Shultz, 2008) ou ainda como uma avaliação afectiva positiva de sua vida como um todo (DeNeve & Cooper, 1998), entre muitas outras conceptualizações.

Ao longo da História e assumindo a sua importância na vida individual e colectiva das pessoas, a busca do entendimento sobre a felicidade (como tema erudito, religioso ou da ambição humana) tem perpassado através das épocas e das Culturas. Para a compreensão da noção de felicidade, principalmente como estado ou fim a alcançar, foram várias as perspectivas de conceptualização interpretativa, nem todas concordantes ou interrelacionadas entre si. A demanda pela felicidade tem permanecido em discussão desde há muito tempo, não só no pensamento filosófico; tanto é assim que não só o senso comum usa habitualmente tal designação, assim como a religião e outras várias áreas do conhecimento científico têm vindo a doutrinar ou a reflectir sobre o tema. Para nós, enquanto componente basilar entre as ambições humanas, a felicidade constitui-se como um objecto compreensivo da lógica dialética ser ou estar.

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Portanto, relacionando felicidade com a satisfação com a vida.

1.1.1 - A abordagem Religiosa da felicidade.

O tema religioso é complexo, vasto e fora do âmbito geral do nosso estudo. Contudo, por via da componente espiritualidade7 encontra-se relacionado com a felicidade, o Bem-Estar e a qdv, daí que façamos esta brevíssima referência ao conceito sob a óptica das principais religiões monoteístas, as quais assentam predominantemente na crença de um Deus único omnipotente, omnisciente e omnipresente.

Sucintamente (porque esta temática está afastada do nosso interesse científico mas não deixa, contudo, de poder influir sobre os nossos sujeitos) salientamos que as abordagens religiosas monoteístas à felicidade podem ser subdivididas em 3 linhas teológicas principais e uma quarta perspectiva filosófico-religiosa.

Para o Zoroastrismo8 (séc. VI a.C.) a felicidade é alcançável através dos fundamentos que assentam numa incessante luta dualista e ética entre o Bem e o Mal i.e., numa batalha dualista cosmológica entre as forças benignas e as forças maléficas.

Quanto ao Cristianismo (séc. I d.C.), os vários ramos sobre o qual se propaga anunciam como dimensão ética a fidelidade ao Amor como o princípio indispensável para se alcançar a harmonia e a plena realização a todos os níveis, inclusivamente ao nível da felicidade. Na igreja Católica Apostólica Romana, no livro Confissões, Santo Agostinho aproxima a felicidade da alegria e da verdade, insistindo no desejo universal de todos os homens de serem felizes. No caso do Judaísmo (religião na qual o protagonista não é um indivíduo mas um povo eleito por Deus e a qual também influenciou a Sociedade Ocidental de matriz europeia) o sentimento de felicidade nasce quando se faz o bem, isso é, a maior felicidade do homem é poder dar e nada pedir.

O Islamismo, fundado pelo profeta Maomé no século VI d.C., enfatiza a caridade e a esperança numa vida após a morte como componentes essenciais para atingir a felicidade duradoura e eterna.

No que respeita ao Budismo, o qual nos parece não ser somente uma religião monoteísta porque se aproxima de uma filosofia integral da vida, trata-se de um sistema de crenças doutrinais que salientam o tema central da felicidade. Por outras palavras, o budismo consiste na principal doutrina filosófico-religiosa monoteísta para a qual a felicidade é atingível pela libertação (Nirvana).

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Vide Item 2.2 do Capítulo II. 8

1.1.2 - A abordagem Filosófica da felicidade.

Na cultura Ocidental, foram os helenos da Grécia Clássica os primeiros a debater a estruturação de constructo de felicidade; todavia, tal não foi conseguido através da significância que atribuíram à palavra eudaimonia9. A este propósito tem sido sugerido que a abordagem contemporânea do termo eudaimonia10 não o traduza para a significação de felicidade: perguntar “O que é a eudaimonia?” seria o mesmo que perguntar “Quais são as melhores actividades de que um indivíduo é capaz de fazer para alcançar a felicidade?”, i.e., o caminho e não o ponto de chegada. Assim sendo, a concepção aristotélica de felicidade afasta-se da concepção moderna que a considera como um estado de paz de espírito ou um estado duradouro de emoções positivas.

Do ponto de vista filosófico, Aristóteles (séc. IV a.C.) considerava a felicidade como uma actividade da alma de acordo com um princípio racional (logos), ou seja, uma actividade de acordo com a virtude: o Homem, diferente de todos os outros seres vivos, é dotado de linguagem (logos) e a actividade que há de melhor no Homem deve ser realizada de acordo com a virtude, pelo que aquele que organizar os seus desejos de acordo com um princípio racional efectuará uma acção virtuosa. Segundo Martins (1994), para Aristóteles, um homem feliz é um homem virtuoso. Nesse sentido, uma vida de acordo com a virtude deve ser considerada uma vida feliz.

Também Epicuro (séc. III a.C.) argumentava que “(…) a felicidade só devia ser alcançada por via da satisfação dos desejos de uma forma equilibrada, que não perturbasse a tranquilidade da pessoa (…)” (Marcondes, 2010: 93). No mesmo sentido, também Pirro de Élis (séc. III a.C.), filósofo contemporâneo de Epicuro, defendeu que a felicidade devia a sua existência à tranquilidade; todavia discordava de Epicuro quanto à maneira de se alcançar aquele estado de alma, como dizia Séneca.

9 Largamente utilizado na filosofia por Sócrates, Platão, Aristóteles, Epicuro e pelos Estóicos e ainda hoje

utilizado pela Ética, a palavra eudaimonia é um termo grego - em grego antigo: δαιμονία (eudaimonia) - geralmente traduzido, erradamente, como felicidade ou Bem-Estar, sendo no entanto um conceito bastante mais abrangente. Etimologicamente resulta da aglutinação de duas palavras: “eu” (bom, boa ou bem) e “daimõn” (espírito) (Hoiberg, 2007).

10 A palavra eudaimonia, significa literalmente “o estado de ter um bom espírito residente, um bom

génio”, pelo que a palavra felicidade não é uma tradução adequada para o conceito eudaimonia. Por sua vez, a felicidade é geralmente descrita como um estado de espirito que resulta ou acompanha algumas acções. Porém, a resposta de Aristóteles à questão “ O que é a eudaimonia?” (ou seja, aquilo que é a actividade de acordo com a virtude ou aquilo que é a contemplação) é que a eudaimonia não é um estado de espírito consequente ou que acompanha determinadas actividades mas sim um nome para essas actividades em si mesmas.

Por sua vez, Zenão de Cítio (séc. III a.C.), filósofo que iniciou o estoicismo11, defendia que a tranquilidade (ataraxia) “(…) era a melhor maneira de se alcançar a felicidade(…)” (Wilkinson, 2001: 68).

Mais a Oriente, o pensador e filósofo chinês Confúcio (séc. VI a.C.) salientou “(…) a cortesia, o dever, a sabedoria e a generosidade como componentes fundamentais para uma existência feliz (…)” (Wilkinson, 2001: 68).

De forma semelhante, o filósofo e alquimista chinês Lao-Tsé (séc. IV a.C.), figura quase mítica a quem é atribuída a autoria de uma das obras fundamentais do Taoismo, o livro “Tao Te Ching”, sustentou que a harmonia na vida podia ser alcançada através da união com o Tao12 ou seja, da “(…) unificação do homem com as forças da natureza universal.” (Wilkinson, 2001: 70).

Ainda no Oriente, agora no Subcontinente Indiano, Mahavira (séc. V a.C.), filósofo indiano contemporâneo do fundador do Budismo (Sidarta Gautama), “(…) enfatizou a importância do ascetismo e da não-violência como meio de se encontrar a iluminação da alma e a plena felicidade: a doutrina desenvolvida por Mahavira originou a religião Jainista, que perdurou até aos nossos dias.” (Wilkinson, 2001: 46).

No século XII, S. Tomás de Aquino admitiu que o fim último da vida humana seja a felicidade e que ela vem de Deus, através da essência divina. Desse modo, a felicidade apresenta-se, para todas as criaturas, como um movimento de proximidade a Deus, cuja inteligência e vontade dos Homens representam, nessa aproximação, um papel elementar. Assim, para S. Tomás de Aquino, o Homem não pode deixar de querer a sua própria felicidade já que esta lhe é fundamental por ser coextensível à sua própria essência, sobretudo quando está sob a graça divina (Chersterton, 1957).

Para Rousseau (séc. XVIII) o ser humano era, originalmente, feliz; contudo, a vida civilizada levou à destruição desse estado original de harmonia. Para Rousseau, só o regresso à simplicidade original através da educação para a vida em harmonia com a natureza poderia recuperar a felicidade original: o Homem completa-se com a Natureza, pelo que o estado natural não é um estado a ser superado mas sim mantido.

11 Segundo os Estóicos, o Universo é material e governado por um logos (razão) divino que ordena todas

as coisas: tudo surge a partir dele e de acordo com ele, e graças a ele o mundo é um kosmos (harmonia). Neste sentido, a alma é parte do todo divino, pelo que a tranquilidade da alma, e assim, em certa medida, da felicidade do homem, poderia ser atingida através do autocontrole e da aceitação do destino divino. (Becker & Becker, 2003).

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Tao significa literalmente o caminho; porém, trata-se de um conceito muito antigo, adoptado como o princípio fundamental do Taoismo, que só pode ser apreendido por intuição (Kohn, 1993).

Segundo Rousseau13, o que faz o indivíduo no seu estado natural ser bom e feliz é, precisamente, o facto de conseguir satisfazer as suas necessidades sem estabelecer conflitos com outros indivíduos, sem subjugar e sem sentir a vontade de se impor pela força aos outros para sobreviver e ser feliz (Rousseau, trad. Moura, 2001).

Já no século XIX, Auguste Comte lança o Positivismo como um sistema filosófico que afasta totalmente a Teologia e a Metafísica; nele, propõe o primado dos valores humanos, o qual associa a ética humana radical à interpretação das Ciências e à classificação metódica do conhecimento. Deste modo, Comte realça a importância da Ciência e da Razão como fundamentos para a busca da felicidade a qual, por sua vez, resultaria do altruísmo e da solidariedade entre todos os seres humanos, doutrina utópica que o pensador denominou como Religião da Humanidade (Wright, 1986).

1.1.3 - A abordagem Psicológica da felicidade.

Ao longo da autonomização da Psicologia como ciência sucederam-se, para além da ruptura com o senso comum, sucessivos cortes epistemológicos com outras áreas do saber, muitas vezes frutos do primado do racionalismo experimentalista e laboratorial como é o caso do Estruturalismo de Wundt (Hothersall, 2006). Neste contexto, diferenciando-se da Filosofia, a original Psicologia Freudiana (Séc. XX) teorizou que todos os Homens procuravam a felicidade (Princípio do Prazer) sem a possibilidade do mundo real satisfazer, na totalidade, aquela busca (Princípio da Realidade), pelo que o máximo a que o ser humano podia ambicionar seria uma felicidade parcial (Freud, 1957).

Por sua vez, a psicologia Humanista defendeu que a acomodação das pessoas às condições prejudiciais que influenciam a personalidade e limitam as suas aspirações de felicidade terão, no futuro, um custo muito alto a pagar, sob a forma de sintomas neuróticos e psicossomáticos dos mais variados tipos e intensidades. Por causa daquela acomodação, muitas pessoas jamais tomarão consciência de que perderam possibilidades para alcançar a felicidade, no sentido da efectiva realização dos seus

13 Para Rousseau, só o regresso à simplicidade original através da educação para a vida em harmonia com

a natureza poderia recuperar a felicidade original: o homem completa-se com a natureza, pelo que o estado natural não é um estado a ser superado. A consciência do homem no estado natural não discrimina entre bem e o mal, já que essa dicotomia é aprendida pelo indivíduo em sociedade.

objectivos realmente desejados, seja através de vida emocional rica, com criatividade e inovadora até à vivência de uma velhice serena e extraordinária (Maslow, 1962).

Inspirado pelas teorias motivacionais, de certo modo à semelhança do Princípio do Prazer Freudiano, na transição das últimas décadas do século XX para as primeiras décadas do novo Milénio destacaram-se abordagens teóricas que defenderam que todas as decisões dos seres humanos ou tudo o que o Homem faz visa, em última instância, o estado de felicidade.

Na lógica do primado da busca do estado de felicidade, o indivíduo sente-se bem quando uma decisão, ou acontecimento, o aproxima da felicidade e sente-se mal quando uma decisão, ou acontecimento, o afasta daquele estado. Neste contexto progrediu um novo movimento dentro da Psicologia, denominado de Psicologia Positiva14.

Esse novo movimento relaciona a felicidade com as emoções e as actividades positivas recolocando, desde logo, a investigação centrada no estudo da sanidade mental e não apenas, como até então, na patologia (Freitas-Magalhães, 2006).

Em síntese, importa referir que a intervenção terapêutica da Psicologia Positiva se focaliza, fundamentalmente, nas qualidades e nas potencialidades do individuo, usando-as como instrumentos para a superação das componentes menos positivas da existência humana, quer sejam intra ou inter-relacionais.

Por tal lógica, é possível constatar que a Psicologia Positiva difere em vários aspectos das abordagens tradicionais da Psicologia15: enquanto as abordagens tradicionais da ciência psicológica, sobretudo os ramos psicoterapêuticos, tendem a focar-se na doença ou na disfuncionalidade (seja através do tratamento e/ou da prevenção da doença mental), por seu lado, a Psicologia Positiva tende a focar-se nas motivações, nas potencialidades e nas qualidades das pessoas visando, em última instância, o desenvolvimento ou a consolidação consciente de estratégias pró-activas e afirmativas que potencializem o conseguimento de sucessivos estados de felicidade.

14 O movimento da Psicologia Positiva foi suportado por Psicólogos Humanistas e Positivos como

Bandura, Carver, Clifton, Csikszentmihalyi, Diener, Fredrickson, Freitas-Magalhães, Haidt, Larson, Myers, Oishi, Patterson, Peterson, Scheier, Seligman, Sheldon, Snyder, Suh, Taylor, Weiss e Winner, entre muitos outros.

15 Isto quer dizer que se um individuo é incapaz de estar frequentemente feliz ou de ser bem-sucedido, por

exemplo, devido aos seus medos, é muito comum que a intervenção psicológica mais tradicional se concentre sintomatologia do indivíduo, i.e., o medo, explorando a sua origem, a complexidade e as consequências enquanto a psicologia positiva, por seu lado, tenderá a incindir sobre as qualidades do individuo, potenciando a sua utilização como meio para superar as suas dificuldades fóbicas e, posteriormente, desenvolver as suas potencialidades adaptativas.

1.1.4 - Outras abordagens emergentes sobre a felicidade.

No Anexo 1.1.4 dos Anexos do Capítulo II discorremos sobre a modernidade de várias abordagens emergente sobre a felicidade.

1.1.5 - A contemporaneidade conceptual de felicidade.

Como vimos nos Itens anteriores, a felicidade é uma noção originalmente abstracta e subjectiva, daí que seja um conceito de difícil definição universal. Daqui decorre um outro desafio aos investigadores: como definir e operacionalizar o conceito por forma a, consequentemente, instrumentalizar a sua medição16, algo absolutamente necessário na investigação científica.

Em 1991, Diener, Sandvik, Pavot e Gallaher, argumentaram que a Psicologia podia definir a felicidade como uma combinação entre a frequência relativa dos afectos positivos e negativos e a satisfação com a vida (Diener et al., 1991).

Quase uma década depois, num texto notável sobre o Bem-Estar Subjectivo17, aliás largamente citado na literatura, Diener, Suh, Lucas e Smith (1999), realçaram uma coincidência curiosa: as teorias da felicidade à época eram, na sua essência, semelhantes às que tinham sido enunciadas pelos filósofos gregos.

A propósito da operacionalização conceptual da felicidade através da compreensão das diferenças individuais relativas ao Bem-Estar, refira-se que os autores supra consideraram que: (i) a satisfação das necessidades está na base da felicidade enquanto a persistência da insatisfação dos desejos dos indivíduos provoca a infelicidade; (ii) a efectivação dos objectivos necessários à satisfação das necessidades depende do nível de adaptação e/ou da vontade dos indivíduos, os quais, por sua vez, parecem ser influenciados pelas experiências passadas, pelas comparações com os outros, pelos valores idiossincráticos e outros factores correlativos (Diener et al., 1999).

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Neste âmbito, a Psicologia tem desenvolvido diferentes métodos e instrumentos para medir o nível de felicidade dos indivíduos, tais como o Questionário da Felicidade de Oxford, (Hills & Argyle, 2002), a Subjective Happiness Scale (SHS), a Escala Sobre a Felicidade (ESaF) (Barros, 2001), entre dezenas de outros instrumentos. Em geral, tais métodos e/ou instrumentos de medição examinam múltiplos factores idiossincráticos e interrelacionais, com características físicas, psicológicos e sociais, tais como as crenças religiosas, a ideologia política, o estado civil, a idade, os rendimentos, a participação social, etc.

Com base nos autores supra, o nosso contributo para a definição da felicidade pode resumir-se deste modo: felicidade é um estado durável de Bem-Estar espiritual, ou de paz interior, em que predominam os sentimentos de equilíbrio biopsíquico e de plena satisfação com a vida, no qual as distorções emocionais de teor negativo são reestruturadas em emoções ou sentimentos positivos que vão desde o contentamento sereno até à alegria intensa ou ao júbilo.

1.2 - O desenvolvimento do conceito de Bem-Estar Subjectivo (BES).

O contributo da Psicologia para o constructo de Bem-Estar não poderia ter ocorrido sem o reconhecimento de uma parcela subjectiva da saúde mental, que se constitui como contraposição à parcela objectiva (ausência de perturbação mental). O interesse da Psicologia, naquele âmbito, contribuiu para a reformulação científica da própria noção de Bem-Estar, concebendo-a como um constructo constituído por um suporte teórico sistematizado, não apenas centrado na perturbação ou nas patologias físicas e/ou mentais mas também focado no progresso desenvolvimental dos indivíduos como agente e sujeito dos mais diversos domínios e contextos sócio-culturais.

A primeira utilização do conceito de Bem-Estar Subjectivo (BES), segundo Galinha e Pais-Ribeiro (2005c), deve-se a Wilson e remonta a 1960. Contudo, de acordo com Librán (2006), foi Bradburn o primeiro que, em 1969, esboçou a existência de uma dimensão afectiva, ao considerar o BES em termos de afectos positivos em oposição aos

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