1.2 ESTATÍSTICA DE PATENTES COMO PROXY DA ATIVIDADE E CAPACIDADE
(GRILICHES, 1990). O direito de uso exclusivo é concedido ao inventor do dispositivo ou processo após um exame que enfoca tanto a novidade do item reivindicado e sua utilidade comercial potencial, a partir de um determinado crivo do escritório de patentes. Este direito embutido na patente pode ser atribuído pelo inventor a outra pessoa, geralmente ao seu empregador, uma corporação, vendida e/ou licenciada para uso por outra pessoa/empresa, indicando assim a presença de uma expectativa não negligenciável quanto à sua utilidade final e comercialização (BRENNER; BROEKEL, 2011).
No que toca a natureza inventiva da tecnologia incorporada na patente, ela é inclusa como uma categoria da propriedade industrial9 e, de forma mais ampla, no direito de propriedade intelectual, ou seja, fruto da mente. O direito de propriedade intelectual refere ao direito relativo a determinado objeto intangível ou criação do intelecto humano. Esse direito representa um benefício estratégico que os desenvolvedores da atividade tecnológica podem gerir e transformar em efetiva vantagem competitiva e econômica. Esse monopólio temporário – outorga de direito exclusivo para seu uso por prazo determinado – consiste no mecanismo para encorajar a invenção e o progresso técnico, especialmente no âmbito regional.
Schmookler (1950) e Griliches (1990) são algumas das referências clássicas que utilizam as estatísticas de patentes como proxy da capacidade tecnológica. Schmookler (1950) utilizou pioneiramente a contagem de patentes como indicador de mudança técnica em setores específicos. E, Griliches (1990), por sua vez, apontou as possibilidades de uso e as limitações das patentes em investigações empíricas. A partir desses autores, a literatura relacionada tem utilizado dados de patentes para mapear a distribuição espacial da atividade tecnológica, a capacidade tecnológica das regiões e a mudança da base tecnológica e produtiva regional.
Sun (2000), por exemplo, ao investigar a distribuição espacial das patentes na China estabeleceu uma relação empírica entre patentes e atividades tecnológicas, argumentando que dados de patentes podem ser um bom indicador da capacidade tecnológica regional. Guerrero e Sero (1997) analisaram a distribuição espacial da capacidade tecnológica a partir da residência do requerente da patente na Espanha. Suas conclusões, em linha com Sun (2000), apontam que
9 Propriedade industrial inclui: patentes, marcas, desenhos industriais e indicações geográficas.
a atividade inventiva e o desenvolvimento tecnológico são fatores cruciais para o crescimento econômico das regiões mais inovadoras.
Mais recentemente, Balland e Rigby (2017) mapearam a distribuição e a evolução da complexidade do conhecimento nas cidades dos Estados Unidos e exploraram como a difusão espacial do conhecimento está ligada à complexidade do conhecimento. Os autores apontam que o conhecimento tecnológico é um dos principais motores do crescimento econômico de longo prazo. De forma análoga, Pintar e Scherngell (2022) caracterizaram a distribuição espacial do conhecimento complexo na Europa e sua dinâmica de crescimento nos últimos anos.
Segundo os autores, a produção do conhecimento tecnológico está associada ao futuro crescimento econômico regional, uma vez que a criação de conhecimento é amplamente considerada como o motor para a inovação e, portanto, para a criação de vantagem competitiva regional.
No caso do Brasil, alguns estudos evidenciam disparidades regionais e elevada concentração da atividade tecnológica por meio das estatísticas de patentes no eixo Centro-Sul do país, notadamente na região Sudeste, com um peso especial ao Estado de São Paulo. Segundo Albuquerque e outros (2002, 2005), apenas nove regiões metropolitanas e microrregiões selecionadas concentraram cerca de 70% da produção tecnológica no Brasil durante o período de 1990 a 2000, que somado ao “interior paulista”, esse número alcançou 81% do total brasileiro. Ademais, apenas dez municípios brasileiros respondiam por mais de 53,69% da produção tecnológica no país na década de 1990.
Estudos posteriores apontaram que esta tendência foi mantida ao longo dos anos.
Gonçalves (2007) identificou que as cinco primeiras microrregiões brasileiras mais industrializadas no país responderam por mais da metade das 16.884 patentes registradas pelo INPI no período de 1999-2001, em termos absolutos. A explicação da concentração da atividade tecnológica regional, medida por patentes, também foi realizada por Gonçalves (2007). O autor ao utilizar Análise Exploratória de Dados Espaciais (AEDE) constatou que as microrregiões geográficas brasileiras com altos índices de patentes per capita são vizinhas de outras com valores similares, caracterizando um padrão de associação espacial global positivo. Esses estudos mostram que os maiores desempenhos inovativos estão concentrados nas regiões Sul e Sudeste do Brasil, evidência reforçada em Araújo (2014).
Nessa linha, Gonçalves e Fajardo (2011) ao realizar uma análise descritiva da atividade tecnológica para 121 mesorregiões geográficas brasileiras ao longo dos anos 1999-2001, reafirma que a região Sudeste, com 11.445 patentes (67,81%), é a líder em inovação tecnológica, inclusive a mesorregião São Paulo é a que registra maior número de depósitos de patentes no País. Seguida do Sudeste, a região Sul apresentou 3.893 patentes (23,06%), inclusive todos seus estados apresentaram valores acima de mil depósitos. Por outro lado, a região Norte é a região com menor participação de depósitos de patentes no período 1999-2001, com apenas 0,62% do total nacional. Em seguida, aparecem as regiões Centro-Oeste com 3,91%
e Nordeste com 4,60%.
Outra questão de considerável discussão na literatura nacional refere-se à dinâmica da atividade tecnológica regional. Freitas, Gonçalves e Montenegro (2010) ao analisar a desigualdade interestadual e o processo de convergência da atividade inventiva brasileira no período 1990-2001, constataram a existência do processo de convergência espacial da taxa de crescimento das patentes, ainda que a velocidade de convergência seja baixa. Segundo os autores, foi possível perceber que estados com elevada taxa de crescimento de patentes por trabalhador são vizinhas de outros estados com desempenho semelhante como, por exemplo, os estados sulinos de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Por outro lado, estados com reduzidas taxas de crescimento de patentes por trabalhador são circundados por estados que também possuem baixo desempenho de patenteamento, como são os casos dos estados do Acre e Amapá, na região Norte.
De forma análoga, porém, empregando a microrregião como unidade espacial de análise e os anos de 2000 a 2011, Oliveira, Gonçalves e Almeida, (2016) buscaram identificar se as regiões com menor capacidade inventiva possuem crescimento mais rápido do que aquelas
“líderes”, como São Paulo, o que contribuiria para um processo de desconcentração econômica no longo prazo. Os autores identificaram um processo de convergência da atividade tecnológica, indicando possível catching up tecnológico no Brasil. Os autores apontam que as microrregiões que apresentam maiores taxas de crescimento que, embora estejam em sua maioria no Sul e Sudeste, não coincidem com aquelas de maior nível de patenteamento; entre elas estão: a Bacia de São João (RJ), Patrocínio (MG), Santa Rita do Sapucaí (MG), Palmas (PR), Colatina (ES), Auriflama (SP) e Santo Antônio de Pádua (RJ). Portanto, é possível sugerir pequenos indícios de que a produção da atividade tecnológica no Brasil tem se tornado
lentamente menos concentrada espacialmente, à medida que as regiões de nível inferior da produção inventiva-inovativa aumentaram sua contribuição, pelo menos na primeira década dos anos 2000.
Neste contexto, as evidências acima sugerem que o uso das estatísticas de patentes como proxy da atividade e capacidade tecnológica regional é uma alternativa bem estabelecida na literatura econômica (BALLAND; BOSCHMA, 2021A; MONTENEGRO; GONÇALVES;
ALMEIDA, 2011; PETRALIA; BALLAND; MORRISON, 2017). Em particular, as estatísticas de patentes são interessantes porque fornecem informações sobre a região em que a produção do conhecimento tecnológico foi desenvolvida e capta um conjunto de conhecimento técnico gerado em uma determinada região (BALLAND; RIGBY, 2017). Ademais, apesar de todas as dificuldades em seu uso, a utilização e interpretação das patentes fornecem o registro histórico da produção inventiva, permitindo a comparação intertemporal da atividade tecnológica em múltiplas escalas, por meio de informações e códigos padronizados, confiáveis e disponíveis gratuitamente (BRENNER; BROEKEL, 2011; SMITH, 2006).
Além dessas vantagens, as estatísticas de patentes fornecem informações relevantes para formulação de políticas tecnológicas e regionais, possibilitando análises comparativas entre diferentes setores, regiões e países, uma vez que o registro das patentes segue o padrão internacional proposto pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual- WIPO através da International Patent Classification (IPC), como é o caso do Brasil e da maioria dos países pertencentes à Organização Mundial do Comércio (OMC) (DIEBOLT; PELLIER, 2020).
Inclusive, com base nas características técnicas da atividade inventiva é possível construir múltiplos indicadores - simples ou mais complexos - e utilizá-los em estudos variados.
Boschma, Balland e Kogler (2014) e Xie e Zhang (2015) corroboram na defesa do uso de patentes para estudos regionais. Segundo os autores, os dados de patentes possibilitam identificar a localização do principal inventor, a cobertura estatística abrangendo áreas tecnológicas hierárquicas e a disponibilidade de séries temporais, permitindo a análise do desempenho tecnológico de empresas e setores localizados nas regiões. Possibilitam também um esquema de classificação tecnológica padronizada que inclui a indicação de colaboração (coinvenção e co-aplicação), bem como as referências bibliográficas que identificam o relacionamento tecnológico inter-regional. Para efeito de análises espaciais e na ausência de informações regionalmente desagregadas sobre a produção do conhecimento tecnológico, as
estatísticas de patentes são uma alternativa atraente, embora não perfeita, da atividade tecnológica regional (PINTAR; SCHERNGELL, 2022).
Como toda estatística de informações econômicas, é preciso mencionar que essas vantagens têm custo e limitações relevantes. Bell (2007), por exemplo, aponta possíveis distorções das estatísticas de patentes, especialmente em economias em desenvolvimento, pois existem propensões diferentes para patentear entre empresas, indústrias e países. Além disso, em regiões atrasadas algumas atividades inventivas podem não ser formalizadas em patentes e algumas invenções possuem pouca relevância econômica e, por consequência, não há incentivos ao patenteamento, embora sejam raros os casos de invenções economicamente importantes que não foram patenteadas (POTTELSBERGHE; DENIS; GUELLEC, 2001).
Apesar dessas dificuldades e ressalvas, os dados de patentes são recursos relevantes para o estudo da mudança regional e tecnológica, sendo possível perceber que existe uma qualificada literatura que utiliza os dados de patentes como proxy da atividade inventiva-inovativa e capacidade tecnológica regional (BALLAND; BOSCHMA, 2021A, 2021B; PETRALIA;
BALLAND; MORRISON, 2017; PINTAR; SCHERNGELL, 2022; XIE; ZHANG, 2015). Essa literatura aponta que o uso de estatísticas de patentes não é acrítico e quaisquer interpretação dos resultados precisam levar em consideração suas vantagens e limitações.
1.3 FONTES DE INFORMAÇÕES E PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS