1 CAMINHOS HISTÓRICOS NA EDUCAÇÃO BRASILEIRA
3 DIALOGANDO COM AS PRIMEIRAS FONTES DOCUMENTAIS
3.3 ESTATUTO DA FACULDADE DE FILOSOFIA DE COIMBRA
Estatuto da Faculdade de Filosofia de Coimbra, documento que apresenta concepções acerca dos objetivos, metodologias e conteúdos a serem trabalhados na cadeira de Química, que é contemplada na sequência.
3.3 ESTATUTO DA FACULDADE DE FILOSOFIA DE COIMBRA
O vínculo entre o progresso dos estudos e conteúdos da Química, seu ensino em Portugal e posteriormente no Brasil tem como base um segundo documento, proveniente da Reforma da Universidade de Coimbra, que segundo Chassot (1994) é
[...] um dos textos mais objetivos sobre o ensino de Química que se tem acesso, ainda na sua forma original, é aquele que está nos estatutos da Universidade de Coimbra, editado em 1772, por ocasião de sua Reforma. Este estatuto foi publicado fac-similarmente quando das comemorações do seu bicentenário [...] Mais que ser um documento significativo para entendermos o ensino de Química neste entorno lavoisierano na Europa, e mais especificamente em Portugal, temos que considerar que o mesmo é produto da Reforma da Universidade de Coimbra, que teve
significativa influência no ensino brasileiro até o final do século 19. E estas diretrizes sobre a Química tiveram, de uma maneira muito especial, grande influência no Brasil colonial e mesmo Imperial [...] (CHASSOT, 1994, p. 76).
Para iniciar a análise do Estatuto da Faculdade de Filosofia de Coimbra é necessário salientar algumas características sobre a constituição e elaboração deste documento. É a partir da Reforma dos Estudos Maiores da Universidade de Coimbra, realizada sob a supervisão e coordenação do Marquês de Pombal, que foram produzidos dois documentos importantes: o primeiro, já analisado, é o Compêndio Histórico da Universidade de Coimbra publicado em 1771, seguido dos novos Estatutos da Universidade de Coimbra publicados em 1772 (Figura 2).
Fonte: Biblioteca Digital da Universidade de Coimbra.
Disponível em: http://pesquisa.auc.uc.pt/viewer?id=272471&FileID=950760, acessado em 05/08/2016.
Segundo Saviani (2011, p. 90-1), antes do início da Reforma, a Universidade de Coimbra contava com quatro faculdades: Teologia, Cânones, Direito e Medicina, as quais apresentaram relevantes mudanças após a Reforma. Por exemplo, houve a inserção de novas disciplinas e mudança nas cargas horárias exigidas para a formação do aluno. Além dessas modificações em relação aos cursos já existentes, houve também a criação de duas novas Faculdades: a Faculdade de Matemática e a Faculdade de Filosofia (GAUER, 1996, p. 107).
Estas novas Faculdades buscavam trazer características modernas e de natureza Iluminista, já que, dentro da Filosofia, havia estudos relacionados às ciências naturais. Este curso de Filosofia apresentava uma duração de quatro anos, nos quais eram ensinadas filosofia racional e moral, história natural, física experimental e química prática e teórica (SAVIANI, 2011, p. 92). O quadro a seguir (Quadro 2), apresenta as disciplinas, os professores e os conteúdos trabalhos nestes quatro anos de curso.
Quadro 2 – Disciplinas, professores e conteúdos da Faculdade de Filosofia de Coimbra
DISCIPLINA PROFESSOR E CONTEÚDOS
1° ANO Filosofia Racional e
Moral
Dr. Antonio Soares Barbosa (1734-1801). Conteúdos: prolegômenos gerais da filosofia; história da filosofia, lógica, metafísica e moral. 2° ANO História
Natural
Dr. Domingos Agostinho Vandelli (1735-1816). Conteúdos: zoologia, botânica, mineralogia e história de Plínio. Geometria.
3° ANO Física Experimental
Dr. João Antonio Dalla Bella (1730-1823). Conteúdos: propriedades gerais dos corpos, equilíbrio e movimentos, gravidade, propriedade dos: fluidos, meteoros, acústica, a água, o fogo, o arco-íris, espelhos e lentes.
4º ANO Química Dr. Domingos A. Vandelli. Conteúdos: princípios e elementos dos corpos, afinidades das substancias salinas, acidas, alcalinas, metálicas e oleosas, fermentações, operações de análise, destilações, dissoluções.
Fonte: Franco-Patrocínio (2015, p. 30) apud Carvalho (2001, p. 479). O curso apresentava um aspecto pedagógico e educacional condizente com o esclarecimento de caráter iluminista, pois tinha como característica o rompimento com a filosofia escolástica de Aristóteles e incorporava o chamado método sintético demonstrativo, no qual o professor devia proporcionar uma imagem geral da disciplina através da redução da matéria a um conjunto doutrinal ordenado e sistemático, subordinando a evolução expositiva a uma linha de crescente complexidade (NUNES, 2011, p. 12).
Os alunos desse curso eram classificados. Os ordinários se dedicavam aos estudos de forma optativa ou como uma maneira de se preparar para a profissão que seguiriam. Os alunos classificados como obrigados, eram compelidos ao estudo da filosofia ou da matemática como pré-requisito das faculdades a que se dirigiam (SAVIANI, 2011, p. 92). Conforme Gauer (1996, p. 115), dentro deste caráter científico, os Estatutos orientavam um caminho que utilizava a natureza como um espaço em que o homem poderia agir visando um progresso. Essa visão moderna de ciência, baseada na observação, tão característica do século XVIII, desmembrou a filosofia da ciência, fundamentada no método científico instaurado por Galileu, centrado na observação e experimentação. A autora complementa:
A Reforma encaminhou uma linha de pensamento e ação que fosse consentânea com a realidade vivenciada. A ligação entre teoria e prática é evidenciada em toda a proposta de Reforma, Compêndio Histórico e Estatutos. A idade moderna inverteu o pólo de atenção, centralizando no sujeito a questão do conhecimento. O aluno, para os reformadores deveria a partir da observação e da experiência formular as bases do conhecimento da natureza. (GAUER, 1996, p. 115).
Embasada nessas características, é adequada uma análise deste Estatuto, no que diz respeito à cadeira de Química. A parte que trata da Química está inserida no Capítulo IV (p. 387-394) e apresenta 14 diretrizes que abordam desde os conteúdos programáticos até algumas metodologias, estratégias e instrumentos para o ensino dos conteúdos
referentes à ciência Química, que deveriam ser empregados pelo professor no exercício de sua função.
Para compreender melhor como são analisadas as diretrizes e como irei categorizar termos referentes ao desenvolvimento do ensino da Química, como exemplo apresento a diretriz de número dois e trago um molde de análise que serve para a análise das demais diretrizes.
II- Essa Sciencia tem o nome de Chymica, e he a