CANAIS DO TRÁFICO ILÍCITO DE ARMAS NO BRASIL
II – DESVIOS INTERNACIONAIS
22. Estatuto do Desarmamento
A nova lei de controle de armas e munições, denominada Estatuto do Desarmamento, está fazendo sucesso no exterior, provocando uma rediscussão das leis existentes em vários países, exatamente porque é inovadora e abrangente. Ela estabelece medidas para combater o tráfico
ilegal de armas e controlar o comércio legal. Uma leitura atenta do Estatuto (ver em Anexos )
será suficiente para demonstrar que seu principal objetivo é desarmar os criminosos. A nova lei aperfeiçoa um banco de dados nacional sobre armas e munições (SINARM), para que forneça informações “on line” que possibilitem o seu rastreamento e a repressão ao armamento ilegal; obriga a marcação das armas e das munições, de forma a poderem ser rastreadas e assim desarticuladas as quadrilhas que abastecem o crime com esses produtos; tipifica, pela primeira vez na América do Sul, o tráfico de armas de fogo, antes igualado ao contrabando de qualquer produto inofensivo, elevando-se as penas, que podem chegar a 12 anos de prisão, no caso do contrabando de armas militares ou de uso restrito. Aqueles que se manifestam contra o Estatuto só porque defendem o uso de armas por civis, deveriam fazer essa distinção, e não lutar pela extinção de uma lei que representa um grande avanço no combate ao tráfico ilegal de armas e munições. Atacar o Estatuto como um todo, na prática, é colaborar para que as armas e munições continuem fluindo com facilidade para as mãos do crime organizado e para que a maioria dos crimes com arma de fogo continue a não ser investigada.
Breve histórico
A legislação anterior de controle de armas, Lei 9.437 de 1977, era demasiadamente frouxa e omissa para que pudesse impedir a contínua disseminação de armas e munições no Brasil. Assim, em 1999, o Viva Rio, em sintonia com o então ministro da Justiça Renan Calheiros e alguns parlamentares, começou uma campanha por sua reforma. O ministro Calheiros enviou para o Congresso o projeto de lei 1.073/99, que viria a ser o documento básico para o futuro Estatuto do Desarmamento, mas que foi bloqueado. No Congresso, vários projetos de mudança eram engavetados por influência do poderoso lobby da indústria de armas e munições. Com o novo governo, aumentou a chance de reforma. Em julho de 2003, formou-se uma Comissão Mista de senadores e deputados, presidida pelo senador Tasso Jereissati, tendo como relator o deputado Luiz Eduardo Greenhalgh, que incorporou propostas contidas em cerca de 70 outros projetos existentes, tomando como base o projeto original do senador Renan Calheiros. Por sugestão do ex-presidente, e então presidente do Senado, José Sarney, o projeto de lei foi denominado Estatuto do Desarmamento, pois apontava para o desarmamento da sociedade como um todo, principalmente dos bandidos. A proposta foi à votação do Congresso.
O poder do lobby das armas
Durante todo o processo legislativo, pudemos sentir a fortíssima influência do poder econômico no Congresso, atropelando a ética e as próprias leis do país. Os lobistas se faziam acompanhar de “técnicos”, que procuravam convencer os parlamentares da inviabilidade de vários artigos do
projeto do Estatuto. Mas o tiro saiu pela culatra porque, bem informados por parte das ongs
especializadas em controle de armas, deputados e senadores perceberam as manipulações de que eram vítimas e votaram de acordo com as informações técnicas corretas.
Marcação de munição
A fraude mais flagrante aconteceu no processo final de votação, quando representantes da CBC, maior fabricante de munições, apresentou aos parlamentares parecer “técnico” para demonstrar a inviabilidade de se proceder à marcação dos cartuchos, ou cápsulas, das munições. Essa medida, adotada por poucos países e considerada pela ONU um grande avanço da lei brasileira, permitirá que a munição usada pelos bandidos, mesmo os cartuchos que ficam no chão após os enfrentamentos com a polícia, seja rastreada para que se revele de que delegacia, loja, quartel ou fábrica foi desviada para a bandidagem. Uma simples marcação no “culote” (base) do cartucho, com número de lote, possibilitaria que a investigação se fizesse
rapidamente. Mas os “técnicos” da CBC negavam essa possibilidade, “por falta de espaço para se
gravar tanta informação e pelo custo proibitivo”. Pois o Viva Rio obteve e apresentou aos
parlamentares, e o jornalista Elio Gaspari divulgou a foto em sua página dominical, 5 cápsulas,
fabricadas pela própria CBC, em 1950 e 1952, que tinham marcadas em seus culotes mais informação do que as exigidas no projeto. Na foto que se segue, pode-se identificar os
seguintes dados, sendo que as referências ao tipo de arma são hoje em dia desnecessárias: CBC
(fabricante), 45 ACP (calibre 45 para Automatic Colt Pistol), M1 (para revólver), M2 (para pistola), M3 (para metralhadora e sub-metralhadora), 50 e 52 (anos de fabricação), MG (comprador: Ministério do Exército) e MA (comprador: Ministério da Aeronáutica).
[ foto excluída ]
Ao desmascararmos a fraude, os parlamentares se deram conta do profissionalismo e seriedade das ongs e da absoluta falta de ética do lobby. Não apenas por faltar a verdade, mas por tentar impedir a adoção de medida contra o fornecimento de munição ao crime organizado. Políticos que, durante os debates, acusavam o Viva Rio de “estar a serviço dos bandidos”, certamente erraram de alvo. Ao final, indignados com a tentativa de manipulação por parte dos lobbistas, os parlamentares aprovaram a marcação das munições. Não de todas, como defendíamos nós, mas pelo menos das vendidas para as Forças Armadas e de segurança pública. Desde 01.01.05, por determinação da Portaria do ministério da Defesa Nº 16-D, de 28.12.04, as fábricas receberam ordens de começar a marcação de munição de alguns calibres, devendo os restantes serem marcadas a partir de 01.07.05.
Na chacina de 29 pessoas em Queimados e Nova Iguaçu, em 31.03.05, a perícia levou vários dias para comprovar se as cápsulas dos cartuchos deixados nas ruas pelos assassinos tinham
partido das armas de policiais. Estivessem esses cartuchos marcados com número de lote, no mesmo dia se saberia de que quartel da polícia tinham sido desviados.
O poder da opinião pública
As pressões e artimanhas do lobby se intensificaram, e logo percebemos que sua influência acabaria por introduzir modificações que desvirtuariam totalmente o projeto, tornando-o inócuo
como a lei antiga. Acabaríamos igual ao personagem de O Velho e o Mar, romance de
Hemingway: apesar da luta do pescador para proteger o grande peixe que pescara dos sucessivos ataques dos tubarões, só chegaria à praia com o seu esqueleto. Contrários aos métodos utilizados pelo lobby, que nos recusávamos a imitar, só nos restava mobilizar a opinião pública, para que a pressão dos eleitores se contrapusesse ao poder do dinheiro.
Esforçamo-nos para levar à população as informações restritas aos centros de pesquisa. Tínhamos certeza de que, se o povo contasse, além da experiência sofrida, com estatísticas e explicações de porque a insegurança se instalou nas nossas vidas, ele se conscientizaria da importância do controle das armas. Os mais renomados especialistas no estudo da violência, e
no impacto das armas, na segurança e na saúde públicas, divulgaram um manifesto (ver em
Anexo). Era a palavra dos que entendiam do assunto. Iniciou-se a temporada de grandes e históricas marchas populares a favor da aprovação do Estatuto. No Rio, em 14.09.2003,
debaixo de chuva e frio, 50.000 pessoas marcharam em Copacabana, sob o lema Brasil sem
Armas.
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Os diferentes setores da sociedade compareceram, como artistas, estudantes, policiais, sindicatos, empresários, igrejas, idosos, vítimas de armas de fogo, profissionais de saúde, políticos, associações de favelas, de mulheres, de terceira idade, de negros e gays e até a comunidade chinesa, chocada com o assassinato de um comerciante chinês. Enormes marchas se sucederam em Recife, Brasília, Maceió e Aracaju. Atos públicos foram realizados em Curitiba e São Paulo. Nesta última, o Instituto Sou da Paz acendeu 9.969 velas na Praça da Sé, simbolizando a estimativa de mortes por arma de fogo ocorridas desde o dia em que o projeto de lei do Estatuto foi enviado à Câmara Federal e aquela data, 24.10.2003.
[ foto excluída ]
Após muita informação veiculada pela mídia, mobilização das marchas e manifestações populares de apoio, pesquisa de opinião do Instituto Sensus constatou que 78% da população
desejavam a proibição do porte de armas e 63,6% a proibição de sua posse. O clima no
Congresso mudou. Até aí, havia prevalecido a influência do lobby, distribuindo dinheiro e cobrindo certos políticos e outras autoridades de “mimos”, que seriam considerados crimes se tivéssemos uma lei que regulamentasse a ação dos lobistas. O Congresso passou, então, a ouvir também a voz das ruas. A participação popular, divulgada pelos meios de comunicação, virou a balança a favor das maiorias.
Sensíveis à vontade do eleitorado, mais e mais parlamentares que nos evitavam começaram a se interessar pelos dados técnicos sobre controle de armas e pelos impressionantes efeitos de
sua proliferação na vitimização de milhares de brasileiros, revelados por estatísticas até então ignoradas. Criou-se o clima favorável a um entendimento entre todos os partidos, que em 09.09.2003 possibilitou o consenso das lideranças partidárias e a aprovação do Estatuto do Desarmamento. Promulgado em 23 de dezembro de 2003, foi oferecido ao país pelo presidente Lula “como um presente de Natal”.
A nova lei seria regulamentada através do Decreto-Lei 5.123, de 01.07.2004, por meio de um processo participativo, em que a Comissão de Regulamentação, criada pelos ministérios da Justiça e da Defesa, ouviu a sociedade através da Internet e de audiência pública.
A aprovação do Estatuto foi essencial, mas é só o começo. Para haver um efetivo controle de armas e munições, ele tem que ser integralmente aplicado. Na América Latina, costuma-se dizer com certo conformismo que existe um abismo entre “o país legal e o país real”. Isto acontece quando se aprova lei que não corresponde às necessidades da sociedade, ou contraria fortes interesses, ou bate de frente contra preconceitos. O Estatuto enfrenta estes dois últimos fatores como obstáculos. O que significa que será uma “lei que pega” se houver mobilização e cobrança da sociedade.