3 O foco governamental
3.6 Estatuto do Idoso: A síntese dos direitos
Com marcações de tempo, datas, tentamos nos orientar no turbilhão da vida, fazer referências, elaborar memórias. Neste ano (2014), completam-se vinte anos da Lei 8.842/94 e dez anos que o Estatuto do Idoso (Lei 10.741) entrou em vigor99. Entre a Lei da Política Nacional do Idoso e o Estatuto passaram-se dez anos e algumas leis e decretos foram publicados. O estatuto deveria ser o documento balizador para os idosos e a sociedade em geral, que traria em seu texto todos os ganhos até a data e atos que deveriam se efetivar100. A necessidade do Estatuto se fazia presente em virtude, principalmente, do desconhecimento das leis por parte
99 A Lei foi promulgada em 2003, mas só entrou em vigor em 2004.
100 De acordo com a pesquisa Idosos do Brasil da Fundação Perseu Abramo (2006, p.247), 19% dos
entrevistados nunca ouviram falar do Estatuto do Idoso e, dos 80% que tinham conhecimento, 67% só ouviram falar e 13% de fato conheciam o documento.
dos idosos e da sociedade em geral e, como é constatável, o desconhecimento leva ao não cumprimento.
Destacaram-se no movimento para estudo e aprovação do texto: Confederação Brasileira de Aposentados e Pensionistas, Movimento dos Servidores Públicos Aposentados e Pensionistas, Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, Associação Nacional de Gerontologia, Conselhos de Defesa dos Direitos dos Idosos, Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG), CNBB (Pastoral Nacional e de Estados) e Ministério Público, entre outros.
O projeto de lei passou sete anos tramitando e sendo discutido para finalmente ser aprovado e vigorar. O primeiro projeto de nº 3561 foi apresentado em 1997 e um segundo projeto foi apresentado em 1999, sendo anexado ao primeiro para tramitação. Depois de tanto tempo em discussão, 2003 era um ano especial, pois o idoso seria o tema da Campanha da Fraternidade da Igreja Católica e estava em cartaz uma novela da Rede Globo de Televisão101 que abordava o tema da violência e abandono do idoso. De tal modo que os atores que representavam o casal de idosos na novela foram convidados para o lançamento do Estatuto e citados junto com o autor da novela pelo Presidente da República em seu discurso no Palácio do Planalto em primeiro de outubro de dois mil e três na cerimônia em comemoração ao Dia Internacional do Idoso102:
[...] Meu companheiro que não está presente aqui, mas, certamente espiritualmente está, Manoel Carlos autor da novela. Minha querida Carmem e meu querido Leopoldo. Vou chamá-los com os nomes com que todo Brasil conhece vocês. [...] Quando eu vejo a novela e vejo aquela netinha da Carmem e do Leopoldo falar com ela do jeito que fala, em casa, a gente tem vontade de dar umas palmadas nela [...] (BRASIL, 2003, p.1 e 4)
No discurso do Presidente da República, confirma-se que "para que uma determinada circunstância ou evento se transforme em problema, é preciso que as pessoas se convençam de que algo precisa ser feito" (SOUZA, 2007 p.76). O
101 Mulheres Apaixonadas, novela com 203 capítulos, escrita por Manoel Carlos, exibida de
17fev2003 a 10out2003. Direção Geral, Ricardo Waddington.
102 Disponível em:<http://www.biblioteca.presidencia.gov.br/ex-presidentes/luiz-inacio-lula-da-
silva/discursos/1o-mandato/pdfs-2003/2o-semestre/01-10-2003-discurso-do-presidente-da-republica- luiz-inacio-lula-da- silva-na-cerimonia-em-comemoracao-ao-dia-internacional-do-idoso/view>. Acesso em: 29 dez. 2013
problema da violência contra o idoso já estava posto há tempos, entretanto, antes do estatuto, as punições não eram específicas. É fato que a lei por si só não garante a extinção do que Minayo (1994, p.8) define como violência estrutural, "que seria aquela que se aplica tanto às estruturas organizadas e institucionalizadas da família como aos sistemas econômicos, culturais e políticos". Com raízes na sociedade, tais comportamentos conduziriam à "opressão de grupos, classes, nações e indivíduos, aos quais são negadas conquistas da sociedade, tornando-os mais vulneráveis que
outros ao sofrimento e à morte". Exemplifica o que apurou a pesquisa da Fundação
Perseu Abramo "Idosos no Brasil" (2006, p.252) que das pessoas pesquisadas 35% sofreram violências tais como: serem ofendidos, ironizados, humilhados, ficarem sem remédios, tratamento médico, ameaças aterrorizantes e violências físicas com lesão corporal. No Artigo 3º do Estatuto consta em seu parágrafo único a garantia de prioridade no atendimento preferencial imediato e individualizado junto aos órgãos públicos e privados prestadores de serviços à população, os bancos cumprem a determinação disponibilizando caixas específicos para idosos, no entanto, em muitos deles são as filas que mais demoram o atendimento. As conquistas no tocante às leis são realidade, os progressos em relação à alteridade, a imaginar o que sentiríamos se estivéssemos no lugar do outro ainda não se efetivaram.
A importância do Estatuto se dá principalmente em função das garantias de direitos e previsão de punições, porém, alguns de seus artigos - e da Lei da Política Nacional do Idoso - ainda não foram colocados em prática, outros foram colocados em prática parcialmente, ou não apresentaram nenhum benefício para o idoso, como o capítulo VII da Previdência Social, que apenas transcreveu o que já era instituído em lei. Ou seja, os aposentados continuam tendo seu poder aquisitivo reduzido em virtude dos reajustes que não mantêm o benefício no mesmo patamar em que foram concedidos. Empurrando-os para a necessidade de ter que procurar adaptar-se aos supostos benefícios de redução de tarifas, remédios da farmácia popular, e transporte coletivo gratuito, entre outros. O que parece um benefício, na verdade é um paliativo.
O Estatuto está estruturado principalmente em função do idoso doente, dependente econômica e psicologicamente, facilmente constatado pela leitura do capítulo III relativo aos alimentos, Capítulo IV relativo à saúde, Capítulo VIII da
Assistência Social, Capítulo IX da Habitação, Capítulo X do Transporte, e os capítulos do Título IV da Política de Atendimento ao Idoso. Se ele é um documento de proteção, é compreensível que isso se dê, mas fosse a política previdenciária mais justa, não teríamos tantos idosos dependentes de políticas públicas.
Outro capítulo que não se efetivou foi o referente à educação, cultura, esporte e lazer, no qual verifica-se que, dos seus seis artigos, somente o Artigo 23 que trata da participação dos idosos em atividades culturais e de lazer mediante descontos de pelo menos 50% nos ingressos para eventos artísticos, culturais, esportivos e de lazer, foi efetivado.
O Artigo 25 dá a saber que o Poder Público apoiará a criação de universidade aberta para as pessoas idosas e incentivará a publicação de livros e periódicos, de conteúdo e padrão editorial adequados ao idoso, que facilitem a leitura, considerada a natural redução da capacidade visual. No entanto, as ações no sentido de instituir a Universidade Aberta à Terceira Idade se deram por iniciativa dos profissionais especialistas em velhice, sem o apoio do Poder Público. De acordo com Neri (2008, p.210), atualmente são cerca de duzentos programas de extensão localizados em dezoito estados brasileiros, mas principalmente em São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina, Rio de Janeiro e Bahia.
Em Uberaba-MG, funciona a Universidade Aberta à Terceira Idade (UATI) da Universidade Federal do Triangulo Mineiro, que teve início em 2009, por iniciativa da direção do curso de Fisioterapia. É destinada para pessoas com idade igual ou superior a 55 anos, alfabetizados, que se comprometam com as atividades propostas e tenham no mínimo 75% de presença. O projeto visa, de acordo com sua Coordenadora, proporcionar os meios necessários ao exercício da cidadania plena, buscando garantir às pessoas que atingiram a maturidade, o usufruto de seus direitos à saúde, à cultura, ao lazer e a uma melhor qualidade de vida.
Contou, no ano de 2013, com quarenta e três inscritos e funciona no Centro educacional da Universidade, com 2 salas para aula e uma sala para a secretaria. Os alunos e professores dos cursos de Serviço Social, Psicologia, Educação Física, Enfermagem, Terapia Ocupacional, Geografia, Nutrição, Letras, História e Matemática desenvolvem atividades/oficinas durante 4 encontros de 2h30min por turma (duas turmas por ano), uma vez por semana (quintas-feiras, das 13h03 às
17h30). Os inscritos assistem aulas, desenvolvem trabalhos e participam de aulas práticas com um momento de livre expressão de potencialidades.
Originária da França, a Universidade Aberta se desenvolveu também nos Estados Unidos e Inglaterra e logo se disseminou em vários países da Europa, Ásia, Américas e Oceania, sendo que cada localidade adaptou o programa de acordo com sua cultura. No Brasil, em algumas Universidades, há uma ênfase maior ao programa, como a UNATI que funciona na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), que oferece aproximadamente três mil vagas para 120 cursos/atividades. De acordo com seu diretor Renato Veras103 (2012):
Nós percebemos a importância de um cuidado integral ao idoso, observando sua saúde e também com o objetivo de integrá-los em atividades lúdicas e sociais. Além disso, temos o objetivo de qualificar e formar profissionais para lidar com o idoso, com cursos de especialização, mestrado e doutorado.
O programa da Universidade Aberta à Terceira Idade da USP completou 20 anos e funciona em sete cidades de São Paulo. O sucesso da Universidade Aberta talvez esteja vinculado à quantidade de idosos nos estados, visto que, de acordo com a Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio (PNAD) de 2011, o Rio de Janeiro é a unidade da federação em que o número de maiores de 60 anos é mais expressivo em relação à população total – os idosos representam 14,9% dos residentes. No Rio Grande do Sul e em São Paulo, representam 14,7% e 12,9%, respectivamente, do total de residentes.
O Estatuto do Idoso por si não é garantia de direitos assegurados, nem a prova de que a sociedade incorporou a velhice como uma etapa natural da vida, assim não fosse, não haveria necessidade de punição para crimes e delitos, e todo o ali instituído já estaria em vigor.