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Estatuto dos Militares das Forças Armadas (EMFAR)

Capítulo 2. Associativismo Profissional dos Militares

2.2. Constituição e Papel da Organização Europeia de Associações Militares

2.3.3. Estatuto dos Militares das Forças Armadas (EMFAR)

O EMFAR, originalmente aprovado pelo Decreto-Lei nº 34-A/90, de 24 de Janeiro, já sofreu diversas alterações, nomeadamente em 1999 quando foi estabelecido, a prazo, o fim do serviço militar obrigatório (SMO). O fim da conscrição, por força da desconstitucionalização da mesma, viria a ser efectivado em 2004. Provavelmente no decorrer de 2009 irá ocorrer outra alteração ao EMFAR, por força da reestruturação de carreiras que está a ser estudada ao nível do MDN.

A desconstitucionalização da conscrição foi um processo moroso, apesar da pressão exercida nesse sentido por diversos sectores da sociedade. Do ponto de vista prático, exigiu-se às FAs um esforço de adaptação à nova realidade, nomeadamente na perspectiva do recrutamento e da formação. Desde o final da guerra colonial que as necessidades de efectivos eram facilmente supridas por pessoal no cumprimento do SMO. As FAs, que recrutam por via da conscrição, constituem-se como uma Instituição do “povo”, que integram indivíduos do “povo”, para servir os seus interesses e a identificação da Instituição com a população é natural. O fim da conscrição colocou as FAs a concorrer no mercado, por mão-de-obra qualificada, e, simultaneamente, diminuiu os laços de identificação com a população. Independentemente da vontade de quem está dentro da Instituição, esta passa a ser vista como mais uma organização a operar na sociedade, representando uma oportunidade de emprego ou de negócio. O fim da conscrição terá sido o ponto mais significativo na passagem do paradigma do modelo institucional para o modelo ocupacional. Não significa isto que a missão das FAs ou

estatuto dos militares tenha mudado radicalmente, mas a postura do cidadão em geral para com as FAs, e a forma como o factor humano passou a ser tratado, alterou-se profundamente.

Em termos da forma de prestação de serviço, podendo esta ser encarada com vínculo laboral, os militares podem designar-se: a) dos Quadros Permanentes (QP); b) em Regime Voluntário (RV); c) em Regime de Contrato (RC). É militar dos QP aquele que tenha adquirido formação adequada ao seu exercício e se encontre vinculado às FAs com carácter de permanência. Na prática, o RV e o RC têm enquadramento jurídico muito semelhante e encontra-se ao abrigo do RV/RC, o militar que ingressa no serviço por um período limitado, com vista à satisfação das necessidades das FAs, não supríveis adequadamente de outra forma ou, ao seu eventual recrutamento para os QP.

O Decreto-Lei nº 184/89, de 2 de Junho, aprovou os princípios gerais do sistema retributivo e de gestão da Função Pública, determina a aplicação às FAs das normas deste diploma. Apesar de no art. 43º referir que a aplicação do diploma aos corpos especiais pode sofrer alterações, aquele diploma constitui os militares como funcionários públicos, uma vez que estes estão abrangidos pelos princípios do funcionalismo público.

Determinar se o militares das FAs são ou não funcionários públicos é uma discussão que tem sido ampla na sociedade portuguesa. Entre analistas e juristas há opiniões diversas, que se situam ao longo de um espectro entre dois extremos. Num extremo há quem rejeite a ideia de forma liminar. A defesa dessa posição fundamenta-se na especificidade da Instituição Militar e nas diferenças indeléveis que a legislação reserva aos militares, nomeadamente as restrições previstas na CRP, na LDNFA e na Condição Militar. Uma posição diametralmente oposta, considerando os militares como funcionários públicos, é assumida, entre outros, por Francisco Liberal Fernandes, que considera que, sendo o vínculo militar laboral uma relação de emprego público, são-lhe também extensivos as normas sobre os direitos dos trabalhadores (art. 269º da CRP). O autor, referido por Morais et al (2000: 485), aborda o tema da liberdade sindical das FAs, pronunciando-se a favor dessa possibilidade, em virtude da natureza de emprego público do vínculo militar laboral.

O EMFAR aplica-se a todos os militares da FAs, independente do posto, da carreira, da forma de prestação de serviço, do Ramo ou da situação administrativa em

que se encontram. No campo dos direitos e deveres, o EMFAR decalca, quase na íntegra, os deveres que caracterizam a Condição Militar anteriormente descritos.

O EMFAR aplica uma escrita singular usando termos tradicionais da Instituição Militar. Se bem que na maioria sejam palavras da língua portuguesa, de utilização corrente pela generalidade da população, encerram, neste contexto, um significado particular e muitas vezes distinto do que lhes é dado pela “sociedade civil”, de que destacamos alguns exemplos:

a) juramento de bandeira (art.8º); b) Pátria (art.8º);

c) sacrifício da própria vida (arts.8º e 9º); d) obediência (art.10º);

e) dedicação ao serviço (art.11º); f) poder de autoridade (art.14º);

g) funções de comando, direcção ou chefia (art.14º); h) ditames da virtude e da honra (art.17º);

i) companheiros de armas (art.17º); j) missões de serviço (art.17º); k) camaradagem (art.17º);

l) títulos, honras e precedência; relações de autoridade e subordinação (art.20º);

m) valores pátrios e castrenses (art.119º); n) padrões éticos institucionais (art.140º); o) honra e lustre para a Nação (art.231º).

A especificidade linguística inserida no EMFAR, acima transcrita, é abordada por Morais et al (2000), que retomam a teoria de Charles Moskos, na qual se estabelece a dicotomia entre o institucional versus ocupacional. Referem que, por um lado, a Instituição Militar é encarada segundo o modelo ocupacional, quando vista como um dos vários subsectores da Administração Pública; por outro lado verifica-se que,

“… as FAs constroem a sua própria ordem de valores em torno de conceitos como disciplina, honra ou defesa da Pátria e a conseguem impor ao legislador, criando um regime estatutário bastante diverso dos restantes funcionários” (Morais et al, 2000: 315).

Segundo estes autores, o ordenamento jurídico, que rege a Instituição Militar em geral, e os militares em particular, carrega diversos conceitos indefinidos “a partir de códigos segregados historicamente pela instituição militar” (Morais et al, 2000: 314).

A constatação das particularidades linguísticas e conceptuais “podem revelar uma tendência institucional que certamente terá reflexos na configuração do estatuto dos militares” (Morais et al, 2000: 314). Assim, aquele diploma legal de referência distingue de tal forma os militares dos restantes agentes do Estado que permite identificar a influência institucional de uma comunidade separada.