A diferença entre a taxa efetiva e a esperada constitui o erro do agente que deverá ser multiplicado por um parâmetro J3 entre zero e um ( O � J3 < 1). Esta multiplicação pelo parâmetro significa que apenas parte do erro é incorporado. Assim, quanto maior for este parâmetro (mais próximo de um) maior será o ajuste realizado pelo agente em relação ao etro. Em outras palavras, quanto maior o parâmetro, maior a velocidade de ajustamento da taxa esperada à taxa de fato observada e vice-versa3 1 •
O autor define a sua equação na forma de uma equação diferencial linear de primeira ordem. Resolvendo-a chega-se a uma expressão em que o comportamento da taxa esperada de inflação para o período seguinte (t + 1) é igual ao somatório de todos os movimentos anteriores da inflação, cada um ponderado por . um parâmetro que varia conforme o tempo. Mais precisamente, este parâmetro diminui exponencialmente conforme aumente a distância no tempo da observação32. Isto é: quanto mais antiga a observação,
menos ela influencia na expectativa futura dos preços.
Diante de uma equação que mostra a formação da expectativa dos preços futuros ( dependente do comportamento passado da inflação) e de uma equação que descreva a relação entre demanda por moeda e a expectativa dos preços futuros (uma relação linearizaãa pelo uso de operações logarítmicas), Cagan constrói um modelo econométrico para verificar a aderência da teoria aos dados.
A sua conclusão é que existem resultados bastante significativos que mostram que, em períodos de hiperinflação, a inflação é que determina a oferta real de moeda ( o raciocínio segue a seguinte linha: a inflação passada determina a expectativa de inflação expectativa de inflação no instante i para o período i+l e À- é urna constante positiva (Domingues, 1997, p.12). Ou seja, a diferença entre o que se espera hoje da inflação do período que vem e o que se esperava no mês passado da inflação de hoje é uma proporção fixa da diferença entre a verdadeira inflação de hoje com o que se esperava que ela fosse no período passado. No caso de Cagan, temos a utilização do operador derivada (ao invés do diferença) na seguinte forma: (dll e t+i/ dt) t = 13 (II t - II e t), onde (II e t) é o valor esperado no
período t-1 da taxa de inflação do período t, 13 é urna constante não negativa menor do que um e 1t t = ( dlnP/dt)
t., P sendo o nível geral dos preços na economia (ibidem, p.18).
31 Turnovsky (1972), citado em Holden, Peel & Thompsom (1985) desenvolve um modelo mais geral em que a hipótese de expectativas adaptativas torna-se compatível com um parâmetro que possa assumir quaisquer valores. A expectativa de inflação futura (EtPt+I) depende então do valor da inflação corrente (Pt) mais o ajuste do erro (Pt - Pt-1) ponderado pelo parâmetro 13: Et Pt+ I = Pt + 13 (Pt - Pt-1 ). Se 13 assume valores maiores do que um, significa que as variações da inflação passada estarão sendo extrapoladas e espera-se que continuem com este comportamento. Se 13 assume valores negativos, significa que os agentes esperam que o comportamento passado da inflação seja revertido.
futura, que determina, junto com alguns parâmetros, a demanda real por moeda que, por sua vez, é igual à oferta real de moeda). Todavia parece existir também um efeito no sentido contrário, ou seja: "que variações na oferta de moeda em períodos de hiperinflação são responsáveis por variações de preços com alguma defasagem" (Domingues, 1997, p.21).
A conseqüência em termos de política econômica (decorrente da hipótese de expectativas adaptativas) é que o esforço de fazer política monetária restritiva é esvaziado pelo fato de as expectativas dos preços dependerem da inflação passada e não da política monetária vigente. Assim, para combater uma inflação atual seria necessário um longo período de políticas contracionistas até que estas começassem a surtir efeito - o que evidentemente implicaria elevados custos sociais. Com expectativas adaptativas, políticas fiscais e monetárias restritivas teriam, no curto prazo, efeitos apenas no nível de emprego e da renda (recessão) e poucos efeitos sobre a inflação.
Analogamente, acelerações da taxa de expansão monetária custariam a influenciar significativamente a expectativa de preços e, portanto, a inflação. Os efeitos de curto prazo seriam uma expansão do nível de produto e emprego. No longo prazo, porém, o efeito se daria sobre o nível dos preços. Ou, de acordo com Milton Friedman (1968), uma expansão da oferta de moeda teria como primeiro impacto a redução da taxa de juros o que estimularia gastos e investimentos. A renda ( e com ela o nível de emprego) então cresceria, num processo multiplicador, fazendo crescer também a demanda por liquidez e a demanda por empréstimos. Este aquecimento da economia, por sua vez, elevaria os preços, reduzindo a oferta real de moeda e terminando por aumentar também os juros. O aumento destes anularia o anterior efeito expansivo no emprego e no produto, deixando como herança apenas o aumento no nível geral dos preços. Este processo, no entanto, se daria de forma lenta, demorando, segundo as estimativas de Friedman, cerca de dois anos até completar-se. 33
32 Matematicamente: I1
1.2.2.2 - Expectativas racionais
Thomas Sargent é um dos grandes economistas adeptos da escola de expectativas racionais. Aproveitaremos este item para comentar as criticas teóricas de Sargent aos inercialistas, referidas anteriormente.
Basicamente, a crítica de Sargent (e da escola de expectativas racionais) às expectativas adaptativas refere-se ao fato de que nem sempre é racional ( aqui entendido como um comportamento individualista maximizador de utilidade) projetar o comportamento passado de certas variáveis para o futuro - principalmente, quando há mudanças nas regras da economia, como no caso analisado das economias européias na década de 1920.
' Havendo descontinuidades nos regimes econômicos, não há razão para se esperar que os agentes continuem tomando decisões de acordo com as antigas regras não mais imperantes. Se assim agissem, os agentes estariam ou desperdiçando informações ou sendo sistematicamente incapazes de perceber as mudanças ocorridas - ambos os comportamentos violariam o pressuposto da racionalidade econômica.
Neste sentido, a crítica se estende não apenas àqueles que utilizam mecanismos adaptativos em seus modelos, mas também a todo e qualquer modelo econométrico que, diante de mudanças estruturais da economia, pressuponha inalterados no tempo os parâmetros utilizados para as equações representativas das "regras de decisão" dos agentes (sejam estas funções referentes ao comportamento dos consumidores, das firmas ou do governo).
Enquanto não há mudanças no meio é natural supor que os agentes não alterem seus parâmetros e que os modelos co.nsigam prever, aproximadamente, o comportamento das variáveis. Se, porém, ocorrem mudanças nos parâmetros da economia, seja por variações na política econômica seja por choques externos (duradouros) que ocorram, não há porque supor que os agentes continuarão a comportar-se de acordo com os antigos parâmetros - não mais condizentes com a realidade. O agente pode até não perceber imediatamente a mudança ocorrida devido a um problema informacional da economia, mas não pode
(1997).