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Estereótipos – A memória e outros aspectos cognitivos

Quando tomamos como referência a psicologia cognitiva, percebemos que os estereótipos são parte dos construtos sociais, pois remetem a uma caracterização de grupos. Além disso, tratam de cognições de grupos a respeito de particularidades acerca de categorias sociais mais genéricas e, portanto, têm relevante papel na construção da memória.

Segundo Rita Atkinson (2003), o estereótipo é um “pacote de conhecimentos” sobre os traços de personalidade ou sobre os atributos físicos que julgamos serem verdadeiros para toda uma classe de pessoas. Podemos verificar, por exemplo, como os atributos, positivos ou negativos, imediatamente atrelados à palavra mulher, formam um conjunto de conhecimento: mãe, filha, bela, sensível, complexa, frágil, delicada, instável.

Outra característica que podemos identificar é que os estereótipos permitem construir uma memória específica a respeito de um indivíduo ou grupo e também, por meio de substituição, reconstruí-la. Na ausência de dados específicos sobre determinada pessoa ou grupo, os estereótipos, através do “efeito de acentuação”28, permitem uma aproximação forçada da percepção na reconstrução da memória.

Além do caráter de formação e ativação da memória, os estereótipos podem ser considerados como generalizações formadas por um grupo de pessoas a respeito das qualidades e do comportamento de outros grupos de pessoas, considerando-os, inevitavelmente, como produtos dos processos cognitivos de adaptação utilizados pelos indivíduos para simplificar e organizar as informações presentes no ambiente, bem como preservar a consciência do real.

28 Designa a tendência para sobreestimar semelhanças entre pessoas que são percebidas como

pertencendo à mesma categoria e as diferenças entre pessoas que são percebidas como pertencendo a categorias diferentes.

Um dos motivos que justificam a rigidez dos estereótipos é a necessidade do resguardo da noção de realidade que cada indivíduo possui e até mesmo do seu entendimento identitário:

Any disturbance of the Stereotypes seems like an attack upon the foundations of the universe. It is an attak upon the foundations of our universe, and, where big things are at stake, we do not readily admit that there is any discution between our universe and the universe. (…) A pattern of stereotypes is not neutral. (…) It is the guarantee of our self- respect; it is the projection upon the world of our own value, our own position and our own rights. The stereotypes are, therefore, highly charged with the feelings that are attached to them. They are the fortress of our tradition, and behind its defense we can continue to feel ourselves safe in the position we ocupy29. (LIPPMANN, 1922, p.96)

A partir dos anos oitenta, os pesquisadores Hamilton e Trolier (1986) apresentaram uma definição de estereótipo que se tornou uma das mais conhecidas até hoje. A sua definição trata os estereótipos como estruturas cognitivas, compostas pelo conhecimento, pelas crenças e pelas expectativas do sujeito em relação a qualquer grupo específico humano. A definição sugerida pressupõe uma observação sócio-cognitiva e rompe os paradigmas psicólogos sociais utilizados até então.

Do ponto de vista analítico, é importante buscar um entendimento dos processos através dos quais os estereótipos influenciam a percepção social, o juízo dos fatos e o comportamento humano. Segundo Jeffrey W. Sherman (1996), a aplicação dos estereótipos pode influenciar a maior parte do processamento das informações sociais.

Sherman comenta que a ativação dos estereótipos pelo sujeito vincula-se ao posicionamento da atenção, à interpretação dos comportamentos, à elaboração de inferências, à busca de mais informações, à escolha do tipo de informação a ser resgatada

29 Qualquer perturbação aos Estereótipos parece ser um ataque sobre as fundações do universo. É

um ataque sobre as fundações do nosso universo, e, onde as coisas importantes estão em jogo, não admitimos imediatamente que há alguma discussão entre nosso universo e o universo (...). Um padrão de Estereótipos não é neutro (...). É a garantia de nosso respeito próprio; é a projeção sobre o mundo de nosso próprio valor, nossa própria posição e nossos próprios direitos. Os estereótipos são, portanto, altamente carregados de sentimentos atrelados à eles. São as fortalezas de nossa tradição, e atrás de sua proteção podemos continuar a nos sentir salvos na posição que ocupamos.

Trecho traduzido do idioma inglês para o português por Marcelo Wasserman, assim como todas as demais traduções contidas nessa pesquisa.

da memória, além de poder levar este mesmo sujeito a procurar apenas justificativas que confirmem os seus próprios estereótipos (SHERMAN, 1996).

Existe uma corrente teórica ligada à psicologia social que acredita que os estereótipos são utilizados pela mente de forma autônoma, separados do restante da memória. Isso permitiria que, em determinadas situações interpretativas nas quais encontra elementos de difícil compreensão, o sujeito buscasse subsídios mais genéricos numa espécie de “banco de dados” para conseguir um entendimento satisfatório da sua representação.

Outro elemento significativo do aspecto cognitivo social é a forma como os estereótipos influenciam no processamento da informação. Acredita-se que os estereótipos interferem nos processos atencionais, principalmente por atingir a atenção seletiva do indivíduo, direcionando-a para aspectos particulares da informação disponível.

Sendo assim, se os estereótipos podem alterar a forma como o indivíduo perceptor “enxerga” seu entorno, direcionando sua atenção para determinadas particularidades, podemos por dedução acreditar que os estereótipos influenciam também as interpretações e as inferências no âmbito social, indicando uma forte capacidade de influência na atenção e memória coletiva.

A atenção tem um papel importante na forma como o indivíduo processa as informações e se relaciona com a tentativa de prever ou controlar os fenômenos a sua volta. Para Sherman (1996), os estereótipos podem se tornar úteis, pois permitem que se preste atenção quando ocorre uma informação incongruente com a informação contida no estereótipo, levando o indivíduo a perceber que algo está incorreto na sua maneira de entender o mundo.

Tanto Sherman (1996) quanto, anteriormente, Hamilton(1986) dissertam a respeito da capacidade cognitiva do sujeito perceptor ao se deparar com as idiossincrasias do ambiente e automaticamente relacioná-las aos estereótipos. Esse processo, além de gerar um entendimento mais rápido, reconfigura o próprio sentido do estereótipo, criando um novo índice de memória no sujeito.

O entendimento de alguns destes preceitos psicossociais a respeito dos estereótipos permite uma ampliação e formação de uma base que possibilita relacionarmos estes mesmos estereótipos à noção de perspectiva social, em que o modo como o indivíduo percebe e se relaciona com os outros é preponderante na construção de sentido, tanto do humor quanto da persuasão nas relações sociais.

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