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3 PASSOS PELA LITERATURA DO OUTRO

3.2 REPRESENTAÇÕES LITÉRÁRIAS

3.2.2 Estereótipos sem fim: rastros dos “ciganos”

Continuo o percurso pelas representações, no sentido de evidenciar a gama de estereótipos que foram sendo literariamente construídos em relação aos romà. A “cigana” que foi abordada de forma específica, volta a aparecer aqui, porém associada a outros estereótipos,

259 MÉRIMÉE, Prosper, Carmen, p.223.

260 É interessante observar que em alguns poucos romances, como o Capitão Fracasso (1835), de Theóphile

Gautier aparecem “ciganas” virtuosas, porém estão fadadas a morte. Às vezes, essas personagens, por serem virtuosas, também deixam de ser “ciganas” em razão de algum amor (uma espécie de “recompensa” por serem boas), que as “livra” da vida que levam com os “ciganos”. A identidade étnica dessas personagens raras e “paradoxais”, de qualquer forma, não pode sobreviver.

não relacionados com a “sedução fatal” da personagem Carmen e sim, como parte indissociável das representações dos “ciganos”. As obras serão discutidas em uma sequência principalmente cronológica, de forma a evidenciar a evolução dessas representações e a influência de umas sobre as outras na manutenção da “tradição” dos estereótipos. Contudo, em alguns momentos, a sequência cronológica é quebrada. A ruptura visa agregar às reflexões, evidências encontradas em obras de outros períodos que representem um mesmo tipo de imagem estereotipada, algumas coincidências ou ao contrário, divergências significativas que enriqueçam a discussão.

Primeiramente, remeto-me ao início da diáspora, na intenção de evidenciar que desde o que Fraser chama de “pré-história romà” (séc. X), os romà são representados envoltos em estereótipos. A primeira representação literária a respeito dos romà que se tem história encontra-se em Shahnameh (1010), do poeta persa Fidursi. Vários historiadores, entre eles Fraser, fizeram referência à lenda apresentada em Shahnameh, como comprovadora da passagem e longa estadia da etnia na Pérsia261. Nela, o bondoso rei Bahram Gur solicita ao rei indiano Shagul, dez mil músicos luris (romà) para alegrar a vida dos pobres de seu reino. Assim que os romà chegam para exercer a atividade, o rei lhes dá animais e trigo para que, além de músicos, pudessem ser agricultores. Em pouquíssimo tempo, os romà perdem quase tudo e se apresentam ao rei em condições precárias, ao que o monarca lhes diz que:

não deveriam ter dissipado as sementes, o trigo verde e a colheita. Agora lhes restam os asnos: carregai-os com vossas coisas, preparai vossos instrumentos e colocai cordas de seda. Ainda hoje, os luris, seguindo aquelas palavras justas do rei, vagam pelo mundo tentando ganhar a vida, companheiros de abrigo dos cachorros e dos lobos, para roubar día e noite262.

Como se observa, os romà já são representados como condenados a serem ladrões. Também fica explícita a ociosidade e a não observância de regras do povo. Nota-se que desde aquela época, desejava-se a sedentarização dos nômades, a despeito de que fossem bons músicos e devessem caminhar para tocar aos pobres. Ainda em relação à presença dos romà na literatura oriental, encontramos referências em uma compilação feita por Marguerite Yourcenar, em que inclui o conto “La leche de la muerte”, protagonizado por um grupo de

261 Shahnameh (O livros dos reis) é um longo poema épico, considerado uma epopeia nacional do Irán (Persia),

conta o passado histórico do império desde a criação do mundo até a conquista islâmica no século XII. As lendas são bastante referenciadas nesses versos.

262 FERDOWSI,Hakim Abol Ghasem. Shahnameh o El Libro de los Reyes, Tradução ao espanhol de Beatriz

Salas de Rafiee, Ed. Instituto de Estudios Islámicos, Vol. I y II, Teherán, 2014, pp. 380-390. “no hubierais debido disipar las semillas, el trigo verde y la cosecha. Ahora os quedan los asnos: cargadlos con vuestras cosas, preparad vuestros instrumentos y ponedle cuerdas de seda. Todavía hoy, los luris, siguiendo aquellas palabras justas del rey, vagan por el mundo buscándose la vida, compañeros de cobijo de los perros y los lobos, para

“ciganos”. O texto chama a atenção pela crueldade e selvageria dos personagens romà, sobretudo da mãe “cigana” que:

Levava uma criança nos braços, cujos olhos doentes desapareciam sobre uma vendagem de farrapos [...]. Há alguns meses vem colocando nos olhos de seu filho uns asquerosos emplastos que lhe inflamam a vista e provocam a compaixão dos transeuntes. […] 263.

Histórias sobre mães “ciganas” cruéis são comuns não só na literatura, como também em documentos oficiais e em estudos realizados sobre a etnia. Os estereótipos foram disseminados e perpetuados de tal forma, que não se sabe se a literatura baseou-se nesses documentos ou vice-versa Possivelmente houve uma retroalimentação. No estudo antropológico datado de 1886, de Melo Morais Filho, considerado pioneiro no estudo sobre os “ciganos” no Brasil, observa-se a seguinte passagem:

E ao remanso da noite, resvalando rente ao muro da roda dos expostos, a mendiga do Arco deitava-se a um lado, de ouvido atento ao vagido triste da criança [...], a megera hórrida o suspendia entre mãos esqueléticas e aceleradas, envolvia-o espantada, no trapo do seu xale dilacerado e nojento, e pé ante pé, a passos de loba, sumia-se, dirigindo-se ao mangue do Aterrado. Aí, amordaçando a inocente vítima e pendurando-a de cabeça para baixo a um galho de arvoredo, incisa-lhe o pescoço com um canivete de mola, acocorava-se após, lavando-se no sangue quente do pobrezinho que, degolado, esquartejado, fragmentado, era atirado ao soturno dos pântanos, à profundeza da vasa 264.

Neste trecho, que poderia ser chamado perfeitamente de ficção, o que mais chama a atenção é a criatividade do autor que, sem citar referências, simplesmente baseia-se em testemunhos ditos reais e difunde, durante todo o seu estudo, uma imagem cruel e inferiorizante dos romà.