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3. TELEVISÃO, TELEJORNALISMO E SOCIEDADE:

3.4 A MIDIA E OS ESTEREÓTIPOS

3.4.1 Os estereótipos no telejornalismo

No estudo intitulado Estereótipos no telejornalismo brasileiro: identificação e reforço, Moroni e Oliveira Filha buscaram verificar se o telejornalismo brasileiro transmite e reforça os estereótipos. Para tanto, foram analisadas entrevistas feitas com 19 pessoas que assistiram matérias veiculadas em três telejornais nacionais, gravados numa mesma semana em julho de 2006. As pesquisadoras gravaram seis edições dos seguintes telejornais: o Jornal Nacional da Rede Globo, o SBT Brasil e o Jornal da Record. Os programas foram escolhidos pela suposição de que exibem coletivos sociais diversos e por serem exibidos na mesma faixa horária, além de serem os de maior audiência. A coletânea foi mostrada às 19 pessoas citadas – todas paranaenses e moradoras de Curitiba ou de alguma cidade da região metropolitana da capital do Paraná - que depois passaram por entrevistas individuais. De acordo com Moroni e Oliveira Filha, algumas palavras relacionadas aos conteúdos das reportagens foram apresentadas durante a entrevista e os entrevistados fizeram associações.

A palavra “nordestino” foi relacionada com pobreza, gente passando fome e clima quente e seco; pouca cultura (no sentido de educação), muita religiosidade e alegria. Segundo as autoras, as respostas mostraram ainda que o estereótipo do nordeste/nordestino compreende pessoas de “cabeça chata”, com linguagem e sotaque diferenciados, batalhadoras, acolhedoras e religiosas. A estereotipização do termo, no entanto, estaria mais diretamente ligada à seca, pobreza e sofrimento.

Alguns dos pontos do estereótipo mencionado foram representados em duas matérias em que o nordeste/nordestino foi tema durante o período analisado. O Jornal da Record, do dia 17 de julho de 2006, exibiu uma reportagem sobre as baixas temperaturas no nordeste brasileiro. A matéria foi feita pela repórter Renata Alves na cidade de Santa Rosa do Ermírio, em Sergipe.

Já na cabeça de VT, ancorada por Adriana Araújo, há uma generalização, que é própria dos estereótipos. No texto lê-se: „O nordestino, acostumado a chão seco e calor, enfrenta um inverno rigoroso com muita chuva e frio‟. Em seguida, a repórter fala na passagem: „O sertanejo inicia o trabalho nas primeiras horas da manhã. É que o inverno também traz mudanças para o homem do campo. Longe do período da seca, a produtividade do gado leiteiro aumenta‟ (MORONI e OLIVERA FILHA, 2008, p. 34)

A palavra “francês” foi identificada com perfume, falta de banho, luxo, elegância, cultura. Várias matérias na semana analisada tratavam do forte calor que enfrentava o hemisfério norte e falava inclusive da França, que tinha temperaturas acima de 30 graus. Uma das matérias dizia que autoridades recomendavam quatro banhos por dia. Outra reportagem de outro telejornal relacionava o francês com o luxo e o apreço cultural.

A partir da análise realizada, pode-se apontar que o estereótipo existente sobre francês estaria ligado a produção de bons perfumes, a falta de banho, mas também a um certo porte de luxuosidade e valoração cultural (MORONI e OLIVERA FILHA, 2008, p. 39).

A palavra “negros” foi identificada com falta de oportunidade, cotas para estudantes, preconceito, racismo, discriminação, escravidão, pobreza. Não houve nenhum apontamento positivo em relação à palavra negros.

A expressão “mulheres bonitas” foi relacionada com rosto e corpo, mas aqui houve maior dificuldade dos entrevistados em fornecer definições precisas, ao contrário das palavras anteriores. Metade dos entrevistados relacionou a expressão com magreza e alta estatura, mas a outra metade discordou. Durante a semana, o Jornal da Record havia exibido uma série de reportagens sobre a busca da beleza. As matérias falam da “beleza comprada” em academias, em clínicas de estética e de cirurgia plástica, mas mostram também mulheres falando que “é bonita quem se sente bonita...”. Segundo as autoras, a partir das respostas foi possível perceber que os entrevistados consideram que o padrão social de beleza são as mulheres altas e magras, apesar da maioria absoluta não concordar com essa imposição estética. Além disso, outras qualidades que não incluem beleza física foram analisadas para a classificação da mulher bonita.

Os resultados obtidos ao longo dos procedimentos realizados durante a pesquisa teórica e a análise empírica comprovam que o telejornalismo contribui para que estereótipos já existentes na sociedade sejam reforçados. Para isso, o gênero jornalístico utiliza-se de expressões generalizantes e presentes no senso comum, e tem o hábito de apresentar determinados grupos sociais a partir de um mesmo enfoque. Tal conduta favorece a consolidação dos estereótipos, já que a repetição é uma das maneiras pelas quais esses padrões se constituem enraizados no meio social.

Outra comprovação desta hipótese está representada nas respostas da última pergunta realizada aos depoentes: „Você acredita que as reportagens reforçaram essas impressões que você já possuía?‟ Todos responderam que sim, que houve um reforço e o que eles assistiram não mostrou uma visão realmente distinta da original. Apenas o estereótipo da beleza feminina foi reforçado parcialmente. Houve a confirmação do que os entrevistados indicaram como o padrão estético da mulher bonita existente na sociedade (alta e magra). Porém, muitos deles discordam desse modelo e valorizam outros atributos, que foram apresentados de maneira superficial pelas reportagens (MORONI e OLIVERA FILHA, 2008, p. 48).

Em resumo, os assuntos e a forma como os grupos sociais foram apresentados nos telejornais reforçaram as respostas dos receptores, que foram produzidas de forma imediata e praticamente sem reflexão, de acordo com as pesquisadoras. Talvez isso seja um indicativo de que e televisão – em especial os telejornais - transmite algumas informações com base exclusivamente em preceitos, muitas vezes, sem fundamento. A estereotipização no telejornalismo acontece especialmente quando grupos étnicos, com especificações regionais ou de nacionalidade, estão envolvidos, segundo a pesquisa. O povo nordestino foi descrito como um povo alegre, porém pobre, sofredor e com pouca educação ou “cultura”. Os franceses ganharam atribuições ligadas à cultura, no sentido de educação intelectual, porém, também foram relacionados à falta de banho.

Em grande parte das situações os grupos receberam estereótipos negativos, tanto nas respostas dos entrevistados como nas reportagens veiculadas nos telejornais. Por fim, foi reafirmada a necessidade de novas reflexões e estudos sobre o tema, objetivando evitar que o telejornalismo contribua para a disseminação de idéias simplistas, base do preconceito e discriminação (MORONI e OLIVERA FILHA, 2008, p. 49).

A questão dos estereótipos e de como eles aparecem na televisão nos interessa por estar de mãos dadas com a proposta deste trabalho: perceber como são mostradas as alteridades e qual é grupo identitário de referência do Jornal Hoje, como já explicitamos nas páginas

introdutórias. Veremos como o referencial teórico exposto é aplicado à análise do telejornal no capítulo que será apresentado a seguir.