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ANÁLISE dos Discursos

4.1 PROCESSO SAÚDE/DOENÇA MENTAL

4.1.2 Estigma e Preconceito

Desde a Antiguidade, os portadores de transtornos mentais sofrem com estigmas, rótulos e formas de tratamento que eram e ainda são vistas como reflexos dos valores sociais predominantes, com relação à percepção social da doença mental. Assim, o sujeito com uma doença mental foi visto como incapaz e perigoso, que são as principais características que compõem seu estigma social. Apesar das mudanças de conceitos e práticas, essa imagem ainda predomina nas representações sociais de muitos dos profissionais. A nosso ver, essa concepção se deve, em grande parte, ao desconhecimento das pessoas acerca do tema.

Castel(146) alerta para o elevado grau de cristalização de preconceitos e estigmas assim como os ricos de não serem incrementados, a autonomia de indivíduos e grupos, tornando-os dependentes de políticas compensatórias; acredita-se ser essa uma política necessária de inclusão, que deve ser monitorada para que sejam reconhecidos seus fatores limitantes.

Goffman(147) apresenta o preconceito sob a visão da sociedade e o estigma que se fixa na pessoa que sofre esse impacto, como se carregasse na fala uma marca que pudesse ser reconhecida. Dessa forma, a sociedade passa a ser a maior julgadora e o melhor ambiente para as situações preconceituosas. Goffman(147) entende o estigma como uma diferenciação pejorativa, que é indesejada e implica uma intolerância grupal.

Sendo assim, o estigma está relacionado ao conceito de uma marca, uma cicatriz ou sinal; o termo estigma foi criado pelos gregos “para se referirem a sinais corporais com os quais se procurava evidenciar alguma coisa de extraordinário ou mal sobre o status moral de quem a apresentava”(147).

Apesar das mudanças conceituais provocadas pela reforma psiquiátrica, de maneira geral, a sociedade ainda possui uma visão distorcida sobre os doentes, sendo vitimas de preconceitos. Isso ocorre até mesmo em instituição bastante diferente dos antigos manicômios, como poderemos ver nos discursos dos profissionais da ESF mais à frente.

compreensão de conceitos e preconceitos, assim nos remete à compreensão do mundo. Gadamer(148) afirma que pertencemos a um contexto, seja ele histórico ou cultural: ele nos fornece os pressupostos para nos relacionarmos com o mundo. Sempre que vamos ao encontro do novo, temos, antecipadamente, pré-compreensões que favorecem a compreensão daquilo que até então era estranho e desconhecido.

A compreensão do que está posto no texto consiste precisamente na elaboração desse projeto prévio, que, obviamente, tem que ir sendo constantemente revisado com base no que se dá conforme se avança na penetração do sentido”(148).

Sem esses preconceitos (pré-compreensões), não haveria compreensão, porque a nossa mente seria como um papel em branco, ou seja, sem nenhuma estrutura prévia que possibilitasse compreender o que nos é apresentado. É de grande importância que estejamos com a mente aberta para o novo, para uma compreensão diferente do que possivelmente esperamos obter. É necessário que deixemos que esses preconceitos sejam testados pela alteridade do texto(148).

Conceitos formados em cada existência, conceitos que são incorporados desde sempre, tornam-se preconceitos para novos conceitos. É dessa forma que obtemos a compreensão do mundo e das coisas do mundo sem que a mente fique estagnada e inerte em determinado conceito formado e petrificado(148).

Sendo assim, podemos afirmar que devemos desmistificar o imaginário provocado pelo senso comum na sociedade, de que o louco é perigoso e agressivo. Os profissionais da ESF passam por essa experiência no seu enfretamento diário, conforme os relatos:

AC82 Eu tinha muito preconceito de falar com a pessoa, tinha depressão. E ela é um

caso de depressão, eu, com bastante preconceito, cheguei nessa primeira visita lá na residência, e toda aquela circunstância.

E114 Eu não digo que eu tenho medo hoje, o medo que eu sinto é de não saber trabalhar e não o medo do paciente, mas o medo de repente não conseguir desenvolver o trabalho que vá suprir as necessidades desse tipo de paciente.

AC22 No início, eu tinha muito receio, porque ele é conhecido no bairro como uma pessoa violenta, e tem os transtornos dele. Então, no início, me deu muito medo.

AC26 Mas eu converso com ele na rua. A minha abordagem é essa, só de conversar, quando ele quer conversar, caso contrário eu converso mais com a família. Essa é minha abordagem como ACS em relação a esse paciente que eu ainda tenho receio, e muito.

Conforme os relatos dos profissionais da ESF, a necessidade de enfrentamento com a situação posta determinou um aprendizado, pois levou a uma sensibilidade que implicou uma tomada de consciência das próprias pressuposições e dos próprios pré-juízos de valores.

Em um estudo realizado por Botti e Andrade(149), com a equipe de saúde da família, em uma UBS da cidade Betim/ MG, um dos seus informantes, após as capacitações desenvolvidas, relatou que: “perdemos um pouco do medo e do preconceito do portador de sofrimento mental”. Semelhante aos relatos dos discursos aqui apresentados.

Essas transformações no contexto histórico do campo da saúde mental vêm sendo problematizadas, no sentido de modificar o atendimento ao doente, pois, superar o modelo manicomial que já não encontra mais sustentação no SUS, com suas práticas de segregação e estigmatização, acabam reforçando que necessitamos adquirir novas experiências tecnológicas, sendo que a vivência e a experiência desses profissionais nos transportam para um novo aprendizado, na assistência ao doente mental, a partir de outro paradigma.

Percebe-se, pelo discurso dos informantes, que, após a visita ao paciente, o preconceito que perpetua historicamente no imaginário da sociedade, decorridos os primeiros contatos, se é “bem sucedida a experiência com portador de transtorno mental,”[...] “o medo e o estigma diminuem”(150).

Nos relatos a seguir, observamos que os discursos voltam-se para o medo de serem agredidos pelos doentes mentais durante a visita domiciliar.

AC28 Fiquei escondida para que ele não me identificasse, porque quando ele

identifica uma pessoa e ele cisma com ela, isso é a mãe dele que diz, ele costuma perseguir.

AC210 Eu fiquei escondida atrás do carro, com medo. Essa situação [paciente estava

sendo colocado na viatura por três guardas] para mim, como ACS, como pessoa que tem vínculo direto com a família, foi muito triste porque ver o fato que ele estava fazendo aquilo ali é uma pessoa praticamente normal que a gente conversa, e troca umas ideias, mas ele espalha esse terror pelo bairro todo, esse dia foi triste.

sabia que eu podia entrar, que não estava correndo nenhum risco. O dia que eu passava na casa dela, que ela não queria me atender, ou que ela me atendia lá de dentro da casa, porque ela mora nos fundos, eu não entrava. Porque eu sabia que ela não estava legal para me atender, ela já estava entrando em surto, ela já estava surtando.

AC12 Um dia que eu cheguei na casa dela, ela não me atendeu, mesmo assim eu

entrei. Ela ficou parada, tipo uma estátua, olhou fixo para mim, fechou a mão, e não respondia o que eu estava falando para ela. Ela estava em outro mundo. Eu não dei as costas para ela e saí. Saí de frente para ela, vim andando de fasto até eu chegar no portão.

AC15 Porque eu não sei até que ponto ela vai estar conversando comigo, ou até que

ponto ela vai estar me agredindo.

AC124 Apesar que, às vezes, eu penso que a gente não tem culpa, né? de ela estar

estressada com a família, com o marido, com o cachorro, e vem se vingar em nós.

AC122 É como eu disse, você nunca sabe até quando a pessoa está normal, né?

Então, em questão de segundos, ela já surta.

AC59 Ela é muito ciumenta, outro dia ela agrediu uma moça que estava conversando

com o marido dela.

Relatos como esses foram encontrados por Maciel(150), que constatou

que os profissionais da equipe de Saúde da Família apresentam dificuldade para superar o estigma relacionado às doenças mentais, e ainda detectou que tinham medo de serem agredidos fisicamente durante a visita domiciliar.

Sobre o ponto de vista do paradigma emergente, na área de saúde mental, esse modelo permanece em constante tensão com o paradigma tradicional biológico, restringindo-se à doença mental e à periculosidade social que o doente mental representa(151,152).

Para proporcionar melhor atendimento, tornam-se imprescindíveis ações assistenciais que promovam a integração social da sua clientela e minimizem os efeitos do preconceito na vida do usuário. Infelizmente, esse processo de desmistificação da loucura ainda tem um longo caminho a percorrer, até se dissiparem concepções errôneas presentes no imaginário popular.

Observamos, nos discursos, que a insegurança gerada pela falta de formação, aliada ao estigma da loucura, contribuem para a grande resistência dos profissionais em relação à corresponsabilização. Em determinadas situações, os profissionais sentem-se inseguros para lidar com esses pacientes e o atendimento inicial poderia ser realizado junto com profissional da área de

saúde mental, dessa forma, desmistificar sofrimento psíquico da doença mental, ajudando a diminuir o preconceito e a segregação da loucura.