2.2 A EPISTEMOLOGIA DE FLECK
2.2.2 Estilo de Pensamento e Coletivo de Pensamento
Os fundamentos da epistemologia de Fleck (1986) são as categorias de Estilo de Pensamento e Coletivo de Pensamento. Para Fleck, a ciência não é uma construção formal, mas, essencialmente, uma atividade conduzida por comunidades de investigadores. Considerando que a ciência é realizada cooperativamente por pessoas, o autor propõe que se deve levar em conta, além das convicções empíricas e especulativas dos indivíduos, as estruturas sociológicas e as convicções que unem entre si aos científicos.
De forma mais abrangente, pode-se dizer que o Coletivo de Pensamento é a unidade social da comunidade de cientistas de um campo determinado do saber. Já o Estilo de Pensamento é a pressuposição de acordo com um estilo sobre a qual o Coletivo de Pensamento constrói seu edifício teórico. O pressuposto é que o saber nunca é possível em si mesmo, mas só abaixo às condições de certas suposições sobre o objeto, ou seja, essas suposições não podem tornar-se compreensíveis a priori, mas somente como produto histórico e sociológico da atuação de um Coletivo de Pensamento. Pode-se considerar o EP como os conhecimentos e práticas compartilhadas por membros da comunidade de pesquisa que constitui o Coletivo de Pensamento.
Da mesma forma como Masternmann (1979) analisou a obra de Thomas Kuhn, “A Estrutura das Revoluções Científicas”, identificando a existência de 21 definições para o conceito de paradigma, um grupo de pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina debruçou-se sobre a obra de Fleck, “A Gênese e desenvolvimento de um fato científico” nas versões em alemão, inglês e espanhol, identificando mais de quarenta elementos agregados à categoria de Estilo de Pensamento. (DELIZOICOV, 2002, p. 55).
Nesse sentido, Cutolo (2001, p. 55) sintetiza a compreensão do estilo de pensamento como “1- modo de ver, entender e conceber; 2- processual, dinâmico, sujeito a mecanismos de regulação; 3- determinado psico/sócio/histórico/culturalmente; 4- que leva a um corpo de conhecimentos e práticas; 5- compartilhado por um coletivo com formação específica”.
Destaca que essas características possuem uma articulação potencial. “Não ocorrem isoladamente e constituem-se em princípios, podendo ser tomadas genericamente como elementos fundamentais constituintes do Estilo de Pensamento”. (CUTOLO, 2001, p. 57).
Delizoicov (2002) identifica os seguintes elementos:
Corpo de conhecimentos [...]; diferentes enfoques entrelaçando-se: elementos teóricos e práticas [...]; possuir uma linguagem específica
[...]; utiliza determinados termos técnicos [...]; significador de conceitos [...]; como determinante de fatos [...]; sistema fechado de crenças [...];
algo que está em progressiva transformação [...]; complexo processo de formação intelectual [...]; forma de conceber problemas [...]; sistema estrutural que resiste tenazmente a tudo que o contradiz [...]; concepção dominante ou vigente [...]; uma espécie de harmonia das ilusões [...]; agregação de idéias admissíveis (plausíveis) fechadas e idôneas (aptas) para a divulgação [...]; algo que molda a formação [...]; estruturador/indicador das conexões entre sujeito e objeto [...]; disposição para um perceber dirigido orientado para ver e agir de uma maneira e não de outra [...]; dando forma, conformidade ao fato [...];
direcionador da observação [...]; determinado
psico/sócio/historicamente [...] e estilo técnico e literário do sistema do saber [...]. (DELIZOICOV, 2002, p. 56, grifo da autora).
De acordo com Fleck (1986, p. 131), a tradição, a formação e os costumes de uma época originam uma disposição a perceber e atuar conforme um estilo, isto é, de forma dirigida e restringida. Ou seja, o Estilo de Pensamento é o direcionador no modo de pensar e de agir de um grupo de pesquisadores de uma determinada área do conhecimento. Nesse sentido, pretende-se identificar elementos, nas dissertações e teses de EA, que possam caracterizar os conhecimentos, as práticas e as tradições compartilhadas nesses trabalhos.
Para Fleck (1986), o Estilo de Pensamento consiste, como qualquer estilo, em uma determinada atitude e um tipo de execução que o consuma. Essa atitude tem duas partes extremamente relacionadas entre si: disposição para um sentir seletivo e para a ação conseqüentemente dirigida. Portanto, podemos definir o Estilo de Pensamento como um perceber dirigido com a correspondente elaboração intelectual e objetiva do percebido. “Fica caracterizado pelos desafios comuns dos problemas que interessam ao coletivo de pensamento, pelas razões que o pensamento coletivo considera evidentes e pelos métodos que emprega como meio de conhecimento. O estilo de pensamento também pode vir acompanhado pelo estilo técnico e literário do sistema de saber”. (FLECK, 1986, p. 145).
Mais especificamente, poderíamos dizer que a categoria Estilo de Pensamento existe enquanto estrutura, mas é uma estrutura que possui elementos constituintes que podem não ser específicos para cada distintos
objetos de estudo. Estes elementos e propriedades é que, sim, podem ajudar para definir o objeto. Portanto, não parece que ocorra a construção da categoria associadamente com a construção do objeto, mas a definição de quais elementos ou propriedades da categoria podem ser utilizados para o objeto de pesquisa em questão. (CUTOLO, 2001, p. 53).
Segundo Fleck (1986, p. 76), o Estilo de Pensamento apresenta duas fases bem distintas. Na época do classicismo de uma teoria só se observam fatos que se encaixam perfeitamente na teoria, contribuindo para o processo de extensão do Estilo de Pensamento. Já a época das complicações ocorre quando surgem as exceções, podendo contribuir para a transformação e a mudança de um Estilo de Pensamento.
Na época clássica ocorre a extensão do Estilo de Pensamento, período em que tudo concorda com o Estilo de Pensamento (FLECK, 1986, p. 55). Além disso, se estabelece a chamada harmonia das ilusões, em que os fenômenos são adaptados ao Estilo de Pensamento com grande êxito. Não obstante, nem sempre tudo se acomoda perfeitamente; têm-se, então, as chamadas complicações, ou seja, os fenômenos que destoam do previsível (FLECK, 1986, p. 140). O coletivo de pensamento esforça-se para adequar as complicações ao estilo (FLECK, 1986, p. 77); todavia, tal coletivo nem sempre alcança êxito. Quando as complicações se intensificam após um período de instauração e extensão de um Estilo de Pensamento surge então uma fase de mudanças no Estilo de Pensamento, ou seja, a transformação do Estilo de Pensamento, reiniciando-se um novo processo com novos conhecimentos e práticas.
Em relação ao Coletivo de Pensamento, que é o portador do Estilo de Pensamento, Fleck (1986, p. 56) argumenta que “quanto mais sistematicamente está construído um ramo do saber e mais rico seja em detalhes e em conexões com outros ramos, tanto menor será a diferença de opiniões entre elas”. Assim, o coletivo de pesquisadores organizados é o portador de memória social que a área de pesquisa apresenta, uma vez que “somente mediante comunidade de investigadores organizados, fomentados pelo saber popular e mantidos durante gerações – mesmo que somente seja pelo fato de que o desenvolvimento dos fenômenos da enfermidade requer décadas – é possível alcançar esta meta” (FLECK, 1986, p. 69). Argumenta que o conceito de sífilis teve que se investigar como qualquer outro sucesso na história das idéias, como um resultado do desenvolvimento e da coincidência de algumas linhas coletivas de pensamento. Desta forma, o Estilo de
Pensamento é o “ponto de confluência das linhas de desenvolvimento de várias idéias do coletivo de pensamento” [...] (FLECK, 1986, p. 87).
Percebe-se o caráter coletivo que a investigação científica apresenta. “Um coletivo bem organizado é o portador de um saber que se supera com muito a capacidade de qualquer indivíduo”, uma vez que “os pensamentos circulam de indivíduo a indivíduo, transformando-se cada vez um pouco, pois cada indivíduo estabelece diferentes relações com eles” (FLECK, 1986, p. 89). O Coletivo de Pensamento trabalha sobre uma base comum, representada pelos conhecimentos e práticas compartilhadas, e cabe a cada indivíduo experimentar modificações individuais. Ou seja, um sujeito acrescenta algo ao Estilo de Pensamento que pode ser aceito e incorporado pelo Coletivo de Pensamento.
Ao pertencer a uma comunidade, o estilo de pensamento coletivo experimenta o fortalecimento social que corresponde a todas as estruturas sociais e está sujeito a um desenvolvimento independente através das generalizações. Coerciona os indivíduos e determina ‘o que não pode pensar-se de outra forma’. Épocas completas são regidas por esta coerção de pensamento (FLECK, 1986, p. 145).
Um Coletivo de Pensamento existe sempre que ocorrem trocas de idéias entre os membros do coletivo. Será um mau observador, aquele que não percebe como uma estimulante conversação entre as pessoas produz um estado, e que cada um deles expressa pensamentos que não estariam em condições de produzir por si mesmo ou em outra companhia. [...]. “O coletivo de pensamento consiste em distintos indivíduos e tem, assim mesmo, sua forma psíquica particular e suas leis especiais de comportamento” (FLECK, 1986, p. 91).
Um indivíduo pode pertencer a vários Coletivos de Pensamento ao mesmo tempo. O estudo de Leite (2004) mostra como Mendel circulava em distintos Coletivos de Pensamento e como ele acaba se apropriando dos conhecimentos para construir a sua teoria sobre o processo de transmissão das características hereditárias. Para Fleck (1986), na medida em que o indivíduo se converte em um membro do CP, ele se submete às suas regras.
Fleck (1986) destaca o papel do Coletivo de Pensamento na formação intelectual dos indivíduos. “A fonte de seu pensar não está nele, mas no entorno social em que ele vive e a atmosfera social que respira. “A pessoa não pode pensar de outra maneira, pois sua mente está estruturada deste modo determinado devido a influência do entorno social que lhe rodeia” (FLECK, 1986, p. 93).
Ao afirmar que o Coletivo de Pensamento é o portador do Estilo de Pensamento, Fleck afirma o caráter dinâmico da produção do conhecimento, demonstrando que “o saber vive no coletivo e se reelabora incessantemente” (FLECK, 1986, p. 141).
Se definirmos ‘coletivo de pensamento’ como uma comunidade das pessoas que estão em intercâmbio ou interação de pensamento, então temos nela o portador do desenvolvimento histórico de uma área do pensamento, de um determinado estado do conhecimento e estado da cultura, ou seja, um estilo de pensamento em particular. Com isso, o coletivo de pensamento prove o membro que faltava do relacionamento buscado. (FLECK, 1986, p. 57-58).
Ao longo de seu trabalho, Fleck (1986, p. 154) relata a existência de vários coletivos de pensamentos que compõem a sociedade. Entre eles, destaca os Coletivos de Pensamento do esporte, da arte, da política, da moda, de uma ciência, de uma religião.
Fleck foi o primeiro epistemólogo a perceber e valorizar a importância da formação dos cientistas jovens na análise da estrutura da comunidade científica. O modo de introdução em um campo de trabalho proporciona a melhor maneira para “descobrir de que maneira funciona um estilo de pensamento, pois ao pertencer ao grupo e a identidade com ele mesmo, a forma de trabalho e planejamento dos problemas, o equipamento teórico e a aplicação prática se adquirem na fase concreta de formação, que é onde se conhecem e se imitam os modelos” (SCHÄFER; SCHNELLE, 1986, p. 30).