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3 O CAMINHO ESTILÍSTICO: DA VISÃO TRADICIONAL À PERSPECTIVA

3.2 ESTILO NA PERSPECTIVA BAKHTINIANA

Esse elemento constitutivo da linguagem, esse início que governa a produção e o entendimento dos sentidos, “essa fronteira em que eu/outro se interdefinem, se interpretam, sem se confundirem, esse é um dos conceitos centrais do estilo, no conjunto das reflexões bakhtinianas, dialógicas”, segundo Brait, (2012, p. 80). A autora expõe que, para compreender os conceitos de estilo, é preciso percorrer algumas obras do círculo de Bakhtin, considerando o modo como, em cada uma delas, a questão do estilo relaciona-se a pensamentos, estudos, concepções e categorias específicas, adotando aspectos que, somados, “contribuem para uma melhor compreensão da forma de ser a linguagem que carrega consigo uma concepção de linguagem social, histórica, cultural” (BRAIT, 2012, p. 80).

A noção de estilo vai se desenvolvendo ao longo da obra do círculo de Bakhtin e, ao mesmo tempo, o autor estabelece críticas e discussões sobre as vertentes clássicas da linguística, “bem como as filosofias que as fundamentam, quer em afirmações teóricas, quer em análises de diferentes autores, gêneros e particularidades das relações inter e intradiscursos” (BRAIT, 2012, p. 80). Sendo assim, de acordo com Brait (2012), algumas obras foram alvo de reflexões, avaliando o modo como cada autor analisou o conceito de estilo, sendo O discurso na vida e o discurso na arte (1926), Estética da criação verbal (1992), O autor e o herói na atividade estética (1992) e, ainda, Os gêneros do discurso (1992), Marxismo e filosofia da linguagem (1997), Problemas da poética de Dostoiévski

(1997), Questões de literatura e de estética: a teoria do romance (1988), A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais (1987).

É necessário acentuar que Bakhtin, ao analisar as obras dos escritores russos citados, avaliou-as, de uma forma diferente e nova, inserindo seu olhar dialógico, mas investigando as características e o modo singular de escrever de cada autor, oferecendo um novo ponto de vista sobre o estudo da estilística. Sendo assim, de acordo com a pesquisadora Brait (2012), para estudar o estilo dos escritores Dostoiévski e François Rabelais, Bakhtin analisa a tradição literária e não literária e nela localiza os elementos, para investigar as singularidades e dar início a um novo ponto de vista estilístico e uma nova visão das produções literárias.

Em Problemas da poética de Dostoiévski, Bakhtin exibe que as questões estilísticas precisam ir além da análise puramente linguística. A busca do autor é no sentido de saber sob qual ângulo dialógico se confrontam os elementos ou caracterizadores de um estilo em uma obra, enunciado ou em um texto. E, de acordo com Bakhtin, conforme citado por Brait (2012, p. 81), “o ângulo dialógico não pode ser estabelecido por meio de critérios genuinamente linguísticos, porque as relações pertencem ao campo do discurso”.

A estilística deve basear-se não apenas e nem tanto na linguística quanto na metalinguística, que estuda a palavra não no sistema da língua e nem num “texto” tirado da comunicação dialógica, mas precisamente no campo propriamente dito da comunicação dialógica, ou seja, no campo da vida autêntica da palavra. A palavra não é um objeto, mas um meio constantemente ativo, constantemente mutável da comunicação dialógica. Ela nunca basta a uma consciência, a uma voz (BAKHTIN apud BRAIT, 2012, p. 81).

Para Bakhtin (2010), o estilo excede a análise linguística de uma obra, visto que ele pertence ao campo das relações dialógicas. O autor afirma que esse conhecimento precisa ser expandido no campo da comunicação dialógica, pois a palavra está sempre passando de “boca em boca, de um contexto para outro, de um grupo social para outro, de uma geração para outra” (BAKHTIN, 2010, p. 234). Precisamos estudar a linguagem não só no aspecto linguístico, mas também em seu uso vivo. Dessa forma, entender estilo conduz-nos a pensar o motivo pelo qual tal escolha linguística foi feita, qual a intenção tivemos para que fossem eleitas, uma vez que o estilo produz efeitos de sentidos que precisam “ser apreendidos quando analisamos um enunciado, já que o significado que esse enunciado traz não foi construído de forma aleatória, mas foi, antes, arquitetado para validar a intenção do enunciador” ( DOMENES, 2007, p. 4).

Na obra A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais, Bakhtin revelou que o poeta tinha um estilo grotesco, um modo discursivo familiar, uma linguagem da praça pública, estabelecendo relações existentes entre a palavra na vida e na arte. Bakhtin explica que “a linguagem familiar da praça pública caracterizava-se pelo uso frequente de grosserias, ou seja, de expressões e palavras injuriosas, às vezes bastante longas e complicadas” (BAKHTIN, 2008, p. 15).

Em Marxismo e Filosofia da Linguagem, assinado Voloshinov, o estilo surge, trazendo um estudo aprofundado e contemporâneo referente “as formas de transmissão do discurso de outrem, contrapondo-se à leveza redutora e mecânica com que eram tratados os discursos direto, indireto e indireto livre” (BRAIT, 2012, p. 82). Bakhtin (Voloshinov) debate sobre a compreensão ativa do discurso, a inter-relação do contexto narrativo com o discurso citado. Destaca aqui o estilo linear e o estilo pictórico. “No estilo linear a orientação é criar contornos exteriores nítidos à volta do dicurso citado; no estilo pictórico a tendência é atenuar os contornos exteriores nítidos da palavra de outrem” (LIMA, 2012, p. 45). O estilo apresenta-se como uma das formas possíveis do discurso citado, que tem uma realidade histórica, e não permanecem iguais ao longo do tempo, mas admitem a condição de estilo, constatando a ideia de que esse, distante de se “esgotar na autenticidade de um indivíduo, inscreve-se na língua e em seus usos historicamente situados” (BRAIT, 2012, p. 83).

O texto Discurso na vida e discurso na arte, firmado por Voloshinov, apresenta uma análise reflexiva, inovadora sobre estilo e que condiz com a compreensão dialógica da linguagem. “Tomando como interlocutor o mais clássico dos ditos sobre estilo, e, portanto, disparando o confronto com ninguém menos que Buffon” (BRAIT, 2003, p. 4), o autor faz a seguinte declaração:

O estilo é o homem, dizem; mas poderíamos dizer: o estilo é pelo menos duas pessoas ou, mais precisamente, uma pessoa mais seu grupo social na forma do seu representante autorizado, o ouvinte - o participante constante na fala interior e exterior de uma pessoa (VOLOSHINOV; BAKHTIN apud BRAIT, 2012, p. 93).

Dessa forma,Brait (2003), com base na explicação anteriormente exposta, considera que o estilo é social e que essa compreensão deixa de ser refletida com base em uma produção vestida na sua individualidade, e agora estilo implica interação, o que vem ao encontro da concepção dialógica da linguagem proposta por Bakhtin. Ou seja, estilo “está necessariamente implicado em qualquer interação, em qualquer atividade de linguagem e não apenas na atividade literária. Parecendo ser a consequência mais importante para os estudos linguísticos” (BRAIT, 2003, p. 4). A autora acrescenta que, posteriormente, o pensamento bakhtiniano vai estudar em detalhes o que é a

linguagem refletida como atividade, “dentro de atividades específicas, o que vai motivar a inclusão do conceito de esfera de produção e, consequentemente, a de circulação e recepção e, ainda, a relação entre enunciação e interação, gênero e uso, temas, forma composicional e estilo” (BRAIT, 2003, p. 4-5).

Destacamos também que a obra Discurso na vida e discurso na arte faz referência à poética clássica, evidenciando a natureza social e avaliativa da arte, envolvendo num evento artístico o autor, o herói e o ouvinte como participantes essenciais de uma obra, determinando-lhe a força viva que define a forma e o estilo. Em termos gerais, o autor, o herói e o ouvinte não podem, segundo Bakhtin/Voloshinov (1926), ser compreendidos como elementos fora da obra de arte. Na obra artística, são elementos ativos e concretizam a realidade vivida. De acordo com Brait (2012, p. 84), “o estilo de uma obra poética está impregnado da atitude avaliativa do autor”, ou seja, o texto nos mostra que “não se trata da avaliação ideológica incorporada ao conteúdo na forma de julgamentos, mas àquela espécie mais entranhada, mais profunda de avaliação via forma que encontra expressão na própria maneira pela qual o material artístico é visto e disposto” (BRAIT, 2012, p. 84).

A autora nos explica que “um papel muito importante vai ser conferido ao “ouvinte”, ao destinatário, que será considerado como ocupante de uma posição especial, que diz respeito tanto ao autor como ao herói” (BRAIT, 2012, p. 84). Sendo assim, o ouvinte, também, é compreendido como o ouvinte que o próprio autor leva em consideração, aquele a quem a obra é direcionada e que, por consequência, interiormente determina a estrutura da obra. Podemos notar que Bakhtin/Voloshinov estabelecem o diálogo como a ponte de acesso do estilo. “É a relação responsiva contínua entre o ouvinte, o autor e o herói que acaba por constituir a tessitura de um texto” (VOLOSHINOV apud LIMA, 2012, p. 48).

Estética da criação verbal, no texto O autor e o herói na atividade estética, foi escrito entre 1920-1930 e firmado por Bakhtin. Para Brait (2012), o estilo aqui é marcado como conjunto operante de procedimentos de acabamento. A escrita se sobressai, consistindo em ser a relação do autor com a língua e, portanto, sua forma de uso da língua. Brait (2012) explica que, por meio de material impresso, revela-se a relação do autor com a vida, isto é, “o estilo artístico aqui não trabalha com palavras, mas com os componentes do mundo, com os valores do mundo e da vida” (BRAIT, 2012, p. 87, grifo da autora). E complementa que o estilo pode ser definido “como o conjunto dos procedimentos de formação e de acabamento do homem e do seu mundo. E é esse estilo que determina, também, a relação com o material, com a palavra” (BRAIT, 2012, p. 87, grifo da autora). Bakhtin chama de estilo “a unidade constituída pelos procedimentos empregados para dar a forma e

acabamento ao herói e ao seu mundo e pelos recursos, determinados por esses procedimentos, empregados para elaborar e adaptar um material” (BAKHTIN apud BRAIT, 2012, p. 87).

No texto Os gêneros do discurso, escrito entre 1952-1953, Bakhtin revela que, para explicar os gêneros discursivos, uma das questões notáveis é o fato de que eles percorrem por todas as atividades humanas e precisam ser refletidos, culturalmente.

De acordo com Bakhtin (apud BRAIT, 2012), todo estilo está interligado ao enunciado e aos gêneros do discurso. Sendo assim, todo enunciado, sendo oral ou escrito, está relacionado ao gênero primário ou secundário e a um ou outro campo da comunicação discursiva. Bakhtin considera que “o estilo também depende do tipo de relação existente entre o locutor e os outros parceiros da comunicação verbal” (BRAIT, 2012, p. 89). Ou seja, com os ouvintes, os leitores, os parceiros, o discurso do outro etc. “Mesmo no caso dos gêneros altamente estratificados, sua diversidade deve-se ao fato de eles variarem conforme as circunstâncias, a posição social e o relacionamento pessoal dos parceiros” (BRAIT, 2012, p. 89). A autora explica que existe também o estilo familiar que admite diversos graus de familiaridade e de intimidade. Ainda em Gêneros do discurso, a concepção de destinatário foi esclarecida por Bakhtin e seu Círculo. Eles explicaram que “o estilo depende do modo que o locutor percebe e compreende seu destinatário e do modo que ele presume uma compreensão responsiva ativa: este destinatário pode ser o parceiro e interlocutor direto do diálogo na vida cotidiana, pode ser o conjunto diferenciado de especialistas” e vários outros (BAKHTIN apud BRAIT, 2012, p. 95).

Para finalizar, Brait nos resume como se dá com o conceito bakhtiniano de estilo: “ele não pode separar-se da ideia de que se olha um enunciado, um gênero, um texto, um discurso, como participante, ao mesmo tempo, de uma história, de uma cultura e da autenticidade de um acontecimento, de um evento” (BRAIT, 2012, p. 96), o que propicia uma visão da estilística situada na concepção dialógica, princípio que conduz as relações constitutivas do sujeito e, de seu estilo.