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PARTE II – COPING RELIGIOSO/ESPIRITUAL – CONCEITO, ESTILOS E

CAPÍTULO 4 ESTILOS DE COPING RELIGIOSO

Ao analisar mais detalhadamente os estilos de coping religioso, reforçamos o que já foi falado anteriormente: o fato de que esses estilos referem-se a padrões pessoais de enfrentamento com os recursos religiosos, com razoável grau de consistência, em face de diferentes situações desafiadoras e geradoras de stress (PARGAMENT, 1977).

Pargament nomeou os três estilos de coping religioso encontrados em suas pesquisas de estilo autodiretivo (self-directing style), estilo delegante (deferring style) e estilo colaborativo (collaborative style).

É importante ainda ressaltar que esses estilos de coping religioso não estão necessariamente acoplados a nenhuma estrutura de personalidade (apesar de poderem expressar certa tendência em reagir), visto que o estilo de coping religioso utilizado também depende da situação e do momento que a pessoa vive, podendo ela, em diferentes circunstâncias, variá-lo, visto que o estilo de coping religioso anterior não mais lhe atende. Isso porque as pessoas não se utilizam dos métodos religiosos de coping de maneira única; ao invés disso, elas utilizam padrões de configuração mesclados uns aos outros, e esses padrões talvez concedam força para o papel da religião no processo de coping.

Enfatizamos também que Pargament tampouco quis estabelecer qualquer hierarquia entre os estilos de coping religioso no sentido daqueles que melhores resultados produzem na vida dos indivíduos em situação de stress.

Reiteramos ainda o que já foi dito acerca do fato de que Pargament não quis reduzir as abordagens de controle do stress unicamente a esses três tipos de coping religioso, mas sim buscou identificar as distintas formas pelas quais as pessoas integram (ou não) suas concepções do poder divino com a iniciativa humana na busca por encontrar soluções para suas situações de stress.

Particularizaremos, a seguir, o funcionamento e a relação de cada um desses estilos com outras medidas de competências psicológicas e sociais, que, para Pargament (1997), referem-se ao âmbito psicológico e social de fontes de resolução que as pessoas desenvolvem ao longo da vida, incluindo as atitudes positivas em relação a si mesmas, em relação aos outros e a uma efetiva habilidade de resolver problemas.

4.1 – Estilo Delegante (Deferring Style)

No estilo delegante de coping religioso, a responsabilidade do coping é passivamente delegada à divindade e/ou a suas representações por aquele que crê, o que está relacionado a um grande senso de controle por Deus, por doutrinas fundamentalistas e ortodoxas e pela religiosidade extrínseca. A ênfase desse estilo de coping religioso é a dependência na autoridade externa, e as crenças são utilizadas como uma forma de tratar necessidades particulares.

Ao se comparar o estilo delegante de coping religioso com diferentes níveis de competência pessoal e social, percebeu-se, na maioria das pesquisas, que havia uma associação entre esse estilo e indicadores de empobrecimento de competências, revelando baixo senso de controle pessoal, baixa autoestima, menor capacidade de planejamento para a resolução de problemas e grande intolerância às diferenças entre as pessoas.

Entretanto, em outros estudos nos quais as pessoas envolvidas experimentavam situações de alta complexidade e baixo controle individual, o estilo delegante de coping religioso mostrou-se mais eficiente que qualquer outro, uma vez que o indivíduo, nesse caso, não perdia sua capacidade de ter esperança nem de ter suas forças de enfrentamento renovadas, pois reconhecia que não conseguia mais agir e, ao adotar a postura de se entregar e desistir do controle da situação, delegando-a para um ser onipotente e benigno, conseguia suportar e, em alguns casos, superar o alto grau de stress que vivia (BURGER, 1989).

Em algumas pesquisas sobre o uso abusivo de álcool, o estilo de coping religioso que se mostrou mais eficaz na recuperação dos dependentes químicos foi o delegante (HARRIS & SPILKA, 1990).

4.2 – Estilo Colaborativo (Collaborative Style)

No estilo colaborativo de coping religioso, o controle e poder concedidos pela religião nos enfrentamentos do stress centralizam-se na relação entre o indivíduo e a divindade em que o indivíduo sente-se parceiro da divindade, o que torna a responsabilidade do coping uma experiência compartilhada entre a divindade e o indivíduo.

O estilo colaborativo de coping religioso é associado a uma grande frequência de orações e à religiosidade intrínseca, todos considerados indicadores de um maior comprometimento e de uma forma mais relacional de religião.

Quando se analisam a associação dos resultados de competência e pesquisas de coping religioso, um padrão consistente emerge do estilo colaborativo de coping religioso. O sentimento compartilhado de poder e controle consubstanciado nessa abordagem parece tornar o estado da pessoa mais saudável mentalmente, com melhores resultados nas suas ações em face às situações negativas e estressantes de seu viver.

Comparando o estilo colaborativo de coping religioso com diferentes graus de competência pessoal e social, percebe-se o quanto esse estilo parece melhorar a competência individual, uma vez que se associa a um grande senso pessoal de controle, a um baixo senso de controle de ocasião e a um alto grau de autoestima.

Em alguns estudos, o estilo colaborativo de coping religioso também foi associado com diminuição de sintomas e menor grau de ansiedade e, ainda que contribuísse para um alto grau de sentimento de culpa, também demonstrava, simultaneamente ao sentimento de culpa vivido, o conforto emocional proporcionado pela sensação da graça e do perdão dos pecados concedidos pela divindade (McINTOSH & SPILKA,1990; SCHAEFER & GORSUCH, 1991; KAISER, 1991).

4.3 – Estilo Autodiretivo (Self-Directing Style)

No estilo autodiretivo de coping religioso, há um alto grau de envolvimento da pessoa com sua religião; entretanto, ela não depende da divindade, e sim dela mesma em seu processo de coping. Sendo assim, a responsabilidade do enfrentamento do stress é posta sobre o indivíduo, que, apesar de considerar a presença da divindade em sua vida, percebe-o oferecendo a liberdade e os recursos para que o enfrente sozinho.

Ao se associar o estilo autodiretivo de coping religioso com distintos graus de competência pessoal e social, verificou-se que esse estilo está relacionado com um alto grau de senso pessoal de controle do viver e a um alto grau de autoestima. Nesse caso, as pessoas mostraram-se ainda pró-ativas e autônomas nas soluções de seus problemas e em suas situações de stress. Ainda que o estilo autodiretivo de coping religioso pareça fazer parte, de maneira geral, de uma forma competente de viver, viu-se em algumas pesquisas que esse estilo também se mostrou associado a resultados insuficientes em certos grupos, sobretudo nas situações em que havia na realidade, pouco controle individual da situação vivida, nas quais talvez a melhor forma de se lidar com o infortúnio fosse delegar o controle da situação a uma força externa, capaz de dar suporte. Pareceu que a ausência da condição de entrega e de renúncia do controle acabava deixando a pessoa mais vulnerável.

Outras pesquisas associaram o estilo autodiretivo de coping religioso a resultados empobrecidos (HARRIS & SPILKA, 1990).

4.4- Escalas de Coping Religioso

Desde os anos 1990, houve um incremento do número de pesquisas focadas no papel da religião em face dos principais estressores da vida. Estudos empíricos têm demonstrado o grande número de pessoas que se voltam para a religião como fonte em suas buscas para entender e lidar com os momentos difíceis da vida (PARGAMENT, 2007; TARAKESCHWAR et al., 2005).

A Escala Brief RCOPE (criada a partir da Escala RCOPE, ambas elaboradas por Kenneth I. Pargament) é a escala mais comumente usada para medir o coping religioso e tem produzido uma variedade de dados significativos (PARGAMENT et al., 2011). Outras abordagens têm buscado medir o coping religioso; entretanto, podemos elencar alguns limites encontrados para sua utilização.

Seguindo análise crítica feita por Pargament e colaboradores (2011) de três abordagens de avaliação de coping religioso, encontramos na primeira delas alguns itens que questionam a frequência com que o indivíduo faz orações ou busca a congregação religiosa em tempos de stress. Esses itens tocam nos “canais religiosos” usados em situações de stress, mas não fornecem informações sobre quais são os métodos de coping religioso empregado (AI et al., 2008; BADE, 2008).

Uma segunda abordagem tem envolvido um corpo de itens sobre coping religioso com medidas mais gerais de coping, como, por exemplo, a Escala dos Tipos de Coping de Lazarus e Folkman (LAZARUS & FOLKMAN, 1984) e a Escala de COPE de Carver e colaboradores (CARVER et al.,1989). Entretanto, esse método cobre apenas alguns tipos de coping religioso. Pargament (2011) comenta ainda, a esse respeito, que tal abordagem pode obscurecer as distintas contribuições dadas pela religião ao processo de coping.

Uma terceira abordagem está concentrada em alguns métodos de coping religioso em profundidade, como a Escala de Estilos de Coping Religioso, criada pelo próprio Pargament e colaboradores (1988), que apresenta o uso dos estilos autodiretivo, delegante e colaborador de coping religioso, contudo, não oferece um quadro compreensivo do coping religioso.

A Escala RCOPE (ANEXO) e a Escala Brief RECOPE (ANEXO) foram criadas no intuito de superar as limitações apresentadas pelas primeiras abordagens de avaliação do coping religioso. A Escala RCOPE teve a intenção de oferecer aos pesquisadores uma ferramenta com a qual eles pudessem medir uma miríade de manifestações do coping religioso, bem como se propunha a ajudar os psicoterapeutas e conselheiros a melhor integrar a dimensão religiosa e espiritual nos tratamentos de ajuda.

A construção da Escala RCOPE foi guiada pelos elementos da Teoria do Coping Religioso de Pargament (1997) e apresenta-se como um instrumento de avaliação com características multifuncional, multimodal e polivalente. É multifuncional, pois permite a seleção e designação de cinco funções da espiritualidade: sentido, controle, conforto, intimidade e transformação da vida. Mostra-se como escala multimodal porque seus itens apresentam a forma como as pessoas empregam o coping religioso cognitivamente, através de pensamentos e atitudes. E, por fim, mostra-se como uma escala polivalente porque foi construída assumindo-se que as estratégias de coping religioso podem ser adaptativas ou prejudiciais, refletindo métodos positivos de coping religioso que asseguram uma relação de apoio com o sagrado, bem como evidenciando métodos negativos de coping religioso, aqueles que refletem tensão, conflitos e combates com o sagrado.

A Escala RCOPE completa apresenta 105 itens para cada um de seus 21 subitens. Para se chegar a essa proposta, as propriedades psicométricas da escala foram testadas e analisadas inicialmente em 540 estudantes universitários que viviam sérios eventos negativos em suas vidas e em 551 adultos de meia idade e idosos em situação de sofrimento médico (PARGAMENT et al., 2011).

A Escala Brief RECOPE, de 14 itens, foi desenhada para também oferecer a pesquisadores e psicólogos clínicos uma eficiente visão do coping religioso, fundamentada teórica e funcionalmente na Escala RECOPE, e foi gerada pela necessidade de se ter uma versão com menos itens do que esta última (PARGAMENT et al., 2011).

A forma abreviada dos 21 subitens da Escala RECOPE foi testada usando-se inicialmente a amostra de pessoas que viveram próximo ao atentado a bomba de Oklahoma City, nos Estados Unidos da América do Norte, no ano de 1995. As análises fatoriais evidenciaram a validade e fidedignidade da versão abreviada da Escala RCOPE, que ficou composta em sua versão final por 14 itens que foram divididos em duas subescalas, cada uma composta por 7 subitens, gerando assim a Subescala de Coping Religioso Positivo (PRC) e a Subescala de Coping Religioso Negativo (NRC).

A Subescala de Coping Religioso Positivo (PRC) tocava no senso de conexão da pessoa com a força transcendente, com os cuidados de Deus e com a crença de que a vida era cheia de um sentido benevolente. A Subescala de Coping Religioso Negativo (NRC) caracterizava-se por sinais de tensão espiritual, conflitos e lutas com o transcendente e outras manifestações negativas da ressignificação do poder de Deus, ressignificação do demônio, questionamentos e dúvidas espirituais e descontentamento religioso interpessoal.

Apesar de os estudos iniciais das escalas RCOPE e Brief RCOPE terem sido conduzidos com uma larga amostragem de cristãos inseridos na cultura da América do Norte, de tradição judaico-cristã, com maioria protestante e católica, e também na Europa Ocidental, outras pesquisas de validação dessas escalas foram feitas em diferentes países, culturas e religiões.

Kan e Watson (2006) traduziram a Escala Brief RCOPE para Urdu em seu estudo com estudantes universitários da Universidade Mulçumana do Paquistão, e ali foram encontrados os seguintes resultados: o índice de PRC (Coping Religioso Positivo) foi correlacionado com orientação religiosa

extrínseca e não foi associado nem com ansiedade, nem com depressão, nem com hostilidade. O índice de NRC (Coping Religioso Negativo) foi significativamente correlacionado com ansiedade, depressão e hostilidade. Outro estudo de validação entre culturas foi realizado por Baam e colaboradores (2010), relacionando a Escala Brief RCOPE com a Escala de 10 itens para a Depressão entre nativos imigrantes alemães, marroquinos, turcos, surinameses e antilhanos que viviam em Amsterdã. Os resultados desse estudo confirmaram a validação da Subescala PRC, mas não confirmaram a Subescala NRC.

Também no Brasil, foi realizada a validação da Escala RCOPE por Panzini (PANZINI, 2004; PANZINI E BANDEIRA, 2005), que se tornou a primeira publicação nacional da avaliação de coping religioso/espiritual nomeada de Escala de Coping Religioso Espiritual - CRE, e, na sequência foi elaborada por Panzini a Escala CRE-BREVE, uma versão abreviada da Escala CRE (Panzini, 2011).

Outra validação foi realizada no Brasil por Faria e Seidl (2006), desta feita baseada na Brief RCOPE, a qual foi nomeada de Escala Breve de Enfrentamento Religioso, que é composta por 14 itens divididos em duas subescalas: a Subescala de Coping Religioso Positivo, composta de 7 itens, e a Subescala de Coping Religioso Negativo, também composta de 7 itens.

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