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5 RESULTADOS E DISCUSSÃO

5.5 RECONSTRUÇÃO DE PALEOTEMPERATURAS POR MG/CA PARA OS ÚLTIMOS

5.5.3 Estimativas de temperatura e salinidade para os últimos 9.000 anos

5.5.3.1. Temperaturas estimadas por Mg/Ca

As temperaturas estimadas variaram entre 24 e 26°C nos últimos 9,0 ka sendo os valores em geral mais baixos durante o lowstand do nível do mar (Figura 39). A TSM estimada (reconstruída do Mg/Ca médio das câmaras f-1 e f-2) apresentou menor variabilidade que a temperatura na subsuperfície (reconstruída pelo Mg/Ca da câmara f de G.

ruber) indicando águas mais frias (entre 22,5 e 24,5°C) durante o lowstand do nível do mar

(9,0 – 7,0 ka cal AP) e mais quentes e variáveis (entre 23,1 e 28,2°C) após 7,0 ka cal AP. Por outro lado, a resposta das temperaturas na subsuperfície foram mais fortes e apresentaram alguns antagonismos com a TSM em certos períodos de tempo. Águas sub- superfíciais quentes (cerca de 22°C) ocorreram entre 9,0 e 7,5 ka cal AP, em seguida mais baixas com leve tendência de resfriamento (entre 20 e 21,5°C em média) entre 7,5 e 3,5 ka cal AP, em seguida mais altas com valores próximos a 22°C entre 3,5 e 2,5 ka cal AP, e por fim um resfriamento mais marcado com valores próximos a 19°C entre 2,5 e 2,0 ka cal AP e 21,5°C até o topo do perfil.

A temperatura na camada de máximo de clorofila baseada na razão Mg/Ca de G.

bulloides indica águas frias (entre 18 e 19,5°C) entre 9,0 e 8,0 ka cal AP, seguido de águas

mais quentes (entre 19 e 20,5°C) entre 8,0 e 6,0 ka cal AP, seguido de um período mais variável, mas com uma maior ocorrência de águas frias (em torno de 18,5°C) entre 5,0 e 4,2 ka cal AP, seguido de um aquecimento (temperaturas entre 20 e 22°C) entre 4,2 e 3,0 ka cal AP, seguido de uma tendência de resfriamento até o topo do perfil com apenas uma interrupção em 1,8 ka cal AP onde temperaturas entre 21 e 22°C foram registradas.

Figura 39 – Temperaturas estimadas através das razões Mg/Ca de G. ruber (câmaras f-1 e f-2, vermelho; e

câmara f, azul) e G. bulloides (verde) pelo método LA-ICP_MS ao longo dos primeiros 230 cm do testemunho CF10-01B. (a) exibe a variabilidade levando em consideração os erros das equações de calibração (áreas coloridas) e os desvios-padrões médios do Mg/Ca para cada espécie (barras de erro). (b) representa a variabilidade e o respectivo significado teórico baseando-se na distribuição das espécies, a linha grossa representa uma suavização de cinco pontos.

Baseado na Figura 39a, onde as incertezas relacionadas à heterogeneidade e à equação de calibração observa-se que não houve sobreposição entre as temperaturas de superfície e subsuperfície em quase todo o registro (mesmo entre as câmaras de G. ruber cujas margens de erro são maiores), indicando que a TSM pode não ser a melhor forma de se reconstruir a variabilidade da ressurgência na plataforma continental do SRCF no Holoceno, pois a ACAS alcança a zona fótica, mas não na superfície. Entretanto, a TSM poderia ser eficiente para períodos de tempo superiores a 10.000 anos pois a plataforma continental externa do SRCF pôde ter estado dentro da zona da ressurgência costeira durante o pós-glacial quando o nível do mar era suficientemente baixo. Além disso, alguns estudos (LOHMAN, 1992; TOLEDO et al., 2008) apontam para evidências de eventos de ressurgência generalizados durante o último glacial no Atlântico SO, mas essa região ainda carece de informações que nos possam levar a conclusões mais robustas.

Outro aspecto apresentado na Figura 39a é a variabilidade das temperaturas reconstruídas para a câmara f de G. ruber e G. bulloides cujas incertezas calculadas se sobrepõem na maior parte do registro, indicando mesmas condições de temperatura para ambas as espécies. Tais sobreposições foram mais frequentes quando as temperaturas reconstruídas para G. bulloides foram mais altas, indicando que ambas as espécies podem habitar sob as mesmas condições de temperatura quando a ressurgência da ACAS está mais fraca, porém não se pôde assumir que ambas coexistam no mesmo intervalo de tempo.

Baseado na diferença entre as temperaturas registradas pelas câmaras anteriores e a última de G. ruber, os níveis de estratificação entre a superfície e a subsuperfície da coluna

d’água foram reconstruídos (Figura 39a eFigura 40). O período de lowstand foi marcado por

águas frias e homogêneas, perdurando até 7,5 ka cal AP quando a diferença entre as temperaturas em superfície e subsuperfície aumenta o suficiente para separar os valores das câmaras mesmo considerando as incertezas (Figura 39a). A baixa estratificação estimada para

o lowstand do nível do mar, junto com as temperaturas Mg/CaGb fortalecem a hipótese da

influência da ressurgência costeira sobre a estação 1. Após 7,5 ka cal AP, o nível do mar aumenta o suficiente e isola a camada superficial da coluna d’água que deixa de ser influenciada pelos pulsos de ressurgência da ACAS. Entre 3,5 e 2,5 ka cal AP a estratificação foi menor, mas agora sob influências de águas quentes indicando a descida da termoclina que pode ser associada a um menor alcance vertical da ressurgência da ACAS.

Figura 40 – Variabilidade da diferença entre as temperaturas reconstruídas pela média do Mg/Ca das câmaras f-

1 e f-2 e a câmara f de G. ruber. A linha grossa representa uma suavização de cinco pontos.

5.5.3.2. Paleossalinidade estimadas por δ18O

A salinidade superficial do mar (SSM) reconstruída com base no δ18Oágua pela

equação de Shackleton usou a média da temperatura estimada pela razão Mg/Ca das câmaras

f-1 e f-2 de G. ruber visando uma maior relação com a camada superficial (Figura 41). A

curva de salinidade nos últimos 9,0 ka cal indicou baixos valores entre 9,0 e 7,0 ka cal AP e após 4,0 ka cal AP e uma tendência de aumento entre 7,0 e 4,0 ka cal AP com um pico em 6,0 ka cal AP e 4,0 ka cal AP.

Figura 41 – Variabilidade da SSM estimada pelo δ18Oágua de G. ruber ao longo do testemunho CF10-01B. A

linha grossa representa uma suavização de cinco pontos.

A variabilidade observada corrobora influência decrescente de eventos de ressurgência costeira da ACAS durante o lowstand do nível do mar e uma forte influência da AT entre 7,0 e 6,0 ka cal AP. Entre 6,0 e 4,0 ka cal AP a salinidade apresentou alta variabilidade, mas com uma tendência para valores um pouco mais baixos que no intervalo anterior, o que associado ao crescimento gradual da similaridade das assembleias com a biofácies B (AT + águas de plataforma) sugere intrusões de águas costeiras e produtivas sobre a AT. Após 4,0 ka cal AP, a rápida diminuição da salinidade corrobora a ofensiva de águas costeiras se misturando a AT, apontada pelo máximo da biofácies B, reflexo do clima mais úmido que se instalou em 5,0 ka cal AP influenciando primeiro a plataforma interna e depois a plataforma externa em 4,0 ka cal AP. Já para os últimos 2,5 ka, a manutenção das baixas salinidades pôde ter sido reflexo do fortalecimento da ressurgência.